Um olhar feminista e não branco sobre as Relações Internacionais

As Relações Internacionais (RI), no Brasil, foram concebidas por e para uma elite intelectual afastada da realidade do povo. Esta característica impõe inúmeros obstáculos para os estudantes de baixa renda, mulheres e negros. Elencar as dificuldades existentes ainda hoje é necessária para possibilitar a busca de alternativas emancipatórias e sociais no caminho da democratização e popularização das RI em terras brasileiras e no mundo.

Cursos de Relações Internacionais (RI) foram implementados, nos últimos anos, em diversas universidades federais do Brasil. Consequência direta do interesse crescente da população pelo tema e da importância de uma maior compreensão da dinâmica/influência internacional nas esferas de poder. Porém, segue como uma verdade inconveniente as dificuldades enfrentadas por estudantes de baixa renda, mulheres e negros para ingressar e permanecer nas faculdades de RI.

Estudo realizado pelo CERI no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul demonstrou que mais de 80% dos alunos se declararam brancos. Os 20% restantes já relataram terem sofrido preconceito de classe ou étnico por colegas ou professores.

Não é difícil imaginar que este quadro de opressão seja uma realidade em outros cursos de RI pelo Brasil, assim como em outros cursos no todo da universidade. Uma situação que afeta a autoestima dos estudantes negros, compromete o rendimento acadêmico e resulta na exclusão destes alunos de espaços de conhecimento e pesquisa. Como consequência, muitos discentes desistem de cursar Relações Internacionais nas universidades públicas brasileiras.

Outro obstáculo enfrentado por estudantes de baixa renda e negros nas faculdades de RI é o dilema do conhecimento de línguas estrangeiras. Pois, ao mesmo tempo que culturalmente é repassado sobre essa necessidade, não há nada que impeça um estudante de cursar RI. No entanto, se no mercado de trabalho falar inglês e demais línguas é fundamental, supostamente a universidade precisa nos preparar para tal. A grande maioria dos cotistas vêm de realidades onde aprender outro idioma é apenas um sonho. Compreender a dificuldade dos alunos e pensar ações efetivas para auxiliá-los é um dever dos responsáveis pelas instituições de ensino. Uma medida viável e de baixo custo é ofertar, gratuitamente, aulas de inglês para todos os estudantes que necessitarem.

Por fim, é fundamental realizar uma reflexão permanente sobre outras mudanças necessárias nos cursos de Relações Internacionais no Brasil. As faculdades de RI, por exemplo, carecem de mais mulheres e negros no corpo docente. Todas as questões abordadas neste artigo são medidas necessárias para que os cursos tenham um olhar mais humano, feminista e negro.

 


***Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

+ sobre o tema

Escritora Elisa Pereira lança amanhã “Sem Fantasia”, seu segundo livro!

Na próxima terça-feira (29), às 19h, será lançado “Sem...

O conferencismo e o marchismo como formas de lutas políticas

Aconteceu em Brasília, em 18 de novembro, a Marcha...

“O Quarto de Despejo está vivo”, afirma filha de Carolina Maria de Jesus

Em 60 anos do livro “Quarto de Despejo: Diário...

Mulheres Maravilhosas: Cristiane Sobral

Não me lembro exatamente como entrei em contato com...

para lembrar

As faces da representatividade

Recentemente, me deparei com duas notícias bem interessantes por...

‘Grito muito, mas quero eco’, diz Elza Soares sobre combate ao racismo

Parece que o fim do mundo está chegando pela...

Exposição “Todas as faces de Maria” homenageia as mulheres negras.

Ontem foi a abertura da exposição “Todas as faces...

Negra Li mostra fantasia deslumbrante para desfile da Vai-Vai em SP: ‘Muita emoção’

A escola de samba Vai-Vai está de volta ao Grupo Especial para o Carnaval 2024, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, neste sábado...

Geledés participa do Fórum do Feminismo Negro

O Fórum Global de Feminismos Negros 2024 está ocorrendo entre os dias 04 a 07 de fevereiro, em Bridgetown, Barbados. Sob o tema “Para...

Livro põe mulheres no século 20 de frente com questões do século 21

Vilma Piedade não gosta de ser chamada de ativista. Professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e uma das organizadoras do livro "Nós…...
-+=