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Adoecimento de estudantes negros e o papel da psicologia

Tenho me deparado com inúmeros relatos, tanto de pessoas negras bem próximas a mim na universidade onde estudo como também de estudantes negros distantes ao qual nos conectamos através do mundo virtual, e todos eles trazem o mesmo discurso de fracasso diante do sofrimento e a incapacidade de conseguir encontrar algo que fuja ou transcenda essa realidade imersa em dor. E as poucas narrativas que fogem desta realidade sufocante, são vistas como pessoas negras’embranquecidas’ por muitos militantes que julgam que ser negro é essencialmente militar e sofrer, tendo muitas vezes sua negritude questionada quando isto não está em evidência.

Por Mayara Santiago para o Portal Geledés 

Com toda certeza o racismo nos dilacera historicamente e molda um caminho pré-estabelecido socialmente através de raça e classe no Brasil, segundo Ângela Davis: ‘O enorme espaço que o trabalho ocupa hoje na vida das mulheres negras reproduz um padrão estabelecido durante os primeiros anos da escravidão. Ou seja, entendo que estamos enquanto pessoas negras sofrendo ainda consequências diretas do processo histórico massacrante que foi a escravização, de diversas formas isso tem ocorrido, o que ao meu ver não justifica o fato das pessoas negras militantes deslegitimarem aqueles que não o são, pois estamos todos do mesmo modo porém com suas peculiaridades sofrendo o fardo de um processo histórico-social independente de estarmos ou não cientes desses mecanismos e como eles operam em nossa sociedade.

Enquanto estudante de psicologia me confronto cotidianamente com apagamentos que sofremos no curso, desde a vasta referência bibliográfica que comete o epistemicídio* sendo colonizadora quando não se dispõe a pensar outras epistemologias de saberes latino-americanos e também da diáspora africana até a internalização de que aquele espaço intelectual não nos pertence e a aceitação de que permanecer ali é conformar-se com uma existência que só tem possibilidade dentro do sofrimento. Desde o início do curso temos nos deparado com os corpos de pessoas indigentes nos laboratórios de anatomia, e nos questionamos de onde eles vem? E quais histórias contam? Desde a sala de aula onde podemos contar nos dedos de uma única mão os alunos negros presentes, até a escolha elitista sobre o financiamento da formatura que gira em torno de 7 mil reais, observamos cotidianamente os espaços do curso serem ocupados pela maioria de pessoas negras auxiliares de limpeza que realizam o serviço daqueles que acreditam não ser mais do que a sua obrigação, muitas vezes nos questionamos o privilégio de alguns alunos brancos quando apontam para o curso dizendo que estão ali somente pela obrigação dos pais em os exigir ter o ensino superior para trabalharem nas empresas de suas famílias.

Muitos de nós passamos por um enorme rolo compressor parar adentrar aquele espaço, e diversas vezes somos obrigados a ouvir que deveríamos ter conhecimento básico de inglês ou francês, ou até mesmo sermos gratos pelo curso ser integral para que possamos nos dedicar exclusivamente a ele, quando na verdade ignoram a enorme desigualdade social do brasil que nos impede termos o direito a essas escolhas.

Também precisamos entender como o espaço acadêmico é extremamente violento e massacra subjetividades, tanto a extensa carga horária de aulas em um curso integral, como as avaliações que desencadeiam crises de ansiedade e competição entre alunos, além da inexistência de políticas de permanência, bem sabemos como isso afeta os alunos negros, que mesmo sendo ótimos alunos tem sua capacidade intelectual questionada.

Ora, como Grada Kilomba bem diz: ‘O racismo é uma problemática branca que força o negro a protagonizar um papel que não é o seu e com o qual não se identifica’,  e a partir dessa problemática eu tenho refletido como o racismo tem sido um enorme disparador de adoecimento mental para as pessoas negras militantes ou não, que deixam aos poucos de enxergarem outras possibilidades de existência.

