Mãe do goleiro Felipe conta como fez Blatter e Valcke ‘engolirem’ o acarajé na Copa

Em 2012, a Fifa tentou impedir as famosas baianas de venderem acarajé na reformada Fonte Nova, mas acabou fomentando uma revolta que não se via em Salvador desde os tempos da Sabinada. Quem capitaneou a “revolução” foi Rita Maria dos Santos, mãe do goleiro Felipe, do Flamengo, e presidente da Abam (Associação das Baianas de Acarajé).

Por:Francisco De Laurentiis

Após “rodar a baiana”, ela fez Joseph Blatter e Jerome Valcke “engolirem” o quitute.

Com pimenta e tudo.

A história começou alguns meses antes da Copa das Confederações 2013, quando a entidade máxima do futebol anunciou que, assim que assumisse o controle da Fonte Nova, só iria autorizar a venda de acarajé “padrão Fifa”, produzido no Rio de Janeiro e comercializado nos stands oficiais. O fato revoltou Rita, que resolveu tomar proviências.

“Comecei a perturbar não só o pessoal do Governo como eu mesmo mandei um monte de e-mails para a Fifa, apesar de eles não responderem (risos)! Mas serviu para chamar a atenção na imprensa, que ficou alarmada: ‘Não vai ter baiana na Copa!”, contou, ao ESPN.com.br., em seu escritório no Pelourinho

O rebuliço despertou o interesse do site internacional change.org, que organiza abaixo-assinados em prol de diversas causas. Consultada, Rita autorizou a abertura de uma petição, que rodou o mundo e foi assinada por 17 mil pessoas. Ela foi entregue a um assessor da presidenta Dilma Rousseff em abril de 2013, quando a Fonte Nova foi inaugurada, sob olhares da chefe de Estado.

mãe de goleiro

Em junho, veio a notícia: as baianas haviam vencido a Fifa e foram liberadas para vender o acarajé já na Copa das Confederações, com direito a pedido de trégua do sacretário-geral da entidade.

“Veio um grandão da Fifa falar comigo, é Valcke, né? Um bem alto! Ele veio e falou ‘eu não querer briga com baiana’ (risos)! Tá liberado pra Copa 2014!”, diverte-se a carioca radicada na Bahia há 20 anos.

“Eles mexeram com as pessoas erradas”, completa a arretada vendedora de acarajé.

Dona Norma
Rita conta que a briga com a Fifa lhe rendeu muita dor de cabeça, principalmente na hora de cadastrar as baianas para trabalhar na Fonte Nova, processo que passa por incontáveis formulários e assinaturas. O que a manteve em combate, porém, foi uma das vendedoras mais antigas da turma.

“Dona Norma leva 65 anos vendendo acarajé na arena. Ela tem 11 filhos. Todos os filhos dela nasceram e ela vendendo acarajé na arena. Ela ia trabalhar grávida! Teve uma das filhas dela que quase nasceu no banheiro do estádio! Ela falava pra mim: ‘Como é que eles vão me tirar da Fonte Nova? Minha vida é a Fonte Nova!’. Minha briga foi muito em função dela. Briguei por ela e pela filha dela, que hoje vende acarajé junto”, relatou.

A presidente da Abam, que está no comando da entidade desde 2009 e cumpre atualmente seu segundo mandato, diz que, depois da derrota para as baianas em Salvador, a Fifa irá pensar duas vezes antes de tentar “mexer com a cultura local” nos países onde organiza a Copa.

“As pessoas agora sabem que, se você brigar, pode fazer a Fifa recuar, como fez com a gente. Eles não podem chegar e impôr tudo do jeito deles, onde já se viu? Tem que respeitar a cultura local! O pessoal que vem de fora não vem só ver futebol, quer conhecer a cultura local também, oras”, discursa.

Apesar da vitória, Rita e sua trupe ainda tiveram que ceder em alguns pontos. Elas tiveram que autorizar funcionários da entidade máxima do futebol a inspecionarem suas casas e cozinhas, além de terem que seguir algumas normas de higiene da Fifa.

acaraje

“Não vamos poder usar nem esmalte nos dias de jogo, acredita?”, revela, antes de bater na mesa várias vezes com uma caneta e reclamar.

“Será que vão obrigar o McDonald’s a fazer o mesmo?”

Receita é a mesma
Enquanto outros pratos típicos de estádios brasileiros, como o Tropeirão do Mineirão, foram drasticamente modificados para se adequar ao “padrão Fifa”, Rita garante que o acarajé da Fonte Nova mantém-se fiel às raízes.

“Tudo tá igualzinho. A única diferença é que a rua a gente trabalha com fogão, e no estádio usamos fritadeira elétrica. Não mudou a receita nem nada!”, assegura.

E, afinal, o que é que a baiana tem? Qual é o segredo do sucesso do acarajé?

“É o amor com que a gente faz… Quem vende acarajé só pelo dinheiro não tá vendendo nada! Quando você chega em uma baiana de fato, que faz aquilo com amor, que aprendeu a receita de mão para a filha, vai encontrar algo diferente, porque a gente faz com carinho”, explica.

Na Fonte Nova, o acarajé custará R$ 8. Além dele, as baianas venderão outros quitutes típicos, como abará e cocada.

Fonte:Uol

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