Em ‘Sitiado em Lagos’, Abdias Nascimento faz a defesa do quilombismo

Livro traz relatos irretocáveis sobre repressão da ditadura militar que buscava deixar autor 'sem-voz e sem-nome'

Acabo de ler “Sitiado em Lagos”, obra do ativista negro brasileiro Abdias Nascimento, morto em 2011, no Rio de Janeiro. A obra, publicada agora pela Perspectiva em segunda edição, tem como subtítulo “Autodefesa de um Negro Acossado pelo Racismo”. É um grande texto/tese para se compreender o racismo no Brasil, do ponto de vista de um de seus mais genuínos pensadores e intelectuais, cujo nascimento completou, em 14 de março, 110 anos.

A publicação atual de “Sitiado em Lagos” surge quatro décadas após a primeira edição, quando Nascimento participou, em Lagos, na Nigéria, no ano de 1977, da segunda edição do Fesman (Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas) —também conhecido pela sigla em inglês Festac (First Pan-African Festival of Arts and Culture).

Na edição original em inglês, o prefácio coube ao amigo e dramaturgo Wole Soyinka, que em 1986 ganharia o prêmio Nobel de Literatura.

Capa do livro ‘Sitiado em Lagos’, do ativista negro brasileiro Abdias Nascimento – Reprodução/Ed. Perspectiva e Ipeafro

Como se sabe, Abdias Nascimento é o maior nome do que se convencionou chamar de quilombismo no Brasil, talvez seu maior defensor e propagador, movimento comparado, guardadas as devidas proporções, ao de “négritude”, conceito defendido pelos pan-africanistas Léopold Sédar Senghor e seus aliados, Aimé Césaire e Alioune Diop.

No Brasil, Nascimento sempre remou contra a corrente nas afirmações de que aqui se vivia uma democracia racial. Dentro dessa bolha, e em pleno regime ditatorial militar brasileiro, que endurece suas regras de repressão e violência após 1968, ano do AI-5, é que vai acontecer o segundo Fesman, que reúne expoentes da música, das artes plásticas, da dança e do teatro, com representantes de diversos países, dentre os quais uma delegação afro-americana.

Nascimento, em 1977, estava na Nigéria, onde era professor visitante na Universidade de Ifé (hoje Universidade Obafemi Awolowo), convidado por Wande Abimbola, o diretor do Departamento de Línguas e Literaturas Africanas. Veio dos Estados Unidos, onde teve o passaporte cassado, numa clara investida da perseguição política que o rondava desde o Brasil, de onde saiu, às pressas, no ano de 1968.

Sua ida ao país africano, no entanto, na companhia da mulher, Elisa Larkin do Nascimento, só foi possível após a obtenção de um documento do Departamento de Justiça americano, que lhe dava a garantia de saída e retorno.

Este e outros climas vividos por Nascimento fazem parte dos episódios narrados por ele neste livro importante e maravilhoso. Ainda em “Sitiados em Lagos”, traz relatos sem retoques sobre as condições impostas pela repressão, calcadas na ditadura militar brasileira, no intuito de deixá-lo “sem-voz e sem-nome”, no que concerne as suas denúncias sobre o racismo.

O livro também registra momentos cruciais da política brasileira durante a década de 1970, de aproximação com os países africanos e de franca propaganda sobre a cultura ideológica da “democracia racial”.

A atual edição expõe três grandes depoimentos que norteiam a verve e a inteireza do posicionamento combativo de Nascimento face ao racismo brasileiro, especialmente no regime militar.

Exatamente no primeiro deles, que dá título ao volume, mostra as mazelas e artimanhas militares para barrar a participação de Nascimento no segundo Fesman, onde ficou evidenciado o comprometimento da delegação diplomática brasileira com os órgãos repressores, atuando nos bastidores para impedir e para desacreditar Nascimento e suas teses no evento.

Nascimento relata nesse primeiro documento todas essas manobras, classificadas de “lama branquicefálica”, e denuncia o conluio das autoridades, o lado oculto, sombrio e sórdido na produção de dezenas de “telegramas secretos”, aos que ele acaba tendo acesso, com bombardeiros ideológicos, nos bastidores, para evitar sua participação. Essas “estratégia e prática de sítio” são aqui comentados por ele, além da transcrição de uma “nota oficial” da embaixada brasileira e o triste papel dos embaixadores no episódio.

A segunda e terceira partes do livro reproduzem a “Carta Aberta ao 1º Festival Mundial das Artes Negras”, ocorrido em Dacar, em 1966, e “Carta Aberta à 2ª Conferência de Intelectuais Africanos e da Diáspora” (a segunda Ciad), que aconteceu em Salvador, no ano de 2006.

Nesta ocasião, durante a sessão solene de abertura, para chefes e ministros de Estado, Nascimento foi condecorado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a Comenda da Ordem do Rio Branco. Em seu discurso, o homenageado aproveitou para reforçar suas críticas com relação ao racismo, na condição de “um cidadão da África e do Brasil”.

Merecem menções a apresentação escrita por Elisa Larkin, testemunha ocular da história e da luta de Nascimento, os prefácios de Molefi Kete Asante, que presenciou um homem “determinado” a dar voz aos afrodescendentes do Brasil no colóquio e José Maria Pires, o Dom Zumbi, arcebispo da Paraíba, que passou a “tomar consciência” de sua negritude e que esteve ao lado do “boicotado em Lagos” na serra da Barriga. Como se vê, a leitura deste livro é imperdível.


Tom Farias

Jornalista e escritor, é autor de “Carolina, uma Biografia” e do romance “Toda Fúria”

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