A supreendente ascensão do feminismo negro

Marcha do Orgulho Crespo. Virada Feminista. Oficinas de Tranças e Turbantes. Julho das Pretas. Multiplicam-se iniciativas que afirmam: democracia feminista será preta, pobre e periférica – ou não será

Por Inês Castilho | Imagem Paulo Ermantino, do Outras Palavras

São evidentes os sinais de maturidade e crescimento da onda do feminismo negro. Nas ruas já se fazem notar os cabelos crespos ou trançados e turbantes coloridos, na contracultura do alisamento que marcou os penteados femininos, das brancas inclusive, nos últimos tempos. Décadas de luta do movimento negro, somadas às políticas públicas inclusivas nas universidades dos últimos anos, à multiplicação de saraus pela periferia e de blogueiras negras na rede já exibem frutos.

Neste segundo semestre, eventos se sucedem com grande velocidade em São Paulo: da primeira Virada Feminista, 4 e 5 de julho na Zona Norte, à 1ª Marcha do Orgulho Crespopelo dia da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha, 25 de julho, em preparação à Marcha sobre Brasília pela Consciência Negra, em novembro, de caráter nacional, anunciada com um Manifesto contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver. E ainda o lançamento do livro didático e fotobiografia da antropóloga e ativista Lélia Gonzalez, que encarna grande parte dessa história.

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“Enegrecer o Feminismo”, roda da Virada Feminista, deixou “de cara, estimulada pela grande presença de mulheres negras” a educadora artística Margot Ribas, que estava ali para falar da partidA – o movimento nascente de mulheres, predominantemente brancas, para a possível construção de um partido feminista. “Foi prazeroso participar da oficina de turbantes, dar uma xeretada nas bruxas que ensinavam poções como alternativa aos remédios da indústria farmacêutica, e encontrar velhas amigas da militância das mulheres”, comentou.

Ali mesmo foi divulgada a próxima atividade, preparativa à edição nacional da Marcha das Mulheres Negras marcada para 18 de novembro em Brasília. “Nossos passos vêm de longe – narrativas de mulheres negras” é uma entre as muitas ações do Julho das Pretas, de programação extensa sobre saúde, feminismo negro, genocídio da juventude negra, representações e intervenções artísticas.

A 1ª Marcha do Orgulho Crespo, organizada pelos grupos Hot Pente,  Blog das Cabeludas  e Casa Amarela, ocorreu neste domingo, 26 de julho, no vão livre do Masp, de onde seguiu pela Avenida Paulista até a ocupação artística da Consolação. Também para marcar a data, a Cidade Tiradentes preparou a 1ª mostra cultural Mulher Afro Latinoamericana e Caribenha. E ainda no dia 25 acontece a Ocupação Preta no Centro Cultural da Penha, com oficina de turbantes, roda de conversa e show de mulheres rappers e do hip hop: “pulsante produção realizada por artistas, coletivos, grupos e companhias de teatro e dança que produzem arte engajada que coloca em xeque o mito da democracia racial”.

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As oficinas de trança e turbante se multiplicam pela cidade e são um hit nesses eventos. Os incríveis trançados, cores e formas desses adereços são ao mesmo tempo instrumento de beleza e afirmação cultural, a exemplo do que ocorre nos EUA – como retratado pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozie Adichie em Americanah, livro de cabeceira de muitas e muitos em vários cantos do mundo.

Nós da rede

Algumas falas recolhidas na Virada Feminista denotam a intrincada confluência em que se encontra esse levante feminista negro, tão igual e ao mesmo tempo diferente do feminismo branco, também em plena onda. ”A mulher negra é invisível no feminismo. O feminismo que está aí não nos tem como referência”; ”A mulher branca brigou pra ir trabalhar. A mulher negra sempre trabalhou e luta por seus direitos, pra ser tratada com dignidade no trabalho. Só recentemente conseguiu os direitos trabalhistas como doméstica.”

