quarta-feira, outubro 6, 2021
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Uma história escondida: maçons negros no Brasil do século XIX

Quando nos remetemos à inserção social de homens negros, livres e libertos, no tempo do Império, pensamos rapidamente em arranjos de apadrinhamento. Não é necessário um estudo muito apurado para encontrarmos alguns exemplos desse modelo de sobrevivência social. A sobrevivência social de homens negros nascidos livres e libertos dependeu do estabelecimento de laços de sociabilidade, que os habilitava a circularem em certos espaços. E, mesmo se valendo de tais arranjos sociais, que pareciam ser eficientes, observamos que a entrada efetiva da maçonaria no Brasil no início do século XIX colaborou em certo sentido para a modernização dessas relações. 

A maçonaria carregava em si elementos próprios desse modelo de sociabilidade, pois era uma sociedade de ajuda mútua, iniciática, acrescida de outros elementos como a ritualística e o segredo compartilhados por aqueles que nela ingressam. Tínhamos aí uma espécie de “apadrinhamento maçônico”, novidade que atrairia, sobremaneira, jovens estudantes, carreiristas iniciantes, bem-nascidos, mas também homens remediados, das camadas menos privilegiadas. As possibilidades vislumbradas na maçonaria atrairiam também personagens negros importantes como Francisco Gê Acaiaba Brandão de Montezuma (1794-1870); Joaquim Saldanha Marinho (1816-1895), Luiz Gama (1830-1882), José do Patrocínio (1853-1905), Eutíquio Pereira da Rocha (1820-1880) e tantos outros, cujas identidades étnicas maçônicas não nos foram reveladas.

O fato é que para esses homens negros constantemente preocupados em estarem na vanguarda das novas correntes de pensamento, tais como o republicanismo, anticlericalismo e o abolicionismo, de inspiração europeia e norte-americana, a maçonaria serviu como esteio às suas ambições. Ela aglutina pessoas com posições políticas distintas, consolidando-se como espaço para o diálogo, ambiente propício à discussão. Assim sendo, esses homens trataram logo de se incorporarem a esse formato de organização. Lá não se depararam com as barreiras sociais que experimentaram fora do círculo maçônico, encontrariam espaço para encampar suas bandeiras políticas e sociais, já que “a maçonaria era lugar da circulação de ideias e aprendizado de práticas modernas tais como: a escolha dos associados, eleição para os cargos maçônicos, o debate entre os pares e a deliberação”, conforme observado por Françoise Jean de Oliveira Souza e Marco Morel, no livro O poder da maçonaria. A história de uma sociedade secreta no Brasil.

Não há dúvidas de que para os homens negros, compor o quadro de uma loja maçônica tinha significado muito mais amplo que para os demais membros, dado o fato de que esses homens, invariavelmente, estiveram às margens dos outros espaços de sociabilidade existentes. Com efeito, isso aparentemente não se reproduziu no círculo maçônico, onde a cor do irmão não seria um tema em questão determinante de suas possibilidades de vinculação e atuação.

A experiência de rejeição de Luiz Gama na Academia de Direito de São Paulo ilustra bem esse sentimento. O abolicionista teve a sua matrícula negada na instituição de ensino. Foram inúmeras as ocasiões em que Gama mencionou tal episódio com certa amargura, lançando mão da frase “a inteligência repele pergaminhos”. Tal sensação de mutilação social, Luiz Gama não carregou consigo, compartilhou com o grande público via artigos de jornais ou através de seus poemas, publicados, em seu livro Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, de 1859 e, reeditado dois anos depois. 

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Luiz Gama. Fonte: Arquivo Nacional / Fundo Correio da Manhã / br_rjanrio_ph_0_fot_23005_001

Com José do Patrocínio as manifestações de preconceito não foram diferentes. Filho de uma escravizada e de um padre, o maçom contou com uma pequena rede de contatos herdada de seu pai. Valendo-se dessa rede de sociabilidade, Patrocínio ingressou na Faculdade de Medicina, no Rio de Janeiro, com o objetivo de formar-se em medicina, mas em decorrência de inúmeras perseguições sofridas não obteve as notas suficientes para obter a titulação desejada. Patrocínio obteve apenas o diploma de farmacêutico. Outro episódio de preconceito vivido por Patrocínio ocorreu durante a campanha abolicionista, tendo sido relembrado por Olégário Mariano em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras em 1927. Ele, então, num de seus discursos perante uma plateia também composta por escravistas, foi chamado de “Preto Cínico”; ao que respondera: “Quando Deus me deu a cor de Otelo foi para que eu tivesse ciúmes da minha raça!”.

