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Tem racismo nas corporações?

Tem racismo nas corporações?

No Brasil, onde 54% da população se reconhece como afrodescendente, segundo dados do IBGE, o racismo ainda ocorre em todos os níveis. Uma pesquisa realizada pela Consultoria Etnus com 200 negros, entre 18 e 50 anos, de diferentes classes sociais, mostrou que 60% deles já foram vítimas de racismo no trabalho e 67% acreditam que deixaram de ser contratados por causa da cor. A pesquisa também mostrou que negros relutam em deixar o emprego, ainda que estejam infelizes ou tenham outras aspirações, porque a recolocação dessa população é mais difícil, na opinião de 36% dos entrevistados.

por Sonia Nabarrete no Experience News

Para Fernando Montenegro, que idealizou a pesquisa, o racismo faz mal ao trabalhador e à empresa porque favorece o  desenvolvimento de doenças físicas e psíquicas e reduz a produtividade.

O tema foi bastante debatido quando Theo Van der Loo, presidente da Bayer do Brasil, publicou um post sobre racismo na rede de relacionamento profissional Linkedin, que foi visto por mais de 300 mil pessoas.

Ele relatou que um conhecido seu, profissional de Tecnologia da Informação, foi chamado para uma entrevista de emprego em uma empresa, mas imediatamente dispensado quando o selecionador viu que se tratava de um afrodescendente. Ao sair, o candidato teve tempo de ouvi-lo comentar com uma colega:

“Não sabia que ele era negro. Eu não entrevisto negros”.

Aconselhado a denunciar o fato, essa vítima de racismo não quis. Alegou que ficaria marcado e seria ainda mais difícil arranjar emprego.

A Bayer mantém no Brasil um comitê para tratar da inclusão de negros porque chegou à conclusão de que aqui esse grupo é o mais discriminado, enquanto que em outros países o foco está dirigido a mulheres, deficientes e população GLBT.

O racismo nas corporações foi o tema escolhido pelo Prof. Dr. Renato Ladeia, professor de Gestão Estratégica de Pessoas no Centro Universitário FEI, para sua tese de doutorado defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Sua motivação foram os muitos casos de discriminação racial que testemunhou nos processos seletivos e na mobilidade e ascensão dos profissionais negros e negras, durante os 24 anos em que trabalhou em RH. A pesquisa, de caráter qualitativo, foi orientada pela Dra. Teresinha Bernardo, estudiosa da população negra no Brasil.

A hipótese era que empresas nacionais seriam mais racistas do que as multinacionais. “As estrangeiras teriam uma postura mais cuidadosa em relação ao racismo do que as nacionais, que vinham de uma cultura de discriminação dos afrodescendentes desde o período escravocrata”, conta Ladeia, que entrevistou profissionais negros, de ambos os sexos, moradores da Grande São Paulo, e também profissionais de RH que trabalham em empresas nacionais e multinacionais.

A pesquisa mostrou que a discriminação de profissionais negros não tem relação com a origem da empresa porque gestores de empresas multinacionais são brasileiros que levam para as empresas a cultura do racismo.  O professor conta que ouviu profissionais de RH afirmarem que evitavam contratar negros para determinadas posições e houve casos de outras áreas pedirem à área de seleção para não encaminhar candidatos negros.

O preconceito a negros no mercado de trabalho também foi escancarado em outra pesquisa, realizada pelo Instituto Ethos, com a constatação de que nas 500 maiores organizações brasileiras, os executivos afrodescendentes representam apenas 4,7%.

A discriminação também está presente na diferença salarial de negros e brancos. Cálculos feitos pelo Instituto Jones dos Santos Neves, a partir de dados do IBGE, mostram que o homem negro, no Espírito Santo, recebe apenas 64% do que é pago ao branco. Para a mulher afrodescendente, a diferença é ainda maior: ela recebe metade do salário de um homem branco.

A Pesquisa nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE revela que no quarto trimestre de 2016 as taxas de desemprego eram maiores entre negros e pardos, que também recebiam menores salários. A renda mensal foi estimada em R$2.043,00. Brancos recebiam R$2.660,00, pardos, apenas R$1.480,00 e negros, R$1.461,00.

O sociólogo Luiz Chateaubriand, da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia sugere duas medidas para reduzir essas diferenças: equalizar o acesso à educação e criar no mercado de trabalho um sistema de cotas para afrodescendentes.

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