Terreiro de religiões de matrizes africanas é destruído por incêndio e representantes denunciam ‘forma brutal de racismo religioso’

Terreiro das Salinas foi alvo de incêndio, no sábado ( 1º), em São José da Coroa Grande, no Litoral Sul de Pernambuco. Nesta segunda (3), polícia informou que investiga a denúncia.

Terreiro das Salinas, em São José da Cora Grande, no Litoral Sul de Pernambuco, foi destruído pelo fogo e representantes denunciaram que foi criminoso — Foto: Reprodução/WhatsApp

Um espaço mantido por seguidores de religiões de matrizes africanas foi destruído pelo fogo, em São José da Coroa Grande, no Litoral Sul de Pernambuco. Representantes do Terreiro das Salinas denunciaram pelas redes sociais e prestaram queixa na delegacia, afirmando que o incêndio foi uma “forma brutal do racismo religioso”. O caso está sendo está sendo investigado pela polícia.

Imagens enviadas para o WhatsApp da TV Globo mostram a destruição do terreiro, frequentado por adeptos do candomblé. Nas fotos, é possível observar uma construção feita de barro danificada pelo fogo e objetos jogados no chão.

Segundo Gilmara Santana, uma das frequentadoras do Terreiros das Salinas, o incêndio aconteceu na manhã de 1º de janeiro. Segundo ela, os pontos incendiados foram bem específicos, “dando indícios de que foi um incêndio criminoso”.

Gilmara disse que o terreiro existe há três anos. São realizadas ações sociais na comunidade de Abreu do Una, que fica na área, como distribuição de sopão e reforço escolar. Além disso, são promovidos a limpeza do meio ambiente e consultas espirituais.

Terreiro das Salinas, em São José da Coroa Grande, no Litoral Sul de Pernambuco, foi alvo de incêndio — Foto: Reprodução/WhatsApp

“Registramos um boletim de ocorrência e também denunciamos ao Ministério Público“, afirmou, em entrevista à TV Globo, nesta segunda (3).

Nas redes sociais, os representantes do terreiro postaram um texto para denunciar a intolerância religiosa.

“Fomos surpreendidos com a notícia que o Terreiro das Salinas, de tradição Jeje-nagô, fundado pelo babalorixá Lívio Martins, estava sendo incendiado”, aponta a postagem no Instagram.

Ainda segundo o texto, o terreiro já tinha sido alvo de problemas anteriores, que “interromperam os rituais”.

Foram, segundo os representantes do Salinas, “situações que acreditamos contornar”, por causa do trabalho social, que também conta com distribuição de alimentos.

“Não é de hoje que os terreiros das religiões de matriz africana, afro-brasileira e afro-indígena têm sido alvo constante das violências, intolerâncias e racismo religioso que tenta impedir a realização de nossos rituais, da adoração aos nossos orixás e entidades sagradas. No entanto, ver a nossa casa de axé, nosso local sagrado, onde depositamos nossa fé, onde construímos cada canto com nosso suor e devoção em chamas é violento e perturbador.

Os representantes do terreiro afirmaram também que o que aconteceu “foi uma tentativa de apagamento, de silenciamento e opressão”, mas que “não nos impedirá de continuar a cultuar nosso sagrado”.

Por meio de nota, a Polícia Civil informou que registrou a ocorrência na manhã desta segunda. “Todas as providências estão sendo tomadas para a elucidação do ocorrido”, afirmou a corporação.

Coletivos

Por meio de nota, a Articulação Negra de Pernambuco, organização formada por cerca de 20 coletivos, entidades e instituições negras e antirracistas pernambucanas, manifestou solidariedade ao Terreiro das Salinas.

“Exigimos que o governo do estado coloque seu aparato institucional para apurar com todo o rigor esse caso de racismo religioso e identificar e punir os responsáveis pelo incêndio criminoso”, afirmou a nota postada nas redes sociais.

A Anepe afirmou que “se mantém à disposição para contribuir com todo suporte institucional de que dispõe, inclusive para articular colaborações para a reconstrução do terreiro”

Ainda na nota, o coletivo afirmou que todo o suporte jurídico e psicossocial está sendo garantido através do Projeto Oxé, que é o atendimento jurídico e psicossocial contra o racismo, iniciativa da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, do Gajop e da Articulação Negra de Pernambuco.

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