Tamara Franklin renova o rap e apresenta discurso em defesa da mulher negra

Incorporando estilos como baião, batidas africanas e reggae, ela é um dos destaques da cena do hip-hop mineiro

Por Shirley Pacelli Do Divirta-se

“Turbante coroa/felina leoa/ tambores de Gana/ dona da savana.” Com um forte discurso feminista e, especialmente, em defesa da mulher negra, a faixa Vem e vê é só uma das “pedradas” sonoras deAnônima, disco de estreia da rapper Tamara Franklin, de Ribeirão das Neves. O CD, que teve pré-lançamento em dezembro, no Matriz, já está à venda on-line.

Aos 24 anos, Tamara é nome promissor no cenário do hip-hop mineiro, que tem sido dominado por mulheres talentosas como Zaika dos Santos, Bárbara Sweet e Clara Lima. O contato de Tamara com a música se deu aos 8 anos, em uma igreja de sua comunidade. A congregação, liderada por uma mulher, desenvolve trabalhos voltados à periferia. E foi de uma pregação sobre a importância dos anônimos heróis na história que veio o nome da faixa-título do CD – projeto que está longe de ser rotulado como gospel.

Muito ligada às questões raciais, Tamara fez logo conexão com as mulheres que realizaram algo significativo e não tiveram seu nome registrado na história dita “oficial”, como Aqualtune, rainha do Congo que liderou um exército na África e já no Brasil – como escrava – foi avó de Zumbi dos Palmares. “O meu som representa tantos outros anônimos que não têm espaço e voz para falar”, conta a rapper.

Anônima abre o disco e já surpreende de cara pelo som de pífanos. A base do sample foi feita da canção Baião destemperado, do CD Corpo do som (2002), do grupo paulista instrumental Barbatuques. O flow é certeiro e o beat convida à dança. Produzido por Easy CDA, da Xeque Mate Produções, o disco tem 11 faixas que mesclam as batidas clássicas do rap com reggae, samba, cânticos afros e até o som de pífanos.

As letras são pura crítica social e abordam temas como a beleza da mulher negra, ostentação e preconceito racial. “O CD fala do que eu vi, penso e vejo dentro do meu contexto e da minha época, numa linha do tempo que eu sei que existe”, explica Tamara.

Do baião ao reggae. Hey Jah conta com a participação de Gordão, do Uai Sound System, Look e Simimi Ni Moyo, rapper de Luanda (Angola). Já a pop A alma nos une conta com a participação dos moçambicanos Adriana Chyale e Pisco Mazuze, além de Black W, do Morro das Pedras. Tamara conta que tem o hábito de procurar pelo trabalho de artistas independentes africanos. “Começamos a nos falar e criamos essa conexão”, conta ela.

Uma parceria especial e, provavelmente, a faixa mais tocante do disco é Mãe preta. A toada de 1954 é dos famosos sambistas gaúchos Piratini e Caco Velho. “Era assim que mãe preta fazia/ criava todo o branco com muita alegria/ Porém, lá na senzala o seu pretinho apanhava/ Mãe preta mais uma lágrima enxugava.” Tamara divide os versos com seu pai, Marcos Franklin, que cantarolava para ela e suas irmãs a canção.

“É a música que mais mexe comigo, tem uma mensagem muito forte. Ela me altera. No pré-lançamento do CD, meu pai subiu ao palco comigo. Desestabilizou-me. Me segurei para não chorar. E ele tem aquela coisa de passar calma, sabedoria”, conta Tamara. Do patriarca é também a voz que abre o CD. “É para abençoar o trabalho”, diz Tamara.

Maravilhosamente simples traz sample de Saudosa maloca, composição de 1955 de Adoniran Barbosa.Tipicamente brasileiro, que fecha o disco, também começa com samba e é outra faixa forte do projeto. “Essa fugiu completamente do meu processo de composição. Ouço um beat e sempre escrevo em cima de um instrumental. Essa eu acordei com o refrão. ‘Quer me chatear fala do meu cabelo/Quer me chatear fala dos meus parceiros’. Meu amigo Look me desafiou a fazer um rap todo ritmado. Aceitei e deu certo”, diz a rapper. O refrão, como ela própria assume, é daqueles que grudam e passam o dia todo na cabeça.

Para Tamara, nada é regra no hip-hop: “Tem gente que não gosta desse diálogo do rap com outros estilos, outros propõem até passos mais ousados. Tem que ter a ver com suas próprias influências”, conclui Tamara.

NA PELE “Mais uma preta marrenta, vinda das ruas barrentas.” Das letras de Anônima vem a urgência de discutir a luta da mulher negra. Tamara sofreu tudo na pele. “A gente é feia, fedorenta, do cabelo ‘assim’. Cresci vendo as mulheres brancas como os grandes ícones de beleza e ouvindo que eu era macaca”, conta.

A cantora lembra que a mulher negra é permanentemente hostilizada pela sociedade, que não a vê como boa o bastante para um relacionamento ou cargo, mas promove a hipersexualização do seu corpo. “Além disso, a maioria é mãe solteira que tem que segurar a onda em casa com tudo. Ela que enterra seu filho. A maioria dos jovens mortos são negros. É ela que vai ser maltratada em clínicas quando for ganhar o bebê. O maior índice de feminicídio e violência doméstica está entre nós”, acrescenta Tamara.

Assim, a rapper vê a importância de pregar o empoderamento da mulher negra com sua música. E o projeto tem surtido efeito. Já se tornou comum meninas, com orgulho de seus blacks power, enviarem a ela vídeos cantando Tipicamente brasileiro. “A melhor arma que a gente tem contra esse preconceito é se reconhecer como capaz e bonita. Sou negra e isso não me faz menor do que ninguém”, destaca.

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Recentemente, Tamara ensaiou Maria da Vila Matilde, do elogiado disco A mulher do fim do mundo, de Elza Soares, e cogita adotar no repertório dos shows. “Você acha que ela já fez tudo de maravilhoso e não tem como passar daquilo. Aí ela trouxe mais força, mensagens e discussão. Transcende qualquer explicação. É a melhor campanha contra a violência à mulher que eu já vi na vida. E ela fez de forma leve, com toda a energia dela”, elogia.

Em suas apresentações, Tamara canta A mulher do fim do mundo, incluindo o refrão de Cilada, da rapper mineira Sarah Guedes. “Eu não sou mulher para você mesmo não/Moleque não merece tanto assim na mão/ Deus foi generoso até mesmo para Adão/Pra uma costela eu lombro seu caminhão.” “A Elza e a Sarah são artistas que acho fantásticas. Não ignorando a caminhada de cada uma delas, são duas mulheres fortes. Queria homenageá-las”, explica Tamara.

Sarah Guedes é só uma das rappers com as quais ela tem “fechado” atualmente. Zaika dos Santos, Lana Black, Polly Honorato, Page, Brisa Flow e Bárbara Sweet passaram a ser referência para a cantora. “Cheguei dentro do rap cercada por homens. Por muito tempo, absorvi o discurso machista. Engoli sem saber que era. Deixei naturalizar dentro de mim – fora eu já sei que é”, relata.

Ela lembra que a segunda edição da Semana Hip-Hop Alto Vera Cruz, realizada em novembro e comandada por mulheres, foi boicotada por muitos homens do rap de BH. “Acho que a cena das mulheres aqui tende a crescer. Estamos nos organizando para isso. Vi algo bonito entre nós: a picuinha foi deixada de lado para dar apoio umas às outras. Se 2015 foi o ano das mulheres, 2016 vem ainda mais pesado”, avisa.

 

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