A música negra brasileira e a diáspora africana: Quando o corpo e os passos nos contam histórias

Com o significado de “dispersão”, a diáspora é um conceito predominante nos estudos de intelectuais negros como W. E. B. Du Bois, Paul Gilroy, Kim Butler, Petrônio Domingues e Stuart Hall. A diáspora africana é um fenômeno amplamente investigado por diferentes estudiosos que objetivam mapear as populações africanas desde a dispersão forçada pelo tráfico transatlântico até a presença de seus afrodescendentes espalhados pelos continentes. Da diáspora, é possível criar um panorama da formação da cultura brasileira a partir de elementos como língua, religião, cultura, costumes e demais heranças diaspóricas dos nossos antepassados.

De forma geral, Kim Butler (2020) indica que os estudos da diáspora africana abarcam quatro grandes questões: a dispersão das comunidades em diferentes locais, o relacionamento do sujeito com a sua terra de origem, criações de identidade coletiva e a preservação do legado coletivo ao longo das gerações. O deslocamento das famílias pelo globo também rompe com a ideia de sedentarismo das comunidades africanas, possibilitando compreender fluxo de identidades, sociabilidades, culturas e a desterritorialização da geopolítica.

Nesse sentido, a música não se distancia das movimentações diaspóricas. Além do campo do entretenimento, a música é uma expressão artística secularmente utilizada para expressar os sentimentos, afetos, o culto à memória, a ancestralidades e as inquietações dos sujeitos. A diáspora e a música se encontram enquanto um campo de imaginação capaz de desenvolver novas formas comunicação, com a criação de uma nova linguagem e as expressividades corpóreas, como a dança.

Na obra de Paul Gilroy, O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência (2001), o tráfico transatlântico é um marco violento na história das populações africanas, principalmente pelas tentativas colonialistas de apagamento de identidades negras. A música no processo de diáspora pode ser analisada como um elemento marcante na história dos sujeitos que conviveram com a violência e a distância de suas casas. Considerando a diáspora como um campo da imaginação e da busca pela origem do sujeito, a música é capaz de gerar novas expressões comunicativas, novos usos do corpo, a preservação da língua mãe, o afago da alma e a expressão de si em um mundo que recusa a sua própria identidade.

No cenário brasileiro, o samba, os blocos carnavalescos, os movimentos da soul music e o hip hop são exemplos de como a música criam comunidades e criação de identidades coletivas. E dessas famílias musicais, muitas andaram de mãos dadas com as organizações políticas e culturais organizadas pelos movimentos sociais negro, como por exemplo o bloco de carnaval baiano Ilê-Aiyê. Fundado em 1974 na cidade de Salvador, o grupo carnavalesco desenvolveu um forte diálogo com a agenda do Movimento Negro Unificado. O bloco nasceu da iniciativa ativa de mulheres negras preocupadas com o papel educativo e da trabalhos de conscientização racial com a comunidade negra. Para além dos blocos, o Ilê-Aiyê criou espaços solidários às emergências sociais da sua própria comunidade.

Outro cenário importante para a analisar a música enquanto fluxo diaspórico são os movimentos da soul music na década de 1970. Presente nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Bahia, os movimentos blacks ficou popularizado pelo fenômeno dos sucessos do soul norte-americano, e no mesmo sentido, o movimento musical brasileiro foi constantemente atacado por “importar” uma cultura na qual não condizia com os moldes brasileiros. 

Porém o ano de 1970 foi marcado por duas questões a serem observadas: o cenário da ditadura civil-militar e a divulgação do mito da democracia racial (como o falso discurso sobre a igualdade entre as raças e a ausência de problemas raciais no Brasil). Os movimentos do soul no Brasil foram responsáveis por abrir portas para inúmeros jovens negros no mercado da música. E não podemos esquecer esses grandes nomes: Tim Maia, Jorge Ben, Gilberto Gil, Tony Tornado, Sandra de Sá e uma legião de negrada talentosa. Ou seja, todo esse pessoal tentava mais uma vez corromper com a ideia racista de que negro brasileiro não poderia fazer algo autêntico sem “importar” algo de fora. 

