Ana Maria, de 84 anos: A multiartista da Maré

Uma das personagens da edição 19 da revista multimídia Viva Favela é a multiartista Ana Maria de Souza, de 84 anos, moradora da Vila do João, no conjunto de favelas da Maré. Ana Maria, mineira de Carangola que veio ao Rio trabalhar como doméstica, é poeta, pintora, atriz e atuante em movimentos sociais. Ana acredita no poder transformador da arte: “Ela mexe com todos os sentidos das pessoas, levando-as a serem melhor”, afirma

Favela 247 – A edição 19 da revista multimídia Viva Favela, com o tema “gente” traz histórias de pessoas que fazem a diferença onde vivem. São líderes, artistas, transformadores do espaço, da vida de outros. “Gente que percebe que, para escrever a própria história, é preciso torná-la um acontecimento presente e compartilhá-la com os outros”, nas palavras dos editores da publicação. O veículo tem edições bimestrais e temáticas, cujos conteúdos são produzidos por correspondentes comunitários.

“Traduzir essas pessoas em narrativa não é apenas revelá-las, é uma tentativa de perpetuar suas ações em memória para transformar o mundo em um lugar melhor”. Pessoas como Ana Maria de Souza, de 84 anos, moradora da Vila do João, no conjunto de favelas da Maré. Uma multiartista: atua em poesia, pintura, teatro e, ainda, colabora com projetos sociais. Quando chegou ao Rio de Janeiro, vindo da cidade mineira de Carangola, por décadas trabalhou e morou em casa de família. Ao se aposentar por invalidez, mudou-se para a Maré e iniciou os cursos de pintura e teatro.

A artista dedica parte do seu tempo ao voluntariado no grupo Embaixadores da Alegria, no Instituto Benjamin Constant, e no projeto Maré Latina de Aprendizado. Para ela, a arte tem o poder de transformar. “Ela mexe com todos os sentidos das pessoas, levando-as a serem melhor”, analisa.

 

Por Aline Melo

As mil faces de Ana

Seja na poesia, na pintura, no teatro ou em projetos sociais: Ana Maria de Souza, de 84 anos, precisa se expressar. Moradora da Vila do João, na Maré, a artista conta que, desde pequena, escreve e desenha, por vontade própria. Em 2002, resolveu aprimorar suas vocações: se inscreveu em cursos de pintura e de teatro, e intensificou sua escrita, resultando no lançamento recente do livro de poemas “Faces de Ana”.

Mineira de Carangola, veio para o Rio de Janeiro trabalhar como doméstica e ajudar uma tia, que estava com o marido doente. Por décadas, trabalhou e morou em casa de família. Já ali, a inspiração a levava a criar. “Às vezes eu estava limpando e tinha alguma ideia. Parava para anotar um poema, pois às vezes a ideia foge”, conta. Aposentada por invalidez, se mudou para a Maré e iniciou o curso de pintura com a professora Lina Mello, e de teatro com o professor Paulo Mag, já falecido.

Ana Maria sente que as portas estão se abrindo. Ela pensa em fazer exposições e outros trabalhos no futuro. Para ela, a inspiração está sempre ao redor. “Me inspiro no amor, na esperança, nos desenganos, no perdão”, afirma. Entre seus poetas favoritos, estão Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Castro Alves e Fernando Pessoa. Entre os pintores, ela não titubeia: “Van Gogh, com certeza”, diz.

Na pintura, começou com os rostos, se baseando em imagens já existentes, que servem como modelo – no momento, está experimentando pintar em chapas de Raio X. Algumas de suas obras estão expostas nos painéis acústicos das linhas Amarela e Vermelha e já foram exibidas no Museu da Maré e em eventos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Quando está sem dinheiro para comprar pincéis, Ana Maria não para de pintar: o faz com as mãos.

A poesia também tem um lugar importante na vida da artista. “Ai de mim se não fosse a poesia”, afirma. Na agenda do ano, está o lançamento de “Faces de Ana”, realizado em maio na Associação de Moradores da Vila do João e no Jornal SBT Rio, e a participação na próxima Feira Literária das Periferias, a Flupp. Com o dinheiro da venda do livro, Ana pretende ajudar a Sociedade União Internacional Protetora dos Animais (Suipa), no Rio de Janeiro.

Ana Maria também realiza cerâmicas e atua no teatro, ocasionalmente. Seu último papel foi na peça “Chiquinha Gonzaga”, dirigida por Paulo Mag. Ela era a ama de Chiquinha, um papel que definiu como “marcante”. “Um personagem humilde conquista as pessoas”, afirma. A artista diz continuar aberta para outras experiências no teatro.

Para a moradora da Maré, a arte tem o poder de transformar. “Ela mexe com todos os sentidos das pessoas, levando-as a serem melhor”, analisa. Talvez por isso Ana Maria dedique parte do seu tempo ao voluntariado em projetos sociais: ela participa do grupo “Embaixadores da alegria” no Instituto Benjamin Constant, e do projeto Maré Latina de Aprendizado.

Apesar da importância que dá à arte, Ana Maria lamenta que esta valorização não aconteça entre seus vizinhos. “Eu gosto muito de morar na Vila do João, mas não gosto da falta de interesse pela arte”, comenta. Para o futuro, a artista projeta um maior desenvolvimento da sua carreira, e deseja despertar o interesse de mais pessoas pelo seu trabalho. Por que para ela, “arte é tudo de bom”.

Fonte:Brasil247

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