A sapiência, o poder e a beleza da mulher negra são grandes demais para caber numa sandália de empresa racista

Christian Ribeiro, sociólogo, mestre em Urbanismo, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. (Foto: Arquivo Pessoal)

O uso indevido e apropriação de culturas e tradições africanas ou afrodescendentes é um dos fenômenos históricos mais desprezíveis e repugnantes resultante do processo de desumanização que se impõe secularmente a estas populações em diáspora. Exemplos concretos dos efeitos do processo escravagista que se fazem cotidianos as pessoas negras do mundo inteiro. Tendo em vista que o racismo possuí diversas formas e alcances por si só, potencializadas ao se darem enquanto elementos – de alienação, desigualdades e dominação – organicamente atrelados ao desenvolvimento capitalista. Ainda mais numa sociedade de influência estamental como a brasileira, em que o racismo assume a função de marcar racial/socialmente quem é mais, ou menos, humano, quem merece ou não ter a sua humanidade reconhecida e respeitada.

Uma realidade historicamente fundante de nosso país, de nossa sociedade, que ainda se faz presente em nossas relações sociais cotidianas, sejam elas públicas ou particulares. De forma direta, o racismo é uma realidade que perpassa a todos que habitam esse país, atingindo direta e negativamente as populações não brancas, em especial as afrodescendentes. Em que as mulheres negras/pretas são as maiores vítimas dessa situação, desde sempre rotuladas enquanto objeto sexual puro e simples da “mulata”, da representação enquanto seres instáveis, invejosos e vingativos simbolizados nas figuras da “neg(r)a maluca” ou da “barraqueira/barraquenta”, fora a simbolização destas sempre no sentido da negação de qualquer sentido de beleza ou positividade. Como se a elas sempre fosse reservado existir no sentido de servidão e degradação, em vista e consequência de outros e nunca a partir e por si mesmas. O que muito nos explica sobre nosso racismo, como também por nosso racismo endêmico. Um processo de violência psicológica dos mais eficientes e tremendamente eficaz para a perpetuação e reprodução de nossa estrutura social arcaica, elitista e ultraconservadora. Em total desrespeito a todo um legado de sapiências, tradições resistências destas mulheres ao longo de séculos, contra o apagamento sistêmico dos sentidos e práticas de pertença das populações negras em diáspora. Não sendo por acaso que são as mulheres negras a base e as responsáveis pelo resguardo e repasse das hereditariedades e laços ancestrais-familiares que se fizeram persistir no Brasil. Sendo os processos de resistências e enfrentamentos das populações afro-brasileiras concretudes que não existiriam sem o axé de luz e vida das mulheres negras.

O que nos remonta ao lançamento da campanha da marca de moda Arezzo, que para celebrar o jubileu de ouro pelos seus cinquenta anos de existência, resolveu homenagear o “DNA das pessoas que ajudaram na construção da empresa”. Uma boa ação de marketing, sem dúvida perspicaz em demonstrar as diversidades e pluralidades que dão forma àquela marca. Uma ação empresarial condizente com as regras de quem, em teoria, pretende se inserir as lutas antirracistas contemporâneas, e orgulhosa de se fazer presente a uma sociedade, conceitualmente, plurirracial e cultural. Para tanto estabelecendo uma parceria com a marca de roupas de Salvador (BA) “Menino Rei”, criada e dirigidas por pessoas negras, que possuí como premissa de “enaltecer nossa cultura ancestral e celebrar a valorização da nossa raça”. Em que esta ficaria responsável por desenvolver todo o projeto criativo e estético de releitura destinada ao lançamento do novo calçado que seria lançado pela Arezzo. Mas, sendo essa criação artística sendo direcionada, insistimos e destacamos: “Nossa inspiração para fazer essa releitura foi o que nos alimenta, nossa ancestralidade. As estampas africanas, o patchowrk, o nó que faz a amarração foi uma alusão aos turbantes, coroas e símbolo de empoderamento feminino.” (In: https://revistapegn.globo.com/Banco-de-ideias/Moda/noticia/2022/09/arezzo-e-acusada-de-racismo-apos-lancar-campanha-inspirada-na-cultura-africana-com-jade-picon.html, acesso em 01/10/22)

O que acreditamos não deixar dúvidas de que esse trabalho artístico, foi desenvolvido, era voltado ao reconhecimento perante a importância, poder e beleza – em todos e mais amplos sentidos – das mulheres negras. Só que tal enaltecimento se faz por terra, quando acaba sendo divulgado que uma das modelos de divulgação do calçado seria a influencer Jade Picon, uma mulher branca e nada relacionada as causas antirracistas ou pró negritudes. O que deu margem a uma onda de protestos, em especial de mulheres negras contra essa escolha.

