Abertura da Rio 2016 acertou na diversidade

Esta é a Olimpíada com mais mulheres da história e, também, é a primeira em que os atletas transgêneros poderão participar sem a necessidade da cirurgia

Por Amanda Negri Do Azmina

Apesar das inúmeras polêmicas nas obras das Olimpíadas, algumas hipocrisias na mensagem ambiental e a cara de “poucos amigos” de Michel Temer, precisamos falar que a abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 acertou no quesito diversidade. Conseguiu arrepiar até os mais críticos da realização do evento. Com efeitos visuais incríveis, fomos surpreendidos, finalmente, com uma representatividade fiel à nossa população. Durante a apresentação de nossa história nacional, o primeiro contato de indígenas e portugueses foi conduzido diferentemente da representação clássica da colonização, não de maneira amistosa, mas de estranhamento entre eles.

Esta é a Olimpíada com mais mulheres da história e, também, é a primeira em que os atletas transgêneros poderão participar sem a necessidade da cirurgia. A modelo transexual Lea T. conduziu lindamente a delegação brasileira durante o desfile dos atletas. Apesar de ofuscada pelos comentaristas da televisão, ela é a primeira transexual destacada durante uma abertura dos Jogos Olímpicos. Logo atrás dela, a atleta Yane Marques carregava a bandeira brasileira em ritmo de festa.

Vale ressaltar, porém, a crítica de Renata Machado, Tupinambá e profissional da Rádio Indígena Yandê : “A apresentação foi muito bonita, mas temos algumas críticas. Apenas em Pindorama foi mostrada para presença indígena, em uma coreografia que pareceu inspirada em indígenas do Xingu, o que não representa a diversidade indígena brasileira que não vimos representada; além disso, após essa participação, os indígenas somem da cerimônia, como se estivessem apenas no passado. Não foram problematizados o genocídio ocorrido com as populações indígenas, a luta pela demarcação de terras e a expansão agressiva do agronegócio”.

A projeção de florestas tropicais transforma-se em alguns instantes em colheitas padronizadas e geométricas. Aos poucos, as plantações deram lugar às edificações e o clima cinzento das cidades. Ficou aí, porém, uma pitada de hipocrisia: a mensagem ambiental é dada por um evento que causou diversos problemas ambientais , como a construção do campo de golfe na área de preservação ambiental (APA) Marapendi, ao lado da lagoa de Marapendi.

Ao som de um dos poemas mais bonitos de Carlos Drummond de Andrade, proclamado na voz de Fernanda Montenegro, uma planta nasceu em meio à selva de pedra, carregando um simbolismo magnífico de esperança:

“Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio” (A flor e a náusea)

Das clássicas Bossa Nova e MPB, ao Funk e ao Rap Brasileiro, grandes nomes se apresentaram nessa noite como: Paulinho da Viola interpretando o hino brasileiro; Ludmilla, com o legítimo “Rap da Felicidade”, de Cidinho e Doca; Tom Jobim tocado por seu neto, Daniel Jobim, ao som de Garota de Ipanema, representada pela top model Giselle Bünchen (desta vez, sem assalto); Karol Conká e Mc Sofia (destaques da noite!), representando o rap e a cultura afrobrasileira; Zeca Pagodinho e Marcelo D2, com o estilo próprio dos cariocas; Elza Soares; Jorge Ben, com direito a “País Tropical” cantado à capela.

Após o desfile dos atletas, Anitta cantou junto a Caetano e Gil em uma performance afetada e sem interagir com os dois ao lado, mas que não estragou o trio de vozes. Finalmente, o samba das baterias das escolas do Rio de Janeiro, trouxe o clima da Sapucaí para o Maracanã.

Muito melhor do que Pelé, o esporte brasileiro foi representado por Vanderlei Cordeiro de Lima, quem nos mostrou o verdadeiro espírito olímpico em 2004, após ser atrapalhado por um padre irlandês durante a maratona, e pegar a medalha de bronze ao invés da ouro. Por esse ocorrido, além de acender a pira Olímpica no Rio de Janeiro, ele é o único brasileiro a receber a medalha Pierre de Coubertin, honraria esportiva-humanitária.

Tudo isso em meio a projeções visuais incríveis na grande tela na qual o palco foi transformado. Pelo menos nessa abertura, a Rio 2016 mostrou o que o Brasil tem de singular e, assim, conseguiu emocionar o mundo, apesar de em grande parte não abranger toda a realidade brasileira.

Contemplamos a colocação de Stephanie Ribeiro, ativista feminista negra: “Ninguém é contra as Olimpíadas”, mas sim contra os problemas sociais que geram às minorias, e ao meio ambiente.
“Isso tudo é diferente de se opor ao evento, aos atletas, ao que for. Mas essas questões estruturais precisam ser debatidas por todos.”

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