quarta-feira, dezembro 7, 2022

Tecendo democracias e territórios

Talvez seja bom levar você, leitora, para o ano de 2020 junto comigo. Se esses meus pensamentos se tornarem incômodos, pense que em breve eu te trarei de volta para o agora.

Era o começo de uma pandemia mundial e, por conta dela, outras crises saltavam aos nossos olhos. Lembro de serem muitas as preocupações e elas acabaram por ficar martelando na cabeça: já não há tantas periferias das periferias isoladas do que dizem cidade? Já não desenharam um limbo entre a cidade da infraestrutura e nós? E nós não a atravessamos nos ônibus e trens lotados? Como convivem o distanciamento social e a coabitação? Como #ficaremcasa sem casa? Como ficar em casa sem pensar no aumento da violência doméstica?

Havia muita coisa nas televisões, redes sociais, -matérias dos jornais que não nos deixavam, nem por um minuto, esquecer que o povo que sofre tem a nossa cor e nossa origem. Lá fora, George Floyd, e no quintal da nossa casa, João Pedro. No complexo de favelas do Salgueiro, aos 14 anos.

Convido para voltarmos para o agora, leitora. Não consigo ficar naqueles pensamentos de quando perdemos João Pedro, em meio uma pandemia, pela mão do Estado.

Do mesmo modo, não pude ficar em casa naquele dia para me proteger do vírus. Durante o ato chamado pela Coalizão Negra Por Direitos, “Com racismo, não há democracia”, encarei o rosto dos sujeitos verdadeiramente comprometidos com o projeto democrático brasileiro, que querem todo o nosso povo vivo: favelados, negros e negras, indígenas, pobres, LGBTIA+. Nesse projeto de democracia cabe todo mundo.

E foi em uma das assembleias do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico que chegamos a este projeto que se lança no mundo: marcar, mais uma vez, como fizeram nossos mais velhos, o lugar das mulheres negras como protagonistas pensadoras e executoras das soluções para esse país, que só poderá sair do terror que vive pela mão das mulheres negras.

Muito se falou de democracia nos últimos anos e meses. Assim como falamos de demarcação de terras, de direito à cidade, de despejo zero… E de resistência em resistência vamos adiando esse fim do mundo. Queremos que nossas ideias estejam no lugar certo da História. No agora e não in memorian. Nós somos mais de 26% da população brasileira e, sim, o grupo mais sub-representado politicamente tem um projeto para este país e já o está implantando.

Depois de muito comprometimento e temores, após mais de um ano de mapeamento e conversas, o Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico tem a honra e a tarefa de receber as reflexões de 15 mulheres negras que admiramos, respeitamos e cujas ideias para tecer democracia e territórios incentivamos fortemente que o Brasil abrace e cultive.

Nestas linhas, a nossa proposta é que, através do que vivemos e estudamos sobre os nossos lugares e as visões que temos sobre eles, possamos estabelecer um diálogo e um registro desse diálogo que acontece neste tempo – porque urge, porque está nas nossas mãos o pensar e o tecer.

Jessica Tavares Cerqueira — Conselheira do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico.


Jessica Tavares Cerqueira 

É pós graduanda em Psicopedagogia e formada em políticas públicas pela Universidade Federal do ABC. Pesquisadora ativista do direito à cidade de mulheres negras e Conselheira do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico. Acredita que pelas mãos dessas mulheres nascem as soluções para uma sociedade mais justa.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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