De imediato, os seguidores da modelo escolhida, apresentaram uma série de justificativas para tal fato, desde acusar as pessoas em contrário de estarem com inveja de uma pessoa “bonita, vencedora e bem-sucedida” ter sido selecionada, das críticas manifestadas serem mais uma demonstração de “vitimismo mimizento dos negros, de ser uma prova do quanto “os próprios negros se auto discriminam”, e, nunca falta, de ser um exemplo de “racismo reverso” contra os brancos. Isso sem citar as inúmeras falas dizendo que “se a Ariel no filme da Disney será negra, por qual motivo a Picon não pode representar uma mulher negra?” ou “ela namorou/ficou com o Paulo André no BBB”… O que nos situa o tão raso e simplório é o entendimento que as pessoas possuem, ou aparentam possuir, em relação a complexidade do racismo e de seus efeitos em nossa sociedade.

Argumentos absurdos e desvairados, todos dantescos, mas reais e que se encontram curtidos e compartilhados aos milhares pelas mídias sociais. Normalizando e normatizando o acinte de termos uma mulher branca como representação da ancestralidade e empoderamento africano. Comentários que agridem e desqualificam até mesmo o exercício de contestação, de oposição realizado pelas mulheres negras indignadas com tal situação. Ações que reafirmam o quanto a desumanização e invisibilidade das populações negras nesse país se dá de maneira sistêmica, de uma forma tão imbricada ao nosso ser civilizatório, que nós – enquanto conjunto social – não nos opusemos as práticas racistas que nos habitam e circulam, e nem aos efeitos que estas geram. Mas sim combatemos e desprezamos, ostensivamente, as oposições daqueles que são as vítimas dessa realidade. Um processo odioso que ganha uma maior perversidade quando dirigido e focado em atingir as mulheres negras, parecendo haver uma lógica sádica, doentia, que dá vazão a estes fatos.

O que nos explica a postura da empresa, dois dias depois de toda a celeuma circular e ganhar corpo pelas redes sociais, emitir uma nota das, mais infelizes, mas típicas em seu cinismo e petulância em negar o óbvio e imputar “aos outros” uma má compreensão dos fatos e deturpação da realidade. Bem naquele estilo do “racismo existir somente aos olhos daqueles que enxergam racismo em tudo”.  Pois a Arezzo passou a divulgar que:  

“A coleção e campanha não foram construídas com o tema de homenagem a mulheres africanas, mas de uma representação dos 50 anos da Arezzo, com o DNA criativo de cada marca participante do projeto. Em toda a campanha de Arezzo 50 anos, estiveram presentes outras mulheres negras, como Sheila Bawar (modelo), Cecilia Chancez (cantora) e Malia (cantora)” (In: https://revistapegn.globo.com/Banco-de-ideias/Moda/noticia/2022/09/arezzo-e-acusada-de-racismo-apos-lancar-campanha-inspirada-na-cultura-africana-com-jade-picon.html, acesso em 01/10/22)

Uma nota que nos faz entender que a empresa, que a princípio destacava a especificidade e autoria da marca parceira, por essa representar uma abordagem – étnica e de gênero – ao qual ela reconhecia não ter em meus quadros, pois caso em contrário não teria que estabelecer uma relação comercial visando sanar algo que já tinha ou possuía como parte daquela entidade. Mas que ante a má repercussão que seu direcionamento empresarial gerou, se isenta de qualquer “falha” e nega ao seu final própria especificidade de recorte racial e de gênero que definem e caracterizam a campanha de seu próprio produto colocado a venda! Em todos os recortes, éticos e financeiros, a argumentação apresentada pela Arezzo não possui sentido. Mas se explica, e encontra suporte por boa parte de nossa população, pela canalhice e dissimulada estruturação racista e machista de nossa sociedade. Fora o fato de ainda arranjar forma de inserir no corpo do texto a desculpa do “dou emprego para/trabalho com pessoas negras, logo não posso ser racista” ao pontuar existir modelos negras que fazem parte da campanha. Como se isso fosse isenção de existência de qualquer prática ou ideário racista, ou discriminatório por parte de qualquer marca empresarial.

