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Vestir a “Globeleza” deixa Nu o mito da democracia racial
Créditos da foto: Foto Facebook - cedida ao Portal Geledés

Vestir a “Globeleza” deixa Nu o mito da democracia racial

Quando os carros alegóricos entraram na avenida os confetes, sprays, brilhos e ritmos das marchinhas do carnaval se harmonizaram com os passos da “mulata” global que sambava ao som da marchinha que a homenageia: “Na tela da TV, no meio desse povo, a gente vai se ver na Globo”.

por Dina Alves no Facebook

A vinheta da “Mulata Globeleza” foi criada na década de 1990, por Hans Donner, designer alemão e funcionário da emissora. A modelo, dançarina e cantora, Valeria Valenssa foi símbolo carnavalesco até 2004, seguida pelas outras dançarinas e passistas Giane Carvalho, Aline Prado, Nayara Justino e a atual Erika Moura.

Diferente das vinhetas anteriores, a organização Globo modificou a vinheta e a personagem símbolo do carnaval, no ano passado (2017). A justificativa para a mudança foi a de que “o Brasil é um país rico em muitas culturas e, portanto, a vinheta vai representar todas as culturas e essa riqueza” (Jornal Meio&mensagem, 2017). A modelo não aparece nua, com pinturas ou paetês coloridas, como era de tradição nos últimos 20 anos de exibição da vinheta do carnaval. Desta vez, aparece vestida de várias caracterizações, representando vários tipos de culturas carnavalescas: fantasia tradicional, frevo, baiana, maracatu, boi bumbá, porta-bandeira…e por aí vai.

A “bondosa” decisão de “vestir” a “Globeleza” com a roupa da diversidade cultural só reforça e faz a manutenção do mito da democracia racial, constantemente enfatizado pela emissora e muito combatido pelo Movimento Negro, desde o seu nascimento. Se é verdade que o carnaval no Brasil é veiculado como a maior festa da diversidade cultural do mundo, a permanência de uma mulher negra como figura simbólica do mito carnavalesco, desmistifica esta falácia.

O nascimento do conceito “mulata”, na era colonial, surgiu do próprio racismo e do machismo incrustados nas relações sociais da época. Dada a pouca presença de mulheres brancas no país e a existência de negras escravizadas com atributos físicos que não agradavam aos brancos europeus. As mulatas surgiram como um novo elemento, que não se comprometeria com as categorias “negativas” associadas à figura das escravizadas. Foi criada, assim, uma mulher aparentemente livre da discriminação racial, que trazia consigo apenas características sexuais, ganhando um novo papel social em relação às negras de pele mais escura.

Ao longo da história a sua figura, como uma representação mítica aparentemente construída com o propósito de negar o racismo no país, passou a ser o símbolo nacional do mito da democracia racial brasileira. Intelectuais como Gilberto Freyre, autor da obra “Casa Grande e Senzala” de 1933, demonstrou obsessão na busca por uma identidade nacional “ideal” para o país que se distanciasse da herança física africana e indígena. Esta obra retrata a convivência supostamente harmoniosa entre os diferentes grupos étnicos e a ideia de que a configuração de nossa identidade territorial estaria marcada pela mestiçagem entre negros, indígenas e brancos. Esta corrente ideológica deu suporte teórico e legitimidade científica à miscigenação, transformando o mito da democracia racial em uma das formas de se manter a ideologia dominante nas relações de dominação econômica e racial.

O conceito de “mulata” vem dessa ideologia de branqueamento da sociedade e do uso da figura da mulher negra como objeto sexual de entretenimento do homem branco português. A sua figura é reduzida à reprodução sexual, ao uso da sua sexualidade enquanto característica exótica e objeto de estupro. O histórico ditado popular extraído da obra Freyreana “branca para casar, mulata para furnicar e a negra para trabalhar”, retrata bem o lugar das mulheres na sociedade racista-patriarcal-colonial. A figura da mulata, dotada de atributos físicos determinantes: seios fartos das amas de leite, o que garantiria potência para a amamentação; lábios grossos, boca carnuda, cintura fina, quadril avantajado, desenhado como aquela que serve sexualmente ao senhor português em todas as instâncias da vida privada e pública. Estes estereótipos físicos foram cristalizados social e historicamente e, partes desse corpo feminino negro, foram discursivizados na matriz escravocrata que sustentou/sustenta o olhar hegemônico oficial e que continua inalterado em muitos dos seus traços até os dias atuais.

