A diferença entre debate de ideias e intolerância política

Jovens mobilizados e que se interessam por política não ocupam ruas insólitas nos bairros nobres das capitais à procura de pessoas com ideologias contrárias para aviltar. Jovens mobilizados e que de fato respeitam as escolhas alheias não propõem nada mais do que ideias e debates.

Enviado por Mailson Ramos via Guest Post para o Portal Geledés 

Muitas vezes não é possível esperar ideias de quem não as tem; de quem pensa que debater é insultar. Política de alto nível pode surgir de um conflito de ideias, não de impropérios e afirmativas não comprovadas sobre o caráter de quem quer que seja.

O que se extrai das agressões sofridas por Chico Buarque é a intolerância política em sua essência mais degradante. É aquele amargor convulsivo diante de opiniões e posições políticas contrárias. É o não diálogo, tudo aquilo que se opõe à democracia.

Este patrulhamento ideológico foge das regras democráticas quando pessoas são agredidas por aquilo que professam ou defendem; e cada um tem o direito de defender o partido ou a ideologia que quiser. O Brasil vive uma democracia, ainda que recentemente tenhamos nos deparado com fatos escabrosos de desrespeito e intolerância.

A imbecilização da direita é um processo radicalmente integrado a princípios conservadores que desestimulam o diálogo. Estamos diante de uma juventude reacionária que sequer deve saber quem é o vice-presidente da República.

É como o exemplo burlesco de um jovem que vai às manifestações pró-impeachment vestido de verde e amarelo e que traz nas costas uma bandeira dos EUA. O que significam estes valores? Que bases políticas e ideológicas ocupam a mente deste jovem? Como se construiu (se é que se construiu) o seu entendimento acerca das manifestações? O que ele entende da relação entre Brasil e Estados Unidos? Qual a sua concepção sobre o patriotismo? De que informações se acerca para entender o processo de impeachment?

A ideia de pertencimento frequentemente reafirmada por estas pessoas só faz mostrar que o Brasil não é de ninguém; o Brasil é do povo, e, portanto, dizer que fulano deve ir para Cuba ou para a Cochinchina porque é partidária de uma ideia ou de um governo é absolutamente execrável; como é execrável dizer que vai embora para Miami por não suportar mais a ‘roubalheira’ no Brasil.

São exemplos de manifestações débeis. Elas não somam em nada, não têm caráter ideológico, as separatista. Não se pode conceber um grupo de cidadãos com intuitos de expulsar seus congêneres do país. E a Constituição? E a luta pela redemocratização? E aqueles que perderam suas vidas para lutar por um país mais igualitário?

A debilidade das afirmativas dos jovens diante de Chico é assustadora. É assim que se forma um discurso vazio e sem ideias firmes para se discutir a política. O que estamos vendo em Brasília não é apenas resultado da corrupção, dos erros do governo, do revanchismo da oposição. É a junção de tudo isso com o nosso desinteresse pela política.

Porque quem pensa estar sendo um sujeito politizado ao segurar uma faixa pedindo a intervenção militar, não conhece a história brasileira ou se conhece está sendo ainda mais nefando.

A história do Chico deve ser respeitada, mas, sobretudo, as suas concepções ideológicas como cidadão brasileiro livre e que vive numa democracia. E assim deve ser com todos aqueles homens e mulheres, brasileiros, protegidos pela Constituição de 1988.

Mailson Ramos é colunista do site Nossa Política.

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