quinta-feira, setembro 29, 2022

Vozes que se não silenciam

Com a medida impositiva do isolamento social tão necessária ao combate da pandemia, as emoções semeadas por reflexões sobre o verdadeiro valor da vida vivificaram dentro de nós e comigo não foi diferente; sobretudo, com o episódio do homicídio torturante de um homem negro de 46 anos, estamos falando de George Floyd. Seguidamente, em resposta à atrocidade de sua morte, uma torrente de manifestações (composta por sua maioria de jovens) dispersara pelo mundo. Acompanhando essas manifestações pelas mídias, exalei, em dado momento, em desmedido choro cheio de memórias, de cicatrizes seculares cujas fendas, algumas tão latentes na pele endurecida, insistiam em talhar caminhos, gotejar o sofrimento vetusto de milhões de pessoas negras que tiveram suas vidas sequestradas; quase impossível não se comover com tal perversidade.

Naquele momento, floresceu um desalento indignante, não o choro, porém, a causa dele. Entretanto, aquelas lágrimas havia uma fusão de revolta, de dor, de encantamento pela impavidez daquelas pessoas, que, de punhos beligerantes, gritavam por justiça em meio a um surto epidêmico. Por conseguinte, fervilhara dentro de mim uma enxurrada de “gritos silenciados”, que aos poucos, iam subindo pela garganta, sem mais poder contê-los; nesse caso, eram mais potentes que meu próprio corpo. E eles vinham-me questionar e me rememorar lembranças dolorosas que, em tempos de criança, tropecei com o racismo; já adulta, professora, novamente a discriminação; cada uma a seu contexto taciturno e hediondo.

Coincidentemente ambos crimes no espaço escolar. Tentei gritar, mas o grito não rompia as barreiras da sonoridade; vi-me gritando sozinha, no silêncio. Questionei-me: Por que ninguém ousou gritar ao meu lado? Por qual razão, ignoraram um silêncio que deixava transver infinitas vozes? Nenhuma pessoa dentro daquela escola sequer gritou por mim, por quê? Corria a mente inquieta em diferentes direções, mas os ouvidos suplicavam por respostas, as quais demorariam a chegar; duvidei de que, talvez, nunca as chegariam.

Logo, novas interpelações surgiram diante do silêncio, pois, além de mim, certamente, haveria outras tantas crianças que estivessem a gritar continuamente sem que a escola se desse por conta? O que justifica o silenciamento de uma escola? Porventura ela está ofertando um bom exemplo de cidadania a seus sujeitos de aprendizagens, quando também explicitamente se cala? Tento escrutinar, desde então, onde estamos falhando na tessitura por uma resposta à essa violação moral? Pois, como pode ser belo o silêncio daquele que lhe sentenciam uma morte social?

É triste constatar que o racismo também permeia o espaço escolar, espaço social que deve ser primado pelo pensamento plural, acolhedor a todas as vozes. Lá, é uma das fontes para a desconstrução de preconceitos, sejam eles de quaisquer natureza; portanto, a escola tem por incumbência rechaçar ideias de inferioridade ou de superioridade humana, ali, faz-se imperioso traças estratégias, permanentemente, para a promoção de ações assertivas ao combate do racismo na sociedade, as quais possam educar verdadeiramente para a convivência democrática, isto é, educar para desabrochar a arte de harmonizar o bem viver, aqui, intui-se o viver em paz consigo mesmo, com a natureza, com relação ao outro como ser legítimo, uma vez que é por meio de trocas de experiências sociais que nos perfazemos no mundo e na compreensão de que é ser verdadeiramente humano.

Isso posto, desejo que a chama do multiculturalismo nunca se esmaeça, tampouco se apague diante de nosso horizonte. No entanto, vejo que existe um nevoeiro violento, acrimonioso diante de nossos olhos, desejoso por naturalizar a opressão, dessa forma, eu lhes pergunto: quantos de nós ou de nossos filhos, filhas, irmãos, irmãs, amigos, amigas, alunos, alunas precisarão passar por um processo doloroso de discriminação racial, para que ações mais consubstanciais sejam elencadas? Ficar no silêncio não é mais minha opção; também não é a sua, não é mesmo? Já que o ato de renegar o outro como ser legítimo na convivência, é danoso (em qualquer estrutura social) e nos traz consequências aterrorizadoras para adultos, imagine para crianças e jovens que estão desenvolvendo sua consciência identitária.

Isso muito me preocupa, razão pela qual, há premência em indagar-nos (com a finalidade de gerir práticas) sistematicamente: Quais desafios precisamos romper para travar o racismo em diferentes espaços? De que maneira podemos contribuir para a luta antirracista, usando recursos simples como a criatividade literária e a nossa voz como fonte condutora para esse recurso? Quais as vozes que na exaustão de seus gritos, seguem firmem lutando? Quiça, sob esse viés das interlocuções de nossas vozes, germinem o exercícios da tolerância!

É fundamental entender que para opor-se ao racismo na sociedade, é preciso agir; por essa iniciativa, resolvi romper com os silêncios, exatamente, no plural mesmo; pois falo no silêncio de meus (nossos) antepassados sobrepujados a uma vida de aviltamento humano, falo na dor de meu silêncio, no silêncio daquele que não ousa contar a sua dor ao mundo; mas, essa dor é análoga a tantas outras que se entrecruzam nessa travessia; por isso, ressoo nos soluços do silêncio de uma criança vulnerável diante de um ato racista; quebro o silêncio da família, quase como regra (“deixa isso pra lá,” “a vida é assim mesmo”); divirjo do silêncio de escolas afora (que diretamente ou indiretamente reforçam a opressão); sobretudo, interrogo-me sobre o silêncio da impunidade daqueles que a Justiça se prolonga alçar a justiça; menosprezo o silêncio de testemunhas impassíveis diante de um crime racial tão constante e devastador em diferentes esferas sociais.

Na luz desse pensamento, caminho por construir respostas várias; dado que minha sede é a vontade de aprender a lutar; então, um copo d’água é insuficiente para matar minha sede; pois, a minha sede é grande, sou um ser sedento por natureza. A sede de hoje pode não ser a mesma de amanhã; mas, certamente, superior àquela de ontem. Dessa forma, resolvi escrever uma poesia de resistência intitulada “Vozes que se não silenciam”, com o objetivo de combater o vilipêndio do meu povo negro. Imbuída em propagar aos corações das pessoas a pujança da voz negra, comprometida que, jamais, calarei nesse confronto.

Palmilhando na linha de síntese, é hora de irromper com os silêncios, é preciso dar voz ao que nos angustia, por isso entoarei a minha voz, em forma de protesto, ansiando por que meus versos cheguem até você, escute esse grito e faça-o ecoar aos ventos, a fim de despertar consciência moral, especialmente, respeito à história vivida pelo povo negro, que, lamentavelmente, ainda se perpetua açoitado pela sombra do capataz. Sendo assim, desejo veemente que a ressonância do grito de nosso povo negro reverbere em ações para um mundo melhor; saibam que somos vozes exauridas, jamais silenciadas!

Avante!
Abraços cordiais!
Fiquem em paz e com Deus!
Di Teixeira (Edilene Seixas)

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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