Uncle Tom – Reconhecendo estereótipos racistas internacionais – Parte VI

Essa história é muito louca — vamo lá:

por Suzane Jardim no Medium Corporation

Em 1852, durante as discussões sobre o fim da escravidão nos EUA e antes da famosa Guerra Civil Americana, Harriet Beecher Stowe, uma escritora abolicionista de Connecticut lançou o romance anti-escravista Uncle Tom’s Cabin (adaptado para o português como A Cabana do Pai Tomás).
No livro, Stowe contava a história do Uncle Tom, um escravo idoso que terminou espancado até a morte por se negar a colaborar com seu dono e contar o paradeiro de escravas fugidas. No romance a intenção é de colocar Uncle Tom como um mártir, um simbolo que denuncia os maus tratos e a crueldade da escravidão.

PORÉM NÉ CEIS SABE o livro deixou os branco sulista puto — muito puto mesmo. Era a época de Abraham Lincoln, aquelas discussões acaloradas em torno de questões como “escravos tem alma ou não tem” etc. E o que eles fizeram foi assim, bem maduro: simplesmente reescreveram a história para apresentá-la em ministrels shows usando blackface e colocando o Uncle Tom como um grande defensor da escravidão e um grande amante de brancos em geral, que não perde tempo em dedar os mano e lascar tudo que é tentativa de resistência negra — em resumo, um grande escroto.

E adivinha qual versão ficou mais famosa? Pois é….

Uncle Tom se tornou um modo pejorativo de chamar o negro excessivamente servil, que tenta ganhar vantagens dentro da estrutura racista sendo gentil e leal ao homem branco, uma espécia de traidor do povo negro.

Durante ataques de cunho racista no início do século XX, era comum espalharem imagens do Uncle Tom dando “”””conselhos””” para que os negros não reagissem e fossem obedientes e dóceis para que assim não voltassem a sofrer violência.

O personagem de Samuel L. Jackson em Django Livre (2012) é um exemplo do que a gente tá falando aqui.

samuel uncle tom

Também é comum usarem o termo “bojangles” pra se referir a esse tipo de figura.
Isso em menção ao dançarino Bill “Bojangles” Robinson, o primeiro negro a chegar na mídia e no cinema — já que na época os negros eram representados por brancos fazendo blackface — mas para isso, Bojangles fazia participações de sapateado em filmes que hoje são considerados o supra-sumo do racismo e do desrespeito à imagem do negro (podem procurar pelo filme The Littlest Rebel ou A Pequena Rebelde, de 1935, estrelado pela atriz mirim Shirley Temple e vocês terão uma idéia de qual era o nível da coisa).

leia também: 

Reconhecendo estereótipos racistas internacionais – Parte I

O Jim Crow – Reconhecendo estereótipos racistas internacionais – Parte II

Sambo (Coon) – Reconhecendo estereótipos racistas internacionais – Parte III 

Golliwog, pickaninny e golly doll – Reconhecendo estereótipos racistas internacionais – Parte IV

 Tia Jemina (a Mammy) – Reconhecendo estereótipos racistas internacionais – Parte V 

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