“Somos jovens, negros, favelados–Queremos viver!”

Juventude Protesta e Pensa Soluções para Violência Policial nas Favelas do Rio

Depois das recentes mortes de Aliélson Nogueira de 21 anos no dia 04 de abril, e de Mateus Oliveira Casé por policiais da UPP em Manguinhos no dia 20 de março, moradores de favelas, ONGs, organizações comunitárias e ativistas estão se unindo em uma série de eventos para protestar contra o contínuo assassinatos de jovens, negros, e favelados por agentes do Estado. Além de expressar sua indignação, a rede–que inclui o Fórum de Juventude do Rio de Janeiro,Fórum Social de Manguinhos, Rede Contra Violência, Observatório de Favelas, Ocupa Alemão, Favela Não Se Cale, Apafunk, Favela em Foco e Imagens do Povo–está construindo propostas e iniciativas para criar mais transparência, prestação de contas e ação coletiva com o objetivo de acabar com a sistêmica violência policial contra a juventude negra favelada.

Na noite da última quarta-feira, dia 10 de abril, representantes dessas organizações e moradores de favelas de diversas partes da cidade participaram de um evento em Vila Turismo, Manguinhos–próximo ao local onde Mateus morreu–para articular sua indignação sobre os recentes assassinatos e a contínua opressão e violência policial, especialmente depois da implantação de Unidades de Polícia Pacificadora nestas regiões.

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Raul Santiago, fotógrafo, morador do Complexo do Alemão e integrante do movimento Ocupa Alemão, foi um dos que falou ao microfone: “Na mídia está passando sempre que acontece um caso desse, que é fato isolado. Mas se a gente para pra pensar quantos fatos isolados têm acontecido?”

A animosidade cotidiana da polícia contra moradores de favela, buscas agressivas, ameaças verbais e suposição da criminalidade dos moradores foram denunciadas numa séria de falas por moradores de favelas e ativistas, detalhando a paisagem mais ampla da violência policial contra a juventude nas favelas. A importância de comunicar e demandar coletivamente que os direitos sejam garantidos foi repetida durante a noite. Como MC do funk, Raphael Calazans, disse: “Paz sem voz não é paz, é medo”.

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Levando cartazes produzidos por crianças da comunidade durante o evento de quarta, escrito “Sou jovem, preto, favelado. Quero viver!”, a rede de moradores, organizações e ativistas fizeram um ato na manhã de sexta-feira em frente à Secretaria de Segurança Pública do Estado, na Central do Brasil. Manifestantes e pessoas passando usaram o alto-falante para denunciar a violência policial e opressão pelo estado à juventude favelada, durante a hora do rush. Monique Cruz, do Fórum de Juventude e Fórum Social de Manguinhos, disse: “Esse ato na Central do Brasil é para os trabalhadores que têm filhos que têm medo de andar de madrugada. É para chamar a população para conversar com a Secretária de Segurança Publica no sentido de transformar essa relação”.

A polícia militar do Rio de Janeiro tem um registro abominável de violência, e muitas vezes é citada como a polícia que mais mata no mundo. Em 2011, foram registradas 524 mortes pela polícia militar no estado do Rio de Janeiro. Comentando essa estatística no ano passado, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio, deputado estadual Marcelo Freixo afirmou que o perfil dessas vítimas, no Rio e de qualquer cidade brasileira, é o mesmo: são jovens, pobres, negros, de baixíssima escolaridade, moradores de favela e periferia.

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Essa opinião é ecoada em um texto da ONG Redes da Maré, republicado pela Anistia Internacional na última sexta-feira: “O sistema de segurança e justiça no Brasil permanece profundamente marcado por uma noção de controle social voltado basicamente para a criminalização das populações pobres e negras, em particular dos jovens meninos e adolescentes residentes nas favelas”.

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A matéria segue a criticar as UPPs por não abordar ou mudar isso, dizendo: “As práticas policiais nas favelas ‘pacificadas’ não estão conseguindo superar um conceito original de ‘ocupação’ profundamente marcado por uma concepção de cidade que não inclui a favela como parte de uma comunidade de direitos a serem compartilhados integralmente por todas as pessoas que nela residem”.

Moradores de favelas, organizações comunitárias e ativistas recusam a aceitar o que, segundo André Luiz do grupo Favela Não Se Cala, é “uma proposta elitista excludente de cidade”, e estão trabalhando ativamente propostas e iniciativas para combater a violência policial contra a juventude nas favelas e garantir a provisão básica do direito a viver.

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Depois do protesto na manhã, a rede se encontrou na noite de sexta-feira na Biblioteca Parque Manguinhos para discutir essas estratégias. As ideias incluem um aplicativo de smartphone que moradores podem usar para denunciar violações anonimamente e daí mapear os incidentes; inclusão de movimentos sociais no treinamento de policiais das UPPs e promover diálogo aberto com a polícia; e demandar justiça através da comunicação criativa como vídeos virais sobre casos específicos como do Aliélson e Mateus, que espalharam imagens em tempo real nas redes sociais em tempo recorde, expondo rapidamente estes assassinatos nas UPPs da Zone Norte das últimas semanas. Uma preocupação central é como garantir canais de comunicação que permitem moradores denunciar violações sem se expor e comprometer sua segurança.

A reunião de sexta, uma troca dinâmica de ideias em torno do conceito de que a violência sistêmica do estado contra a juventude negra da favela deve acabar, é só o começo. Ontem, segunda-feira dia 15 de abril, o novo movimento se encontrou novamente para desdobrar sua visão de cidade que inclui e respeita seu direito à vida. No dia 25 de abril, um grupo de representantes se reunirão com o secretário de Estado de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, que convocou a reunião após o protesto de sexta-feira.

Falando na quarta-feira, enquanto crianças desenhavam mensagens em memória ao seu amigo Mateus nos cartazes para levar ao ato, Raul do Ocupa Alemão disse simplesmente: “A gente não pode deixar nossa juventude continuar morrendo… A gente não tem que se calar, está tudo errado. Nós temos direitos”.

 

The Favela is Here! Por Mauricio Pestana

A favela em Salve Jorge – Por Cidinha da Silva

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Violência Racial e Genocídio do Negro ( Afrodescendente ) no Brasil

Combate à violência contra a juventude negra e de redução da letalidade nas operações realizadas pelos profissionais de segurança pública e privada

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Fonte: Rio Watch

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