Provavelmente este adoecimento atravessa a solidão política de pessoas negras, assim como diz Grada Kilomba, o racismo que não é um problema a ser resolvido somente por nós pessoas negras é cotidianamente nos empurrado como demanda a ser resolvida por nós unicamente, esta análise tem sido feita por mim ao observar a maneira como somos esquecidos quando não estamos presentes, e também sob a forma como muitas pessoas brancas se escondem através do imaginário de que ‘lugar de fala’ é algo sobre somente pessoas negras falarem de questões étnico-raciais, o que ao meu ver é um problema ético e que promove o esvaziamento de espaços além de não atingir as pessoas ás quais a problemática do racismo deveria ser trabalhadas, essas pessoas deturpam o significado de lugar de fala para que assim possam continuar estruturalmente onde estão e não precisarem lutar para construir uma profissão eticamente comprometida com a eliminação do racismo e seus mecanismos de adoecimento.

E essas práticas ocorrem cotidianamente quando como por exemplo todas as pessoas da minha turma tiveram que escolher entre 3 grupos étnicos para abordar em determinada disciplina, e entre as opções estava a questão da pessoa negra, que foi a única que ninguém se deu ao trabalho de escolher. Veja bem, essas pessoas um dia irão se formar, e por mais que agora não se identifiquem como profissionais de psicologia, o trajeto que fazem até se formar irá determinar suas posturas como profissionais, será que não irão atender pessoas negras se forem para o serviço público? Será que irão exigir ‘boa aparência’ em suas empresas? Se a formação não for um campo fértil para crescermos, questionarmos e mudarmos essa realidade social, as desigualdades sociais no que tange as questões étnico-raciais em nosso país irão se perpetuar pela nossa negligência e silêncio.

Contudo, o que mais me preocupa enquanto estudante de psicologia é a maneira como em nossa formação não temos lugares e espaços para todos juntos enquanto estudantes e professores termos possibilidade de questionar esses padrões e práticas colonizadores de pensamento e coletivamente construir uma psicologia que lute contra o racismo como forma de opressão estruturante na sociedade, não há questionamento e inquietações sobre quais corpos estaremos trabalhando no SUS e nos CAPS que não seja feito unicamente por pessoas negras, e isso tem sido algo que adoece especificamente esses alunos. Ao mesmo tempo, me permito questionar: Quais psicólogos se formarão através disso? Desses apagamentos e silenciamentos? Em detrimento do adoecimento de alunos negros? Eu lhes digo: os psicólogos formados sob esse caráter serão aqueles que logo menos irão dizer a seus clientes/pacientes que racismo é algo que não existe, e que as dores e sofrimento de pessoas negras é algo que não merece especificamente um olhar mais atento (como já vem acontecendo).

Com relação ao papel do psicólogo, gosto de acreditar que uma das primeiras e fundamentais medidas é lançar um olhar para aquilo que estamos construindo em nossa aprendizagem, como disse anteriormente, é fundamental nos atentarmos para aquilo que estamos nos disponibilizando aprender e questionar enquanto estudantes e também atuantes de psicologia, com o que estamos nos comprometendo? Pois compreendo que a base da constituição desses saberes é de importância muito crucial para apontar o caminho que nossas posturas nos guiarão.C omo exemplifica Bell Hooks: ‘A academia não é o paraíso, mas o aprendizado é um lugar onde o paraíso pode ser criado. A sala de aula com todas suas limitações continua sendo ambiente de possibilidades. Nesse campo de possibilidades, temos a oportunidade de trabalhar pela liberdade, exigir de nós e de nossos camaradas uma abertura da mente e do coração que nos permite encarar a realidade ao mesmo tempo em que, coletivamente, imaginemos esquema para cruzar fronteiras, para transgredir. Isso é a educação como prática de liberdade.’

