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Ubirajara e Alzira Fidalgo e a experiência política do Teatro Profissional do Negro

O Teatro Profissional do Negro (TEPRON) concebido por Ubirajara e Alzira Fidalgo no início da década de 1970 no Rio de Janeiro, capacitava, fazia política e crítica social dentro dos palcos em uma época em que a temática da negritude era constantemente abrandada e utilizada a serviço do ideal enganoso da miscigenação integradora, difundida pelo governo militar brasileiro. Enquanto a questão racial era abafada nas ruas e nas instituições pelos gritos de “democracia racial”, Ubirajara e Alzira fundavam um dos primeiros teatros que buscaram a inserção real do negro no campo das artes cênicas.

Por Fernando Vife, do Desterritório 

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Natural de Caxias, Maranhão, Ubirajara Fidalgo nasceu em 1949 e iniciou sua trajetória teatral em 1968, ainda em São Luis, quando ingressa no curso de iniciação teatral de Jesus Chediak. Mais tarde participa do curso de Formação de Atores na Universidade do Maranhão partindo em 1970 para a Universidade do Rio de Janeiro. Na capital carioca inaugura os trabalhos do TEPRON participando enquanto diretor e ator principal da montagem de Otelo, de Shakespeare, encenado em 1970 no Teatro Tereza Rachel. A partir daí Ubirajara lança as bases para seu trabalho autoral no âmbito do teatro, debutando em 1973 com a peça “Os Gazeteiros” com elenco exclusivamente negro.

Sua participação fora dos palcos, no movimento negro, foi intensa até a sua morte em 1986. Ubirajara passa pelo Clube Renascença, importante centro de mobilização do negro carioca e participa de debates nos Centros Populares de Cultura da UNE (CPCs) e em redes de rádio e televisão. Além de seu trabalho enquanto dramaturgo, ator, produtor e diretor, nunca se afastou da militância tendo participação fundamental na fundação do Instituto de Pesquisa da Cultura Negra (IPCN) e da Associação Cultural de Apoio as Artes Negras (ACAAN) junto ao historiador e escritor negro Joel Rufino dos Santos. No entanto, seu projeto mais importante e original foi sem sombra de dúvidas o Teatro Profissional do Negro, construído ao lado da figurinista e cenógrafa Alzira Fidalgo ainda na primeira metade da década de 1970.

Dando continuidade ao projeto de Abdias do Nascimento no Teatro Experimental do Negro fundado em 1944, Ubirajara Fidalgo e Alzira Fidalgo se preocuparam não só com a capacitação teatral do negro pobre (foram pioneiros na aproximação entre o palco e os negros das periferias) ou com a composição étnica negra do teatro (“Queria ver negros interpretando papéis de cidadãos!”, disse Ubirajara certa vez). “A verdadeira base para o teatro negro é o texto”, dizia Ubirajara, e nesse sentido, o TEPRON se prestava a catalisar a produção de teatral não apenas encenada, mas escrita por negros.

Não se aplicava, no TEPRON, a resposta paternalista de “dar voz ao oprimido”. O oprimido tem voz e fala, ele só não é ouvido – ou tem o seu discurso reprimido e reconduzido por aqueles que muitas vezes procuram lhe dar voz. Ciente disso Ubirajara Fidalgo buscou unir a atuação a oficinas de teatro e construção de peças com a comunidade negra, buscando autonomizar a produção teatral abrindo caminho para o surgimento da figura, tornada tão rara, (ainda!) do “dramaturgo negro”. Posição esta revolucionária na medida em que já naquela época tocava num ponto tão caro aos movimentos contemporâneos de cultura negra: autonomia de produção.

Dentro de um mercado perverso de financiamento cultural e da quase ausência de políticas culturais voltadas para os negros, atualmente, o produtor cultural negro ou míngua face a impossibilidade de sustentar sua produção cultural por falta de recursos ou aceita as restrições e mudanças que folclorizam o seu conteúdo pasteurizando-o enquanto mercadoria passível de ser financiada. Atinente ao seu projeto de autonomização da produção cultural negra, o teatro para Ubirajara dependeria de bilheteria, e por isso a qualidade da produção era fundamental para a relação de engajamento do público com a obra. Essa relação vai além do simples consumo cultural e estabelece vínculos mais duradouros não só com a obra em si, mas com a temática racial que aborda e com o teatro negro enquanto realidade.

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O teatro de Ubirajara se pretendia além de autônomo, real.  Essa realidade podia ser vista na recusa do descolamento de sua dramaturgia da situação objetiva do negro brasileiro. O paroxismo dessa junção texto/realidade era alcançado nos debates pós-espetáculo realizados no TEPRON que buscavam junto ao público presente e convidados, debater coletivamente a crítica social e a problemática negra a partir do discurso teatral.

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Maranhense, Ativista do Movimento Negro em uma época tensa, Ubirajara Fidalgo foi incisivo nas críticas ao racismo, a discriminação no Brasil contemporâneo, o preconceito, a homofobia, a misoginia, desigualdade social e a ditadura militar. Como dramaturgo, foi autor do musical “Gazeta”, da comédia “A Boneca da Lapa”, do monólogo “Desfuga”, do drama “Fala pra eles Elisabete”, e da peça “Tuti”, uma tragicomédia sobre um triângulo amoroso entre uma prostituta, seu cliente e uma aristocrata gaúcha, que seria sua última obra em vida.

Nascido em 1949, morre precocemente por insuficiência renal em 1986, com 37 anos, alguns textos inéditos, trabalhos inconclusos e potencial não explorado pelo tempo que deixou vago. Ainda assim, o trabalho de Ubirajara e Alzira Fidalgo permanece ainda hoje, como exemplo de um projeto político amplo e coerente que através do teatro possibilitou a construção coletiva de espaços autônomos ocupados por negros, aliando sempre a capacitação profissional à formação política e social que consistia a base da crítica da realidade racial do nosso país. Coube à dramaturgia política praticada no TEPRON escancarar a opressão racial colocando o próprio negro pra falar sobre ela, e mostrando por fim, que a sorte é rala e a farinha é pouca para os pretos desse país.

 

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