2015 – Estudantes, estrangeiros e religiosos estão entre as vítimas de racismo

Frases de Emicida e Dunga evidenciam violências concretas e simbólicas sofridas pelos negros no Brasil; discriminação contra candomblé continua a todo vapor

Por Alceu Luís Castilho, do Outras Palavras

O rapper Emicida foi um dos protagonistas da luta contra o racismo no Brasil em 2015. Ao programa Altas Horas, da Globo, cunhou frase emblemática sobre o cotidiano dos negros nas ruas: “O táxi não para, mas a viatura para”. À BBC Brasil, ele definiu o racismo como tema mais urgente do país: ‘A pior coisa é você perguntar as horas e a pessoa esconder a bolsa’, diz Emicida sobre racismo no Brasil.

A fama do Olodum também ajudou a amplificar o tema:

16/02 (Salvador): Olodum denuncia caso de racismo pelo Planeta Band

Em São Paulo, uma peça foi cancelada sob acusação de racismo. Os atores estariam adotando a técnica racista da blackface (embora os diretores tenham dito que se tratava de outra técnica). A escritora Eliane Brum identificou no caso um ponto inédito na tensão racial no Brasil. Para ela, os rumos da luta passaram a ser ditados pela nova geração de negros que alcançaram a universidade: No Brasil, o melhor branco só consegue ser um bom sinhozinho.

AGRESSÕES E PRISÃO

Mas a discriminação continua, entre sinhozinhos, sinhozões e capitães do mato. Já no início de janeiro um caso evidente de abuso de autoridade atingia uma farmacêutica carioca, doutoranda em Imunologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela foi presa em Fortaleza, acusada de matar a amiga italiana. A delegada prendeu-se a detalhes periféricos e decidiu prendê-la:

03/01 (Fortaleza): Fica fácil culpar a ‘neguinha’, diz mãe de presa após morte de italiana no CE

GEOGRAFIA DO RACISMO

O racismo é também geográfico. Espacializado. Como demonstrou o geógrafo Hugo de Gusmão, em pesquisa realizada na USP e repercutida pela BBC Brasil: 5 mapas e 4 gráficos que ilustram segregação racial no Rio de Janeiro.

hugogusmão

Para a elite brasileira, há lugares para brancos e lugares para negros. Continuam acontecendo aqueles casos em estabelecimentos comerciais em que atendentes ou gerentes presumem que a criança negra seja um pedinte, e dizem para ela sair da loja (ou do restaurante):

30/03 (São Paulo): ‘É um lugar só para brancos”, diz pai de garoto vítima de racismo em loja
22/12 (São Paulo): O que fez uma criança negra dizer: “mãe, isso também acontece com brancos?”

As duas crianças agredidas – humilhadas – estavam em locais considerados nobres de São Paulo: a Rua Oscar Freire e o shopping Eldorado, ambos nos Jardins.

Ainda em São Paulo, uma menina de 12 anos foi ofendida na escola e ninguém deu o braço a torcer:

06/05 (São Paulo): Brasil: vítima de racismo em escola, menina é obrigada a pedir desculpas aos agressores

Pela lógica da elite branca, não se supõe também que negros possam ter determinados bens:

23/04 (Belo Horizonte): Universitário negro acusado por PM de roubar o próprio carro não sai mais de casa sozinho

SIMBOLISMOS

As características racistas da técnica teatral da blackface apenas começam a ser percebidas. Em Juiz de Fora, um bloco chamado Domésticas de Luxo continua utilizando o carnaval para apresentar alegremente seus preconceitos, distorcendo  feições que associam aos negros para ridicularizá-los:

17/02 (Juiz de Fora, MG): Domésticas de Luxo desfilam no Centro

E o que dizer de uma boneca chamada “Neguinha do Espanador”?

27/01 (São Paulo): Boneca chamada ‘Neguinha do Espanador’ é exposta e causa polêmica em redes sociais

De simbolismo em simbolismo se desemboca nas discriminações mais focadas (dirigidas a uma pessoa específica), ou violentas. Um médico do interior paulista chamou uma colega exatamente de “negrinha”:

23/06 (Barretos, SP): Médica denuncia colega por racismo em hospital de Barretos

E um jovem da elite carioca teve seu dia de fúria discriminatória:

28/05 (Rio): Erro em pedido de lanchonete acaba em agressão e racismo no Rio de Janeiro

XENOFOBIA E RACISMO

O valentão acima utilizou a palavra “macaco” para se referir a um negro. O termo costuma ser ouvido por haitianos. Em pleno país composto por imigrantes, eles são vítimas de xenofobia associada ao racismo:

08/06 (Canoas, RS): CQC vai atrás de homem que ofendeu haitianos em vídeo na internet
08/08 (São Paulo): Seis haitianos são baleados em ataques em São Paulo
19/10 (Navegantes, SC): Haitiano é assassinado em Navegantes (SC)

Homicídios e tentativas de homicídio falam por si só. Mas chama a atenção, no vídeo do CQC, o ódio do agressor contra os haitianos, que tenta humilhar um frentista por estar “roubando emprego dos brasileiros”.

DÉCADAS DE EXCLUSÃO

Uma discriminação menos recente em relação à imigração haitiana é aquela contra os membros do candomblé. Eles ainda são vítimas de um racismo que já incluiu a capoeira e o samba, e não dá tréguas, em pleno século 21, a essa preferência religiosa:

02/04 (Santo Amaro, BA): Estudante diz que foi expulso de Fórum por não tirar adereço do candomblé
26/06 (Rio): Vítima de intolerância religiosa, menina de 11 anos é apedrejada na cabeça após festa de Candomblé
26/07 (Fortaleza): Religião. Discriminação como rotina
07/08 (Santo Antônio do Descoberto, GO): Centro de candomblé é depredado em Goiás: ‘Sempre sofri agressões verbais’, diz mãe-de-santo
12/09 (Águas Lindas, GO): Dois terreiros de candomblé são incendiados no Entorno do DF 

E OS NOSSOS ESPORTISTAS?

Mas que não se imagine o racismo como obra de incendiários absolutamente intolerantes. Ele está no cotidiano, na forma de piadas e frases desastrosas.

Primeiro foram os colegas do ginasta negro Ângelo Assumpção, um dos principais atletas da seleção brasileira de ginástica artística:

15/05: Vídeo postado por atleta expõe racismo na seleção de ginástica artística

O vídeo acima foi postado pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Uma iniciativa mais do que necessária, como se vê pela dificuldade que os técnicos negros encontram para arrumar uma vaga nos principais clubes e pelas declarações do técnico da seleção brasileira, Dunga, em junho, durante a Copa América realizada no Chile.

Ele falava das críticas que recebe como treinador e expôs a seguinte metáfora aos repórteres:

26/06 (Chile): “Acho que sou afrodescendente, gosto de apanhar”, diz Dunga

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