A segunda ferramenta que gostaria de correlacionar, numa perspectiva mais emergente é o conceito de Redução de Danos utilizado na Política Nacional de Saúde Mental, Álcool e outras drogas, nesse sentido esta prática tem um enorme potencial para melhor lidar com a necessidade urgente de produção de vida desses sujeitos que estão adoecendo. Segundo o Centro de Convivência EDL, que é uma organização da sociedade civil, afirmam que: "em geral, as abordagens de RD* têm como prioridade, populações em contextos de vulnerabilidade. A vulnerabilidade de uma pessoa não fica restrita a um determinado comportamento ou conduta, mas está relacionada ao ambiente em que se dá, e também ao contexto sociocultural. “Relacionar o conceito de redução de danos (RD*) a prática de cuidado da saúde mental de alunos negros é politicamente compreender que esse adoecimento pode ser amenizado e até mesmo criar sobre ele condições para que não se fragilize ainda mais através de outras doenças, como a depressão, por exemplo. Sendo assim, é importante ao psicólogo analisar o contexto social em que este aluno negro está e construir junto com ele outras práticas que viabilizem uma existência menos dolorida dentro dos espaços e condições em que ele está inserido.

Ainda sobre a formulação de RD*, Antonio Lancetti diz: ‘ Redução de Danos, como toda prática de afirmação da vida, é necessariamente uma prática que se opera na contramão das práticas instituídas e ancoradas na ordem predominante’, Lancetti enfatiza a necessidade de buscarmos práticas que busquem uma afirmação da vida, e isso por si só já foge do padrão hegemônico de afirmação de morte ao qual nos impõem e ao qual também nos submetemos.

Sendo assim, a questão sobre a qual nós estudantes e psicólogos que se comprometem com a vida de pessoas negras devemos nos debruçar é fundamentalmente esta: Como criar mecanismos e utilizar de ferramentas viáveis para ir na contramão das práticas racistas instituídas como predominantes em nossa formação e nossas práticas?

Por fim, essas práticas trazem consigo uma responsabilidade ética pela busca do auto cuidado acompanhado coletivamente, uma postura humanizada que busca compreender as fronteiras de até onde nós pessoas negras podemos fazer uma análise individual dos limites onde conseguimos ir em nossas lutas e reconhecê-los, compreendendo individualmente nossas barreiras/fronteiras e peculiaridades com o que diz respeito a nossa saúde mental. Essa escolha e postura não se encontra distante da complexidade de riscos que corremos, e acredito que o papel do psicólogo nesse aspecto é como disse anteriormente propiciar ao máximo um ambiente de acolhimento para que estes sujeitos possam a sua maneira se encontrar e serem capazes de construírem coletivamente uma nova existência possível, que reduza os danos do adoecimento causado em espaços tão nocivos como o ambiente acadêmico.

Fundamentalmente precisamos nos permitir ao cuidado de si, como algo que não deve ser marginalizado em detrimento de determinadas circunstâncias coletivas adoecedoras que só tem sido capazes de gerar sofrimento psíquico. Entre os desafios e os riscos que iremos encontrar, Peter Pál Pelbart nos adverte acerca da prática de redução de danos: Como investir na autonomia e não na infantilização dos sujeitos, como suscitar em suas vidas o acontecimento inédito, como introduzir a surpresa, senão pela ascendência afetiva, entrando com o próprio corpo, mobilizando o entorno, inventando conjuntamente uma linha de fuga, um agenciamento coletivo?.’

A esse questionamento e desafio respondo e encerro este texto com uma afirmação de Bell Hooks: ‘Meu repúdio à identidade vitimada surgiu de meu conhecimento da maneira em que pensar numa pessoa como vítima podia ser desempoderador e imobilizador. A despeito da incrível dor de viver no apartheid racial, as pessoas negras sulistas não falavam sobre nós mesmas como vítimas mesmo quando nós éramos humilhadas. Nós nos identificávamos mais pela experiência da resistência e triunfo do que pela natureza de nossa vitimização. Era um fato que a vida era dura, que havia sofrimento. Era pelo enfrentamento desse sofrimento com graça e dignidade que uma pessoa experienciava transformação.’

*Epistemicídio: É o conceito que permite lidar com a evidencia de determinadas bases epistemológicas em detrimento de outras, comumente bases epistemológicas européias em detrimento de bases epistemológicas latino americanas e africanas, por exemplo. É, em essência, a destruição de conhecimentos, de saberes, e de culturas.

Mayara Santiago é moradora de Feu Rosa, estudante de Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo, feminista negra antimanicomial, abolicionista penal e criadora do GENI – Grupo de Estudos Intelectuais Negras.

 

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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