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José do Patrocínio. Fonte: Arquivo Nacional / Fundo Correio da Manhã / br_rjanrio_ph_0_fot_38240_003

Segundo Margaret Jacob, o iluminismo maçônico propunha que a “igualdade natural” fosse substituída pelo mérito individual e direitos humanos. Assim sendo, seria proibido em espaço maçônico haver distinção por raça, cor, religião ou origem social entre os irmãos. Todos deveriam ser vistos como iguais e, quando iniciados à maçonaria, os irmãos deveriam abandonar as diferenças impostas pela sociedade e seguir adiante considerando tão somente os talentos e virtudes dos confrades. Sendo assim, a posição ou prestígio que, porventura, o irmão viesse a adquirir ao longo de sua trajetória maçônica dependeria estritamente de suas habilidades.

Isso permitiria que um homem desprovido de posses, fora da maçonaria, pudesse no interior do círculo maçônico ocupar cargos de prestígios, tais como o de venerável, primeiro vigilante, segundo vigilante, orador e tesoureiro. No interior da maçonaria a posição hierárquica de um indivíduo era determinada segundo os graus maçônicos, seguido de acordo com os ritos adotados por suas respectivas lojas. O rito Escocês Antigo e Aceito, trazido e difundido por Montezuma, era o mais professado. Dividido em 33 graus, cada qual conferia um nível de sabedoria e status ao irmão. As possibilidades de ocupar cargos dentro da loja também eram determinadas pelos graus maçônicos, um maçom recém-iniciado não poderia concorrer aos cargos de importância na oficina: venerável, 1º e 2º vigilante, orador, tesoureiro.

A discussão do racismo maçônico girava em torno das lojas maçônicas dos Estados Unidos da América, que rompiam com os princípios universalizantes e igualitários da maçonaria ao recusar o ingresso de negros na sociedade. As ordens maçônicas estadunidenses impunham restrições raciais por acreditarem que os brancos eram superiores aos negros, motivo mais que suficiente para que esses homens não se cruzassem em espaço maçônico, a exemplo do que já ocorria no espaço profano.

As lojas maçônicas estadunidenses, sobretudo as do sul, reproduziam em espaço maçônico a segregação racial presente na sociedade americana, subvertendo os princípios universais da maçonaria em defesa da igualdade e fraternidade entre irmãos, independentemente da cor e origem. Isso teria gerado uma mobilização de diversas Ordens Internacionais que estavam preocupadas com o modo como as lojas dos Estados Unidos agiam em relação aos seus iniciados. 

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Joaquim Saldanha Marinho. Fonte: Célia Maria Marinho de Azevedo. Maçonaria, Anti-racismo e Cidadania: uma história de lutas e debates transnacionais. São Paulo: Annablume, 2010, p.78.

Fundador da Ordem dos Beneditinos e seu Grão-Mestre, Saldanha Marinho, homem negro, tinha plenos poderes para impor suas vontades frente à Ordem dos Beneditinos, de modo que a escolha de permanecer ao lado do Grande Oriente Francês, se por um lado, denotava o desejo de fazer cumprir os verdadeiros princípios maçônicos de igualdade e fraternidade, do outro lado, demonstrava a vontade de defender a maçonaria como espaço de exercício de cidadania dos homes negros. Se as lojas norte-americanas foram eficientes em instituir o racismo em suas oficinas, como não supor que tais distorções não tomassem proporções internacionais e atingissem as ordens e lojas maçônicas brasileiras? A essa altura, a maçonaria no Brasil havia se transformado em espaço de construção da cidadania de homens negros.

Suas posições consideradas radicais podiam ser observadas no exercício de suas funções. Paralelamente à carreira política, Saldanha Marinho atuou em defesa dos escravizados, defendia o fim imediato da escravidão, favoreceu a iniciação de homens negros, nascidos livres e libertos, na Ordem maçônica que havia criado e da qual era grão-mestre.