Para Margot Ribas, um feminismo que não reconhece a existência de uma condição específica da mulher negra está mal informado. “O racismo é tão forte e naturalizado na nossa sociedade que as pessoas são racistas até por automatismo. É esse racismo velado e automático que impede a população negra de avançar socialmente”, observa ela, cabelos afro. “Temos muito que conversar. Racismo é assunto delicado, espinhoso e necessário.”

O feminismo negro encontra-se em terreno delicado também frente aos homens do movimento negro. ”Quando as mulheres querem se organizar, os homens dizem que queremos rachar o movimento”; ”A gente quer um espaço só nosso. Toda hora voltar atrás e ver o que os homens acham não dá mais. Temos que buscar autonomia.” ”A mulher negra está entre o racismo e o machismo” – resume uma das falas.

As feministas negras apontam os vícios das narrativas e representações das pretas na educação formal e informal. ”Na mídia a mulher negra ou é objetificada ou vista no papel da empregada, que não tem vida própria, não tem família”; “Desde a escola, a mulher negra não existe como protagonista. As crianças não conseguem citar um nome sequer”; ”Tem que ter feminismo na escola.”

O surpreendente ascenso das mulheres negras ganhou impulso com a instituição do ProUni (Programa Universidade para Todos), em 2005, das cotas para negros e indígenas nas universidades e, mais recentemente, no programa de ação afirmativa na pós-graduação coordenado pela saudosa Fulvia Rosemberg, da Fundação Carlos Chagas.

Contudo, o artigo O quanto somos pretas, do grupo Nós Mulheres da Periferia, mostra como ainda é dramática sua inserção social. “Na base da sociedade, a mulher negra tem um rendimento médio de R$ 760,27, inferior ao do homem negro. A mulher branca (R$ 1.437,64) ocupa posição superior ao do homem negro, mas ainda não atinge o homem branco. Em termos de igualdade de gênero, estamos duas casas atrás no ‘jogo da vida’.  O ensino superior tem atingido apenas 10,9% das pretas. Nos cargos de direção das empresas privadas, somente 9% tem liderança negra e feminina.”

Segundo dados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) de 2011, 61,6% das 6,5 milhões de mulheres que exercem o trabalho doméstico remunerado no Brasil são negras, pobres e com baixa escolaridade, a maioria sem vínculo trabalhista formal. Na Câmara dos Deputados, as pretas são 0,6% e as pardas 1,6%, entre 8,3% de mulheres brancas e 71% de homens brancos, 15% de pardos e 3,5% de pretos.

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Raízes

O lançamento, em 15 de julho, do Projeto Memória Lélia Gonzalez, veio regar as raízes dessa frutificação exuberante. Lélia, que escrevia em “pretuguês”, recriando a língua para falar da história do seu povo, “enegreceu o movimento feminista e feminizou a raça”, como afirma a filósofa Sueli Carneiro, herdeira intelectual de Lélia e autora de sua fotobiografia. Colaboradora do jornal feminista Mulherio (1981-1988) desde as primeiras edições, deixou grande legado nos estudos sobre raça e gênero do país, além de originar com sua obra diversos outros trabalhos.

Naquela tarde, o clima era esfuziante no Centro Cultural Banco do Brasil. Cabelos e turbantes em rostos negros sorridentes, alguns homens, poucas brancas: Eva Blay, que presidiu o primeiro Conselho Estadual da Condição Feminina (1983), Beth Vargas, convidada para a ouvidoria da Faculdade de Medicina da USP depois do escândalo da violência contra as estudantes, Schuma Schumacher, anfitriã do evento pela Redeh, ao lado do Geledés.

A noite era de encontro e eu estava lá, cabelos quase brancos. De volta. Quando finalmente cheguei à mesa em que Sueli Carneiro autografava os livros, um abraço emocionado e a dedicatória lembrando “Mulherio, uma das casas preferidas de Lélia e memória de nossa nascente, possível e desafiadora sororidade.”

Oxalá! A democracia feminista será preta, pobre e periférica – ou não será.

 

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