domingo, agosto 7, 2022
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Televisão em Cores? Raça e sexo nas telenovelas “Globais” (1984-2014)

Desde sua popularização, as novelas da Rede Globo de Televisão tomaram para si a tarefa de representar o Brasil de múltiplas maneiras. Apesar disso, a participação das personagens pretas e pardas nos elencos desses programas sempre esteve aquém do seu peso demográfico no país. Este texto apresenta os dados gerais de um levantamento que buscou medir a representação de atrizes e atores pretos ou pardos na teledramaturgia da emissora. Embora os dados detectem uma tímida tendência à diversificação dos elencos, eles demonstram que os elencos das novelas brasileiras ainda são hegemonicamente brancos.

por Luiz Augusto Campos – Professor IESP-UERJ & João Feres Júnior – Professor IESP-UERJ no GEMAA

Desde a sua popularização na década 1960, a telenovela brasileira se caracterizou por nutrir uma relação estreita com os projetos nacionalistas das elites dirigentes. É verdade que a produção das primeiras novelas de alcance nacional, sobretudo pela Rede Globo de Televisão, dependeu de uma complexa articulação entre grupos artísticos, econômicos e políticos bastante heterogêneos do ponto de vista ideológico. Como é de amplo conhecimento, o suporte dado à emissora pelo Estado ditatorial instaurado em 1964 não impediu que uma parte considerável dos escritores, diretores e atores, quem efetivamente produzia esses programas, tivesse vínculos com movimentos políticos de esquerda, críticos ao regime. Mas apesar desses antagonismos ideológicos, entidades estatais, empresários e artistas convergiam ao menos no caráter nacionalista de seus projetos políticos, o que se refletiu na concepção de teledramaturgia que se tornou hegemônica no país.

Diferentemente do enfoque quase que exclusivo na vida privada dos personagens e em suas tramas afetivas e familiares, que caracteriza as soap operas norte- americanas e as telenovelas de países latino-americanos, como México e Colômbia, a telenovela brasileira tornou-se também um instrumento de difusão (e formação) de uma compreensão de identidade nacional, de suas supostas características essenciais, dilemas e desafios.

Um dos elementos centrais na representação de qualquer nação é a representação de seu povo, de suas características físicas, morais e culturais, vide, entre outros exemplos, as feiras mundiais que se tornaram populares nos Estados Unidos e Europa a partir do final do século XIX (Salvatore, 2006). A despeito de pretender oferecer uma representação apolítica do povo brasileiro; uma em que ele pudesse se reconhecer – intenção esta sintetizada por slogans como “A Globo é mais Brasil”, “Globo, um caso de amor com o Brasil” ou “Globo, a gente se vê por aqui”1 – tal representação só pode ser feita por meio de escolhas, filtragens, supressões etc. Durante a Ditadura Militar, o contexto de alta repressão política e ideológica não permitia que tais escolhas de representação da nação por meio do seu povo fossem contestadas, mas a partir do processo de democratização e da reativação dos movimentos sociais, tais práticas começaram a sofrer forte escrutínio crítico.

Este Texto para Discussão apresenta os dados gerais de uma pesquisa sobre a representação dos grupos raciais brasileiros nas telenovelas da Rede Globo de Televisão nos últimos trinta anos (1984-2014). Não obstante o imaginário nacional formado e divulgado pelas novelas ser limitado e excludente em muitas dimensões (regionais, etários, socioeconômicos etc.), nosso texto avalia somente a interação entre gênero e raça na representação das personagens. O estudo que informa a atual análise ainda está em curso. Aqui são apresentados parte dos resultados obtidos até o presente momento. A partir deles, é possível afirmar que as personagens pretas e pardas não apenas correspondem a uma proporção diminuta dos elencos, como também se fazem mais presentes em novelas de tipos específicos. Isso ajuda a entender que a sub-representação dos pretos e pardos nas telenovelas não é apenas expressão de um limite flagrante da concepção de Brasil que informa este tipo de produção cultural, mas é também a expressão de uma concepção de nação e de povo cujos contornos políticos precisam ser explicitados e criticados.

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