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Após morte de filho, pianista promove sessões de jazz em apartamento em NY

O apartamento está apinhado de gente. Um padre estica o pescoço do fundo da cozinha. Ouve-sem inglês, francês, português, coreano. Ouve-se música. É domingo à tarde no extremo norte da ilha de Manhattan.

na Folha

O apartamento de Marjorie Eliot se tornou atração de Nova York com sessões dominicais de jazz que a pianista promove desde 1993. Os encontros são musicais, mas também espirituais e, ainda, politizados.

A anfitriã não revela a idade, mas tem pique de adolescente. Ela abre a porta, recebe gente do mundo inteiro, pergunta como cada um vai. Arruma as cadeiras, aponta o banheiro e atende o telefone, que não para de tocar.

Assim, Eliot enfrenta o dia da semana em que perdeu, em 1992, um de seus cinco filhos. A música, explica ela, a ajuda a encontrar “beleza na dor”. Uma dor sem fim. Poucos meses atrás, a pianista perdeu o terceiro filho.

“Há coisas lindas que só aparecem quando estamos nas piores condições”, disse a anfitriã ao público em um domingo de outubro. “Mas anjos estão sorrindo com a presença de vocês. Ninguém precisava vir, mas vieram porque quiseram. Isso me faz bem.” Mesmo com 50 assentos disponíveis, há gente em pé em todos os metros quadrados disponíveis.

Fotos da família na parede se misturam a retratos de símbolos da cultura negra americana como o trompetista Miles Davis (1926-1991) e o ativista político Martin Luther King (1929-1968). Cartazes de saudades dos filhos decoram o ambiente. O apartamento é simples e mal iluminado.

Um cantor impõe a voz, poderosa: “Sou tão feliz pelo fato de os problemas não durarem para sempre. Oh, Senhor, o que devo fazer?”. Ele faz parte do Negro Spirituals, movimento originalmente formado por escravos americanos que mantém a tradição com canções gospel de consolo.

O repertório de Eliot inclui outros temas religiosos como o hino protestante “Amazing Grace” e passeia por clássicos do jazz e do blues, permeados de improvisação. A formação da banda muda a cada domingo.

Saxofonistas, trompetistas, baixistas e cantores se revezam numa escala, segundo eles, disputada. “Toco em muitos lugares, muitas vezes porque preciso de dinheiro. Mas aqui é diferente”, diz o baixista japonês radicado em Nova York Gaku Takanashi, 50. “É como uma igreja.”

Eliot já levou figuras da cena do jazz nova-iorquino e de seu convívio pessoal para a sala de casa, como seu ex-marido, o baterista Al Drears, e o baixista Bob Cunningham.

Oriunda de uma família de músicos, ela aprendeu a tocar piano antes de ser alfabetizada. Além de fazer os concertos dominicais, dá aulas e toca em escolas e casas de repouso. Eliot diz que seu objetivo nunca foi se apresentar em grandes auditórios. “Aqui é o meu Carnegie Hall”, costuma dizer, em referência à suntuosa sala de espetáculos da cidade.

De fato, ela conseguiu preservar o tom intimista e é pouco conhecida mesmo no meio musical. Há alguns meses, a pianista passou a acrescentar uma segunda parte à apresentação, na qual atores leem textos teatrais escritos por ela. Os temas da solidão, da raça e da espiritualidade estão sempre presentes. “Martin Luther King está morto. Estou de luto por ele… Ou será por mim?”, reflete em uma peça.

“Marge faz tudo isso pelos outros, e eu gosto de fazer parte. Ela está contando a nossa vida”, diz Cooki Winborn, amiga e atriz convidada.

“A música é a história dela”, observa o guitarrista brasileiro Daniel Daibem. Ele organiza viagens a Nova York com alunos interessados em conhecer pontos do jazz na cidade e costuma passar pela casa de Eliot.

“Do ponto de vista técnico, a música praticada em bares tradicionais, como o Smoke, é mais sofisticada”, comenta ele. “Mas poucas paradas comovem tanto os grupos. Marjorie toca com legitimidade, expressa a verdade dela no piano.”

PATRIMÔNIO

Não bastasse o show, o edifício e a região no Harlem onde Eliot mora são históricos. O prédio na avenida Edgecombe, no número 555, também é conhecido como Paul Robeson Residence, em homenagem ao ator que foi um dos protagonistas do movimento negro dos anos 1960.

Depois dele, outros artistas como o ator Canada Lee e o pianista e maestro Count Basie moraram ali. A algumas quadras de distância, morou o pianista Duke Ellington, segundo guias turísticos.

Eliot já quase foi despejada por atrasar o aluguel enquanto enfrentava a doença de um dos filhos. Mas conseguiu ficar. Ela é considerada patrimônio e “tesouro vivo” da cidade por associações locais.

Os encontros são gratuitos, mas doações são bem-vindas. Ao final, um cesto corre pela sala e termina repleto de notas. Não há venda de bebida alcoólica nem petiscos como se espera de um ambiente de jazz. Mas as barrinhas de cereal e o suco de laranja distribuídos fazem enorme sucesso.

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