‘A escola precisa naturalizar a cultura negra’, diz autor de ‘O Avesso da Pele’ que estará no Festival LED

Escritor lembra dos tempos de sala de aula e fala sobre o papel da educação contra o preconceito

FONTEExtra, por Bruno Alfano
Jeferson Tenório venceu o Prêmio Jabuti 2021 com "O Avesso da Pele" Imagem: Carlos Macedo/ Divulgação

Autor de “O Avesso da pele” e um dos convidados do Festival LED, nos dias 21 e 22 deste mês, Jeferson Tenório lembra com afeto da convivência com crianças e adolescentes durante os 18 anos em que atuou na educação básica, apesar das dificuldades inerentes à rotina de professor. Em conversa com O GLOBO, ele fala de episódios marcantes e afirma que o papel da escola é mostrar que não é possível viver numa sociedade preconceituosa e racista.

Realizado pela Globo e Fundação Roberto Marinho, em parceria com a Editora Globo, o Festival LED tem apoio da Fundação Bradesco. Com inscrições esgotadas, o evento terá transmissão das principais mesas ao vivo pela Globoplay, com sinal liberado. Uma delas será a participação da renomada filósofa Angela Davis. Também estão na programação nomes como Ailton Krenak, Mario Sergio Cortella e Felipe Neto. A programação completa está disponível em www.somos.globo.com/movimento-led-luz-na-educacao.

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Qual era o seu estilo como professor?

Na universidade, a gente tinha muita teoria e, quando ia aplicar, via que era completamente diferente. Aos poucos fui entendendo como funciona a engrenagem na escola. Percebi que muita coisa depende da vontade individual de um diretor ou professor. Fui esse professor querendo mudar as coisas, mas com muita dificuldade. Cheguei a ter 16 turmas ao mesmo tempo, de manhã, de tarde e de noite. Claro que seu trabalho não rende o mesmo assim.

Sente saudade desse tempo?

Tenho saudade da sala de aula, mas não da escola. A escola é um lugar de moer professor por todo o trabalho burocrático além da aula. Mas do contato com os alunos, disso sinto falta. Só me tornei escritor por causa dos alunos, dessas trocas, que me aproximavam das questões da vida, das histórias que me contavam.

Algum episódio te marcou?

Muitas histórias me marcaram. Mas uma vez, quando o número de alunos com deficiência ainda estava começando a crescer, eu tive um aluno que não tinha diagnóstico, mas tinha algo como o autismo. Ele quase não falava. Nesse dia, nós trabalhamos o livro “A metamorfose”, de Kafka. Na saída, ele disse que não era um inseto. Eu concordei e ele respondeu: “Mas a minha família acha que eu sou”. Foi uma das poucas trocas que ele teve comigo e me deixou muito comovido o quanto a literatura acabou o tocando, fazendo com que ele conseguisse externar o jeito como era visto em casa.

O seu livro foi censurado em três estados (MS, PR e GO). Pelo menos dois (PR e GO) já voltaram com eles para as escolas. Como analisa esse movimento?

Fizeram um estardalhaço no recolhimento, mas recolocaram timidamente. Primeiro houve uma tentativa de censura, bastante explícita e escancarada, e também um teste para a própria democracia. Queriam ver até onde esse tipo de atitude poderia ir, mas houve uma resposta muito contundente contrária.

Como sugere trabalhar ‘O avesso da pele’ em uma educação antirracista?

Para mim é difícil dizer como ele deve ser trabalhado. O professor deve fazer isso com base no que conhece da sua turma. Mas o livro precisa ser trabalhado como literatura, arte, construção estética, como ter prazer na leitura, de fruição. E a partir dessa leitura como literatura levantar os temas que ele traz. Não é só a questão racial, mas a familiar, o luto, a própria educação. Não mostrar que ele está reduzido a uma questão racial. Mostrar que autores negros fazem arte, o que é importante, e justamente porque os personagens são negros é que sofrem com o racismo.

No Festival LED, o senhor vai discutir educação antirracista. Qual é o papel da escola na construção de uma sociedade menos preconceituosa?

A escola é o lugar que é a imitação da vida, mas também é a vida acontecendo. O papel da escola é mostrar que não é possível viver numa sociedade preconceituosa e racista. Ela precisa, ao mesmo tempo, desnaturalizar a violência e naturalizar as culturas negra, africana, indígena. Mostrar que fazem parte da constituição do país. E mostrar essa cultura não de maneira exótica, como protesto, resistência, mas como parte da nossa vida cotidiana.

O senhor é um otimista e acha que a escola fará esse papel?

Tenho que ser otimista. Fui professor e sempre acreditei que educação era o caminho. Dificilmente uma escola não tem um projeto que fale sobre a questão antirracista. As violências já não passam mais batidas, tem havido reações. Mas a educação no Brasil ainda é muito precária. Embora existam esses projetos, a gente tem problemas mais básicos para resolver, como falta de professor e escolas sem estrutura básica para funcionar.

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