Para que não nos acusem de falso radicalismo, podemos até exercer uma boa fé e acreditarmos que não houve de fato uma intenção primordial racista na formulação e execução da campanha, mas a aplicação dela nos revela que no mínimo falta um corpo diretivo e criativo na empresa com pessoas negras presentes, até para exercer o chamado senso crítico e explanar as barbaridades que tal campanha agrega, alimenta e reproduz. Também não possuí interesse, ou falta capacidade de compreensão, as produções científicas e teóricas que refletem e problematizam nossa realidade social racista, inclusive com grande destaque, em várias formas de mídias, de autorias de mulheres negras, como dentre tantas, os clássicos de Lélia Gonzáles e Sueli Carneiro, como de autoras mais contemporâneas, tão importantes em suas diversas e amplas expressões contemporâneas  de saberes, de intelectualidades negro feministas, antirracistas e pró negritudes, como Bruna Santiago, Fabiane Albuquerque, Jaqueline Santos e Thaíse Mendes Faria.   Além disso, ocorre uma falta de sensibilidade e humildade em reconhecer suas falhas, nos revelando que no mínimo a marca está totalmente dissociada da diversidade e pluralidade que diz ter e buscar sempre respeitar. O que torna, ao nosso ver e pelos motivos elencados, essa situação mais revoltante e estapafúrdia do que ela já o é por si só. 

A falta de empatia e de qualquer sentimento de arrependimento pelo que ocorreu, após toda repercussão gerada, nos faz crer que a escolha de Jade Picon não se fez por acaso, mas se deu no sentido do que importa é a repercussão e a divulgação que a empresa teria, ficando a margem, sem qualquer preocupação o quanto tal situação causaria uma recepção negativa em meio as populações afro-brasileiras. Só faltando emitir nota cobrando receber felicitações por ter desenvolvido uma campanha publicitária com essa temática. Não houve nem aquele falso e irritante “pedimos desculpa aos que se sentiram incomodados”, nem isso houve… 

É o total desprezo e escárnio da indiferença… É o silêncio do invisível, daquilo que não foi escrito textualmente, mas que percorre todas as linhas da nota de esclarecimento: “usamos e abusamos das suas culturas e saberes, das suas estéticas e – admitamos – beleza, mas reconhecer isso e dar tratamento digno e respeitoso a isso, nunca! Afinal de contas, quem vocês pensam que são?” Não tiveram coragem de digitar tais palavras, mas que elas estão presentes ao conteúdo não dito, com a qual a empresa, de maneira soberba e arrogante, pretendeu dar fim a situação, isso não nos resta dúvida. 

Elza Soares cantava a pleno pulmões, indagando, provocando, questionando, conflitando, qual o valor da pele negra nesse grande mercado chamado Brasil? Pelo menos, toda essa história nos revelou que na Arezzo esse preço é o valor do cachê da Jade Picon! 

A luta segue, é árdua, dolorosa e revoltante, mas prossigamos!  Por mais que há horas em que é difícil, muito difícil… Mas, debandar ou arrefecer não nos é permitido. Pois caso contrário já sabemos o destino que nos espera… 

Minha solidariedade e apoio as minhas irmãs negras, máximo respeito e companheirismo. Gratidão por hoje eu estar aqui, e por tudo que vocês foram, são e representam em, e para as, nossas vidas-existências! Sigamos juntos e vamos que vamos, afinal de contas, a quilombagem nunca para, não pode parar, até a vitória!


Christian Ribeiro, sociólogo, mestre em Urbanismo, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil.

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