O mesmo radicalismo que tomou Saldanha Marinho também podia ser sentido nas palavras e ações do negro Eutíquio Pereira da Rocha. O padre Eutíquio foi um dos maçons mais importantes da loja Harmonia, localizada no Pará. Sabemos que ele foi editor chefe do jornal maçônico O Pelicano, periódico de ampla circulação no Pará na década de 1870. Além de editor, Rocha foi autor de diversos artigos que foram publicados em vários jornais do Pará e da Bahia, sua terra natal. Os polêmicos escritos tiveram como principal alvo a Igreja Católica. Embora fosse padre, tornou-se um dos principais defensores do Estado laico e como maçom questionava a proibição da Igreja em enterrar não católicos e maçons nos cemitérios públicos. Assim como outros maçons negros, Eutíquio sofreu “preconceito de cor”. Nos embates políticos que travou com a elite paraense recebeu apelidos pejorativos, como o de africano, que na segunda metade do século XIX, era sinônimo de indivíduo desprovido de cidadania. Rocha além de ser crítico da Igreja, posicionou-se contra a escravidão. Se, nos diversos espaços de sociabilidade, Eutíquio não era bem aceito, no interior do círculo maçônico, ocupou os cargos mais importantes na organização (venerável, primeiro vigilante, segundo vigilante, entre outros).

O funcionamento da loja dependia da distribuição dos cargos. Passada a eleição e o ritual de posse, os irmãos escolhidos assumiam seus postos e deliberavam sobre as sessões maçônicas. Na eleição de 1874, foi quando Luiz Gama assumiu a vaga de venerável pela primeira vez, repetindo a experiência nos anos de 1876, 1878, 1879, 1880, 1881 e 1882. Sua atuação na loja América era conhecida dentro e fora do círculo maçônico. Ele nunca escondeu sua filiação à maçonaria e, na ocasião de sua demissão do cargo de amanuense, tratou de evocá-la. Ao revelar sua identidade maçônica Luiz Gama estava preocupado em informar seus inimigos de que não estava sozinho em suas ações e que contava com o apoio e a proteção da organização maçônica. 

Esse associativismo maçônico serviu de vitrine aos projetos políticos de Luiz Gama e, ao mesmo tempo, assegurou ao maçom negro a possibilidade de exercer sua cidadania. Foi por meio de seus talentos e virtudes que pôde ocupar os cargos mais importantes na loja. A trajetória pessoal de Luiz Gama diferia dos demais maçons negros de que tratamos até aqui, uma vez que, Gama viveu na pele a experiência da escravidão ilegal, condição na qual se viu imerso pela ambição e descaso de seu próprio pai, que o vendeu como escravo a fim de quitar suas dívidas de jogo. Luiz Gama nasceu na Bahia em 1830, era filho de uma mulher africana livre e de um português remediado. Além de ter que lidar com o preconceito de cor como os outros homens negros, Gama ainda padecia com a experiência de ter vivido por 7 anos na condição de cativo, dois estigmas sociais que pareciam não ter relevância em espaço maçônico.

A maçonaria era vista não só como espaço de sociabilidade propulsor de ascensão social e simbólica, mas também como lugar para instrumentalizar bandeiras políticas e sociais. Socialmente marginalizados, os homens negros, como Saldanha Marinho, José do Patrocínio, Eutíquio Pereira da Rocha, José Ferreira de Menezes e Luiz Gama encontraram na maçonaria espaço para a sobrevivência social e moral, que muitas vezes não encontraram em outros lugares.

Assista ao vídeo da historiadora Renata Ribeiro Francisco no Cultne.TV sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC):

Ensino Fundamental

EFO8HI19 (8º ano: Formular questionamentos sobre o legado da escravidão nas Américas, com base na seleção e consulta de fontes de diferentes naturezas); EF08HI27 (8º ano: Identificar as tensões e os significados dos discursos civilizatórios, avaliando seus impactos negativos para os povos indígenas originários e as populações negras nas Américas).

Ensino Médio: 

EM13CHS501 (Analisar os fundamentos da ética em diferentes culturas, tempos e espaços, identificando processos que contribuem para a formação de sujeitos éticos que valorizem a liberdade, a cooperação, a autonomia, o empreendedorismo, a convivência democrática e a solidariedade); EM13CHS503 (Identificar diversas formas de violência – física, simbólica, psicológica etc.–, suas principais vítimas, suas causas sociais, psicológicas e afetivas, seus significados e usos políticos, sociais e culturais, discutindo e avaliando mecanismos para combatê-las, com base em argumentos éticos); EM13CHS601 (Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes – incluindo as quilombolas – no Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país).


Renata Ribeiro Francisco

Doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutoranda em História vinculada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); E-mail: renataribeirofrancisco@gmail.com; Instagram: @ren645. 

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