Soterrada pelos ‘vencedores’, história de negros resiste ao apagamento

Trabalhando há mais de 15 anos nos campos do Maranhão e da Bahia e caminhando por lugares distantes que por vezes pareciam inatingíveis, fui convencido de que a história de grande parte de nossa sociedade permanece soterrada.

Se por muito tempo ela foi escrita e documentada pelos “vencedores”, apagando ou reduzindo a nada o que não era considerado significante, podemos afirmar também que continuou a ser transmitida oralmente por famílias e comunidades como forma de resistir e não deixar se apagarem suas origens.

Também é cada vez mais nítida a certeza de que a história se desenrola envolvendo um coletivo, porém sempre a partir da escala do indivíduo, de atos e fatos únicos. É o que a escritora Svetlana Aleksiévitch descreve como sendo o objetivo de seus registros histórico-literários ao tentar “capturar a vida cotidiana da ‘alma’”. Só a partir da vida, única, somada a muitas outras, é que uma sociedade constrói a sua história.

Foi assim, por exemplo, que cheguei à comunidade quilombola de Tijuaçu, no sertão da Bahia. Guardiões de tradições de quase 200 anos, atribuem sua origem à vida de uma mulher e sua busca por liberdade: Mariinha Rodrigues, de quem não há qualquer registro documental, é considerada a pioneira do povoado que conta com uma população de cerca de 900 famílias. Muitos, certamente, são parte de sua descendência.

Conta-se que ela deixou a capital em condições pouco conhecidas e teria percorrido a pé, não se sabe por quanto tempo, os 400 quilômetros que separam Salvador de Senhor do Bonfim, no semiárido baiano. Não se conhece nada mais sobre Rodrigues, a não ser que enfrentou o sistema escravagista vigente por mais de três séculos no país. Mas sua história não nos surpreende por ser semelhante a outras que passamos a conhecer ao longo do tempo, caminhos de coragem e resistência que, por fim, culminaram no começo da abolição da escravidão.

Por carregar em sua história o anseio universal por liberdade, além de se aquilombar no sertão da Bahia com pessoas que guardavam os mesmos desejos, Mariinha Rodrigues poderia ser um dos muitos verbetes do livro “Enciclopédia Negra”, de autoria de Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Schwarcz.

O livro condensa em quase 700 páginas as vidas de mais de 550 personalidades negras que atravessaram cinco séculos de história brasileira. Reúne desde personagens que fazem parte do imaginário popular, como Chica da Silva e Madame Satã, até outros que só descobri durante a leitura, como Nã Agotime. Nã Agotime, possível mãe do rei Guezo do Daomé, teria sido trazida escravizada da África para o Maranhão, em 1810, e é uma das fundadoras da Casa das Minas, espaço religioso de origem jeje/vodun, parte da cultura do estado.

Há também verbetes dedicados a escritores, como Lima Barreto, Machado de Assis, Carolina Maria de Jesus e Maria Firmina dos Reis; músicos, como Chiquinha Gonzaga e Cartola; atores, como Grande Otelo e Isaura Bruno; e mesmo o presidente da República Nilo Peçanha.

O livro está repleto de história curiosas como a de Mônica, mulher imortalizada em fotografias históricas do Brasil Império. Ela aparece nas imagens com o único objetivo de mostrar o poder econômico da família da qual era cativa. Os registros de Mônica com crianças de seus senhores transmitem altivez e dignidade, como na fotografia em que aparece com um xale usado à moda do “pano da costa”, característico de uma das muitas regiões do continente africano de onde partiram pessoas escravizadas.

Outro verbete é dedicado à mítica Luiza Mahin, mãe do advogado e abolicionista Luiz Gama, que possivelmente participou de um dos grandes levantes negros que ocorreram no Brasil, a Revolta dos Malês (1835).

Páginas à frente, encontramos Marielle Franco (1979-2018), que teve sua vida interrompida precocemente por um bárbaro assassinato, sobre o qual ainda aguardamos resposta das autoridades. Marielle era feita dos mesmos sonhos de Mahin e entrou para história como ativista da causa negra e feminista.

No dia 12 de maio, foi celebrado o centenário da atriz Ruth de Souza, que em mais de seis décadas de profissão deixou uma marca incontornável na dramaturgia brasileira. Vi um “doodle” do Google e uma matéria desta Folha homenageando Souza. Poucos meios de comunicação dedicaram-lhe homenagens pela data.

Isso mostra a importância de iniciativas como “Enciclopédia Negra” contra o apagamento da memória de parcela significativa da população. Senti falta de verbetes dedicados à escritora Ruth Guimarães e à atriz Chica Xavier, mas isso não tira o brilho da iniciativa, pelo contrário, nos faz desejar uma periódica atualização.

As trajetórias de homens e mulheres reunidas no volume dão a dimensão do real protagonismo das vidas negras para a história do país.​

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