Se na sociedade racista colonial, as categorias de raça, gênero, classe social e sexualidade estruturaram a ideologia de dominação, a imagem da figura da ‘mulata globeleza”, reatualiza, cotidianamente, essa ordem colonial com a hiperssexualização e permissividade do seu corpo. É por isso que “vestir” a “mulata globeleza” com a roupa da suposta diversidade cultural nos orienta para a velha ideia do país tropical, ausente de racismo, que celebra todas as raças, todas as culturas e onde todos e todas dialogam harmoniosamente, ou seja, realimenta o mito da democracia racial e, consequentemente, a denotação de uma ideologia de branqueamento no país composto por 54% de negros e negras (IBGE, 2014).

O lugar ocupado pela “mulata globeleza” sambando na vinheta e pelas mulheres negras da classe trabalhadora, as quais madrugam limpando o chão da avenida reflete essa marca da matriz escravocrata de dominação de raça, gênero, classe e sexualidade inscrita nos corpos negros femininos. Com roupa ou sem roupa, negação do racismo e dominação racial caminham de mãos dadas no país do carnaval.

A figura da mulata vestida só serve para reatualizar o mito da democracia racial. Isso é desvendado quando se percebe quem tem acesso a maior festa “popular” do mundo. Quando se desnuda os bastidores da festa é revelado os corpos que costuram, cortam, desenham, pintam, lavam e guardam as fantasias, os adereços e os ornamentos carnavalescos.

Enquanto a vinheta global, tenta, descaradamente, propagar o mito da democracia racial através de personagens representativos da diversidade cultural, é perpetuada as desigualdades sociais históricas nas relações raciais no Brasil. Não é de hoje que a emissora trabalha, cotidianamente, para a desumanização, objetificação, hiperssexualização e criminalização dos corpos das mulheres negras. É só lembrar algumas personagens que fizeram sucesso no imaginário popular: Adelaide, do programa Zorra Total; a “divertida” empregada Zezé, de Avenida Brasil; a empregada cuidadora Zilda, da novela Laços de Família; a empregada Cida, da novela Viver a Vida; a Tia Anastácia, cozinheira do programa Sítio do Pica Pau Amarelo; a personagem, Preta de Souza, que remete ao nome da novela “Da cor do pecado” e a Bombom, do programa Planeta Xuxa. Estes são apenas alguns exemplos dos lugares ocupados pelas mulheres negras no espaço midiático e o desserviço e desinformação que a emissora presta à população brasileira, com construção de narrativas sobre a condição feminina negra.

Derradeiro exemplo foi o lamentável episódio em que a atriz Sharon Menezes exibiu corpos de mulheres negras no concurso público, no programa do Fantástico, para a escolha da Globeleza, no ano de 2013.
A persistente existência da representação da “mulata Globeleza” e a aparente positividade da diversidade cultural que ela traz, mascara o racismo que estrutura e organiza as relações sociais e reafirma que este racismo contemporâneo brasileiro é produto não só de relações coloniais cuja estrutura de privilegiados/subalternos ainda não foi rompida por completo, mas faz parte de um sistema complexo de relações que é reatualizado cotidianamente pelo mito da democracia racial.

As mulheres negras são testemunhas vivas da exclusão, da subordinação e da tentativa sistemática de desumanização dos seus corpos. O duplo caráter da sua condição biológica – racial e sexual – faz com elas sejam as mulheres mais oprimidas e exploradas no sistema capitalista patriarcal-racial. O feminismo negro, coerente consigo mesmo, tem papel crucial na luta popular emancipatória das mulheres e dos homens negros brasileiros, ante o genocídio secular em curso.

A luta continua!

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