segunda-feira, agosto 8, 2022
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Thaíde lança livro e fala sobre o preconceito

Rapper reúne letras de músicas para comemorar 30 anos de carreira

por Tatiane Moreno no Band

Em comemoração às três décadas de carreira, Thaíde acaba de lançar o livro 30 anos Mandando a Letra. A obra com prefácio do cantor e compositor Chico César e organizada por Gilberto Yoshinaga, amante da cultura hip hop desde os nove anos de idade, traz um compilado de trinta letras do artista, escolhidas pelo seu significado e não pelo sucesso comercial, e enriquecidas por comentários do rapper juntamente com o contexto histórico do momento.

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Em entrevista ao Portal da Band, Thaíde falou sobre a iniciativa. “A ideia era comemorar com um presente não só para mim, mas para os fãs. Têm muitas letras que as pessoas não conhecem e vão passar a conhecer; outras que já conhecem e vão tirar aquelas pequenas dúvidas de palavras que não entendiam, por exemplo. Reuni mensagens pessoais, as primeiras composições como ConsciênciaCorpo Fechado, A Noite, e tem uma inédita, que vai sair no meu disco no ano que vem, chamada Hip Hop Puro”, adiantou.

Segundo o músico, a expectativa é que o público mergulhe a fundo em seu trabalho e em seus ideais. “Quero fazer com que o livro chegue ao maior número de pessoas possível para que elas possam conhecer um pouco da minha trajetória, das minhas ideias, do meu trabalho. Meu objetivo é chegar a lugares nos quais ainda não cheguei ainda”, afirmou.

Veja a participação de Thaíde no programa Donos da Bola:

Em vários trechos é possível sentir a emoção de Thaíde. É o caso da música Claudio (Eu

Em vários trechos é possível sentir a emoção de Thaíde. É o caso da música Claudio (Eu tive um sonho), lançada em 1989, que conta a história de um grande amigo que foi assassinado. “A letra foi um desabafo pessoal que eu precisei colocar no papel. Uma homenagem que eu escrevi sem a pretensão inicial de transformar em música. O Claudio era uma pessoa envolvida com algumas e, como naquela época era muito mais difícil contactar uma pessoa porque não tinha celular, o transporte era muito mais precário, a gente sempre tinha a possibilidade de se encontrar aos finais de semana em uma danceteria em Moema, em São Paulo. Até que em um domingo ele não apareceu. Na semana seguinte ficamos sabendo que tinha sido assassinado. Foi uma situação muito triste porque todos gostavam muito dele. Nossa amizade foi efêmera: nasceu, curtimos e acabou. E isso sempre marca”, relatou.

Anos mais tarde, a canção foi regravada por Marcelo D2 para homenagear outro grande amigo dele, Luís Antônio Skunk, fundador da banda Planet Hemp.

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Problemas sociais

Considerado um dos principais nomes do hip hop nacional, Thaíde, cujo nome de batismo é Altair Gonçalves, tornou-se uma das vozes mais ativas da periferia. Ele foi, por exemplo, o primeiro artista de rap a falar abertamente sobre a violência policial, em Homens da Lei. A canção foi escrita em 1987 e lançada no ano seguinte. Além disso, sempre procurou tratar a corrupção e outros problemas políticos sem um discurso burocrático.

Para ele, ao longo dos últimos anos, não conseguimos evoluir nas principais questões sociais. “Se você analisar a educação, a saúde e a segurança pública no Brasil vai perceber que estamos em uma situação muito complicada. Na década de 80 a gente já denunciava isso. O tempo passou, conseguimos avançar em tecnologia, muita gente tem celular, TV de plasma, carros bons, mas a situação do brasileiro ainda é muito difícil. Hoje temos mais jovens interessados em estudar e se formar em uma faculdade, mas nas nossas necessidades básicas ainda estamos engatinhando, infelizmente”, avaliou.

O preconceito é outro fator que nunca vai deixar de incomodá-lo. “Acho que a discriminação é uma doença crônica que não tem cura. Ela só tem remédios que te ajudam a suportar, e enquanto existirem esses medicamentos a gente vai levando. Bom seria se tivesse uma maneira de acabar de vez com essa doença, mas não tem, então é preciso aprender a conviver com ela”, disse ele, vítima de várias situações constrangedoras.

“Já deixei de fazer shows porque o contratante não sabia que eu era negro. Têm lugares que me aceitam hoje só por eu ser uma pessoa conhecida e por trabalhar em um programa da Band [A Liga]. Me lembro de alguns estabelecimentos que eu entrei antes de ser uma pessoa pública e não fui bem recebido, mas depois de ganhar fama a situação mudou. São coisas que você passa a analisar e a refletir constantemente”, lamentou.

De acordo com o cantor, os brasileiros estão longe de deixar de serem racistas e preconceituosos. “Esse papo de país plurirracial é apenas uma maneira de disfarçar a realidade. É só você colocar na balança a quantidade de apresentadores, atores e pessoas que fazem comercias: o número de negros é mínimo, quase não se vê. Por mais que eu tente e tenha aprendido a conviver com o racismo, isso nunca vai deixar de me incomodar. Hoje eu tenho a possibilidade de chegar a um veículo de comunicação e atingir todo o país com a minha opinião, mas e aqueles que não podem fazer isso? Então eu não tenho o direito de achar simplesmente que está bom e que tudo se resolveu. Pode estar ameno para mim, mas para os anônimos, a coisa continua pesada, e se eu posso falar por mim, também falo por eles”, ressaltou ele, aos 49 anos, provando que continua “mandando a letra”.

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