No cenário violento e racista da ditatura civil-militar na década, as organizações negras encontravam nas manifestações culturais como ferramentas educativas e de conscientização racial de vidas negras ameaçadas pelas ações autoritárias das instituições militares. “[…] os grupos Black Soul traziam o movimento global da consciência negra de novas formas, definindo o contexto para um movimento negro brasileiro que buscava conscientemente maximizar suas conexões diaspóricas” (DOMINGUES, 2020, p. 123). 

Assim como o Ilê-Aiyê, os blocos de carnavais não estavam distantes da agenda pan-africanista amplamente ativa nos trabalhos desenvolvidos por Abdias do Nascimento e Lélia Gonzalez. Em O Quilombismo: Documentos de uma militância Pan-Africanista (1974), Abdias do Nascimento reconhecia a cultura musical negra enquanto positiva pela sua criatividade, autenticidade e alcance à uma escala global. Para o ativista, “a música sempre esteve comprometida com a libertação do povo negro” (NASCIMENTO, 2002, p. 203).

Muitas organizações e grupos musicais se reuniam de forma discreta e “clandestinamente” devido aos órgãos de censura e de ataques civis, como a denúncia de bailes à polícia e outros interesses por parte das elites sociais incomodadas com a “poluição sonora”. Porém mesmo com a frenética perseguição do conservadorismo, do elitismo e das reações racistas à cultura negra brasileira, esses movimentos não se demonstraram passivos às tentativas de domesticação da cultura. A maior prova viva desses movimentos é o cenário do funk: anualmente os bailes de rua são interrompidos e invadidos por operações policiais. A marginalização da cultura produzida pela periferia não é apenas um preconceito racial, mas naturalizou a criminalização e o direito de matar jovens negros no seu momento de diversão. O funk não se cala e é o ritmo que mais fatura capital no cenário musical brasileiro.

O acesso aos espaços de conhecimento, como poder produzir arte e a escrita, são acessos que foram secularmente negados às populações negras. Espaços como as escolas, universidades, museus, teatros e cinemas foram espaços conquistados politicamente por homens e mulheres negras. Por isso, o conhecimento não se restringe ao ato de produzir literatura. Mas a sabedoria dos ancestrais, as lições e as aprendizagens dos sujeitos transcendem através da manifestação do corpo e da arte. 

A diáspora africana é um campo com vastas possibilidades para compreender como as nossas comunidades sempre disputaram campos de poder. Aliás, a cultura na história da população da população negra brasileira é um campo permeado de disputas de poder: quem pode produzir conhecimento, quem pode acessar a cultura, quem pode frequentar espaços públicos, quem pode ter acesso ao entretenimento e quem pode fazer o que quiser frente a uma sociedade racista. A gente sabe que o acesso à uma vida de qualidade possui parâmetros de raça, classe e gênero. 

A música, sem dúvidas, possibilitou a ascensão social de muitos jovens negros no país. A criação de espaços criativos, famílias musicais e comunidades no cenário da música foram, ao longo da história, formas de acolher sujeitos negados ao direito do lazer, por exemplo as ruas. Os movimentos blacks e as danças urbanas ainda se encontram como a alternativa de lazer e entretenimento da juventude negra.

O samba, a capoeira, o rap, o soul, o funk e outros gêneros e expressões culturais vivenciaram o racismo no cenário musical… e ainda continuam cantando as suas músicas não para ninar, mas para incomodar o silêncio entediante da casa grande. A diáspora pulsa em cada movimento que se propõe a romper com os silêncios do racismo. A música, antes de tudo, exige posicionamento político e social para que as suas vivências impactem os sentidos dos ouvintes. Exige criatividade e sensibilidade para que as suas memórias e individualidades sejam expostas, pois é preciso ter coragem para criar mudanças antirracistas em um país historicamente violento.

PARA SABER MAIS

BUTLER, Kim D; DOMINGUES, Petrônio. Diásporas Imaginadas. Atlântico negro e histórias afro-brasileiras. São Paulo: Perspectiva, 2020.

GILROY, Paul. O Atlântico Negro. Rio de Janeiro: Editora 34/UCAM. Centro de Estudos Afro-asiáticos, 2001

NASCIMENTO, Abdias. O Quilombismo:  Rio de Janeiro: Fundação Palmares, 2002.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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