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Amada é uma obra necessária para pensar o racismo de ontem e hoje

Vida escrava; vida libertada – cada dia era um teste e uma prova. Com nada se podia contar num mundo onde mesmo uma solução para você era um problema.” (PP. 363-364)

Por  Gabriely Araújo  Do Ladom

Esse é um trecho da obra Amada, um dos mais importantes livros da escritora americana Toni Morrison. A obra recria o tempo da abolição da escravidão e o fim da Guerra Civil nos Estados Unidos (1861-1865), que até hoje deixam cicatrizes na sociedade estadunidense. Amada também fala de como nasceram as relações de opressão e racismo e faz refletir, através da ficção, o momento conservador que vivenciamos.

Ao abrir as páginas de Amada, damos logo de cara com uma introdução da autora, na qual ela justifica a obra. Morrison recria, ou melhor, se baseia em um fato. Margaret Gardner, uma jovem negra que acabara de escapar da escravidão, foi presa por matar um de seus filhos para que eles não voltassem à casa do senhor. Morrison, assim, move-se sobre a pergunta: o que é ser livre? Às escravas daquele tempo cabia o dever de procriar, mas não de criar seus filhos.

Amada tem uma linhagem não-linear, tanto no tempo como no espaço. Ao longo da narrativa, as personagens se revelam aos poucos nas suas ambiguidades e construção de identidade. Sethe, ex-escrava, mora com a filha Denver em uma casa conhecida por todos pelo seu número, 124, na cidade de Cincinnati, estado de Ohio. O 124 era de sua sogra, Baby Suggs. Sethe chegou ali fugida da fazenda Doce Lar, ainda grávida de Denver, junto de seus dois filhos. O marido, Halle, filho de Baby Suggs, sumiu na jornada.

O início da trama é ambientado em 1873, poucos anos após a abolição da escravidão nos EUA. Denver e Sethe moram sozinhas no 124 e já estão em Cincinnati há 18 anos. Baby Suggs morrera há pouco tempo e os dois filhos de Sethe fugiram de casa. Sethe começa, então, a ser perseguida por um passado que ela queria esquecer.

Ela e Denver são assombradas por uma bebê fantasma, que desaparece depois da chegada de um homem à casa, Paul D, que também veio da Doce Lar. Sethe passa a morar com ele e Denver se incomoda com isso.

Uma jovem chega em Cincinatti e é acolhida por Sethe, ao mesmo tempo em que o fantasma bebê desaparece. A jovem, Amada, muda a relação entre Sethe, Denver e Paul D. Em uma estrutura cheia de mistérios, descobrimos vários segredos dos personagens. Ao mesmo tempo, também descobrimos o que acontecia no tempo em que Sethe, Halle e Baby Suggs eram escravos na Doce Lar. Ao contrário do que sugere o nome, o lugar era palco de sofrimento e violência.

O fluxo temporal ora relembra momentos na Doce Lar, com a presença das personagens em relatos em primeira pessoa, ora descreve como é a vida no 124 e da relação que é construída entre Halle, Denver e Amada, a partir da presença de um narrador. Um dos momentos mais doloridos é quando se descreve o estupro que Halle sofreu na Doce Lar. Em vários momentos, a violação do corpo da protagonista volta a seus pensamentos. As personagens falam de sentimentos que nós negros sentimos até hoje, em uma liberdade em que ainda lutamos para conseguir.

Os questionamentos e o amadurecimento dque envolvem a vida de Sethe, Denver e Amada também é de outras personagens. Um exemplo é da personagem Lady Jones, professora de Denver, a partir da qual Morrison fala de colorismo. Lady Jones é mestiça, e não conseguia se encontrar nem como branca nem como negra.

“Tinha ouvido ‘todo aquele loiro desperdiçado’ e ‘negra branca’ desde que era menina em uma casa cheia de crianças pretas como carvão, então desgostava um pouquinho de todo mundo, porque acreditava que odiavam seu cabelo tanto quando ela” (PP. 351)

Outros relatos são de trabalho compulsório e também das fugas de negros das fazendas do sul dos EUA. Em relatos brutais, também são construídas cenas da guerra civil. Morrison, então, nos transporta não apenas àquele tempo, com relatos e cantos, mas também nos instiga a pensar sobre a memória da escravidão e sobre como as relações de segregação contra a população negra, especialmente às mulheres negras, ainda existem. A primeira que se mostra é a falta de poder sobre o próprio corpo e o direito à liberdade.

Essa retomada histórica ainda permite pensar sobre o momento de intolerância que vivemos. Radicalismos florescem e feridas que ainda estão abertas voltam a ser exibidas.  A morte de uma mulher após um carro ser arremessado contra manifestantes críticos aos supremacistas brancos em Charlottesville, no estado da Virgínia, e as marchas de grupos de ultradireita, de neonazistas e de defensores da supremacia branca, como a Klu Klux Klan só são alguns dos exemplos do que ainda precisamos enfrentar na defesa da equidade.

Amada revelou-se para mim como um espelho. É como se as reflexões de Denver e Amada fossem também as minhas. A procura por um espaço onde eu possa dialogar ou ser ouvida, o medo de enfrentar o futuro, as marcas do passado. O fato de não se reconhecer em muitos espaços ou ter de se encaixar. Isso envolveu todo o meu processo de descoberta da minha ancestralidade e da minha afirmação como negra. Além da qualidade literária de Toni Morrison, Amada nos mostra que ainda precisamos lutar e resistir.

Sobre a autora

Toni Morrison foi a primeira escritora negra a ganhar o Nobel de literatura. Amada também ganhou o Pulitzer, em 1988. Em 2006, a obra foi eleita pelo jornal The New York Times como a obra de ficção mais importante dos últimos 25 anos nos Estados Unidos. Em 1998, recebeu uma adaptação cinematográfica: A bem-amada (Beloved), com Oprah Winfrey no papel principal.

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