Super-heróis trazem racismo e feminismo em suas HQs

Chegam às livrarias HQs que discutem temas como racismo, feminismo, drogas e seitas

Do Folhapress

As mudanças de comportamento disparadas pela revolução cultural dos anos 1960 repercutiram nos quadrinhos de heróis no início da década seguinte. E foram muito além de exibir um Superman com o cabelo um pouco mais comprido.

Um exemplo de ruptura radical com a HQ tradicional retorna agora ao Brasil. Chegam às livrarias os três volumes de “Lanterna Verde/Arqueiro Verde”, que reúnem 15 histórias publicadas na revista “Green Lantern”, de abril de 1970 a maio de 1972.

O que está nessas páginas são aventuras que tratam de questões sociais que até então nunca tinham merecido espaço nos quadrinhos: racismo, feminismo, drogas, seitas, hippies, enfim, o mundo em ebulição da época.

Nesse período, o gibi americano do Lanterna Verde ganhou um logo alternativo a partir do número 76, que passou a exibir os nomes dos dois heróis até a edição 89.
O material que a Panini relança agora no Brasil inclui também quatro histórias com a dupla publicadas entre 1972 e 1974 na revista “The Flash”.

A ideia dos diretores da DC Comics era revitalizar personagens veteranos. Lanterna Verde foi criado em 1940. O Arqueiro surgiu no ano seguinte. Ainda em 1969, o desenhista Neal Adams começou a sinalizar mudanças ao reformar o uniforme do Arqueiro Verde e adicionar um cavanhaque ao herói.

O traço realista de Adams tinha acabado de encontrar os roteiros de Dennis O’Neil. A combinação explosiva desses dois talentos era tão evidente que a DC não passou apenas uma, mas sim duas grandes missões para eles.

Além de introduzir temáticas sociais aos heróis verdes, na mesma época os artistas trataram de impregnar um clima sombrio, quase de terror, às aventuras de Batman, então muito associado à imagem cômica da série de TV.

No caso do Homem-Morcego, as mudanças deram novamente ao personagem o posto de maior vendedor de gibis na editora. “Lanterna Verde/Arqueiro Verde” teve sucesso mediano de vendas, mas a revista influenciaria toda a produção posterior do gênero, e não apenas na DC.

De volta à Terra

A primeira história, “O Mal Sucumbirá Ante Minha Presença”, foi um choque para os leitores habituais do Lanterna Verde. Eles estavam acostumados a ver seu herói em jornadas espaciais.

De repente, Hal Jordan, um terráqueo que usava o poder extremo do anel que foi dado pelos Guardiões do Universo para salvar planetas inteiros da destruição, se vê envolvido numa trama em que o Arqueiro Verde pede ajuda para evitar que famílias pobres sejam despejadas de cortiços.

De batalhas galácticas à especulação imobiliária, o salto não é fácil para o Lanterna Verde. Os dois heróis brigam muito. Oliver Queen, o milionário por trás da máscara do Arqueiro, apresenta ao parceiro uma América de feridas expostas, de injustiças profundas e mais difíceis de combater do que invasores alienígenas com raios mortais.

“Easy Rider”

Nos gibis seguintes, a dupla viaja pelos Estados Unidos, no melhor estilo “drop out”, aquele ideal hippie de cair na estrada em busca do autoconhecimento. Qualquer semelhança com o filme “Easy Rider” não é coincidência.

O repertório de temas teve de exploração inescrupulosa de terras indígenas a jovens aliciados por seitas -isso enquanto a mídia acompanhava o julgamento do assassinato real da atriz Sharon Tate por uma dessas seitas.

Outros momentos de grande repercussão dentro da saga foram a introdução de um Lanterna Verde negro e a revolta desesperada do Arqueiro Verde ao descobrir seu pupilo, o jovem herói Ricardito, viciado em heroína.

A última história publicado no gibi da dupla foi escolhida para causar impacto. “…E, Através Dele, Salvar o Mundo…” traz Issac, ativista que pode ser visto por alguns como novo messias. Tem até uma reprodução moderna da crucificação de Cristo.
Depois disso, os gibis nunca mais foram os mesmos.

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