Ativista luso senegalês busca aliança contra racismo

Mamadou Ba visitou o Rio de Janeiro em encontro com lideranças negras

Um dos mais respeitados ativistas antirracistas do mundo passou o carnaval no Brasil. Além de conhecer as raízes culturais e políticas afrobrasileiras, o luso senegalês Mamadou Ba reuniu-se com lideranças do movimento negro. Recebeu apoios e trocou experiências que pretende levar para Portugal, onde, em abril, será julgado por calúnia e difamação contra Mário Machado, ex-dirigente de uma organização neonazista e supremacista branca. 

Na sexta-feira (25), Mamadou Ba fez uma visita ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Ele caminhou pela comunidade ao lado da ativista Camila Santos, uma das fundadoras do coletivo Mulheres em Ação no Alemão. Os dois receberam, em 2021, o prêmio Front Line Defenders, concedido a defensores dos direitos humanos que se destacam internacionalmente. 

Em entrevista à Agência Brasil, Mamadou Ba apontou semelhanças entre o racismo estruturante vigente em Portugal e o racismo existente no Brasil. Em comum, a violência do Estado e a discriminação no acesso aos direitos universais básicos, como habitação, saúde e emprego. 

“Quando a polícia mata as pessoas de forma indiscriminada, sistemática e sem que isso resulte em nenhuma consequência, tanto para a polícia como para a opinião pública, quer dizer que o racismo estrutural existe no país”, destacou o fundador da associação portuguesa SOS Racismo. “Nós encontramos essas semelhanças em todos os países onde houve um processo colonial. O Brasil não escapa disso. O Brasil é resultado da violência colonial, do trajeto colonial.”

Na avaliação do ativista, o nível de assassinato de jovens negros no Brasil é absolutamente exponencial. Para ele, o fato de esses assassinatos não suscitarem comoção ou desconforto ético evidencia que a sociedade está anestesiada em relação à violência racial. 

Educação

Indagado sobre como promover uma cultura e uma educação antirracistas, que tenham como base as crianças, Mamadou Ba afirmou que isso requer, em primeiro lugar, vontade pública e compromisso político, além de medidas concretas de combate à desigualdade como fator racial. Ele vê na educação um dos pilares de uma sociedade democrática, capaz de construir impeditivos éticos e morais para a violência racial. 

O ativista luso senegalês indicou ainda a necessidade de existir um compromisso do Estado em garantir que a igualdade não seja uma proclamação, mas uma prática. Mamadou Ba deposita esperanças no novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente por conta das lideranças escolhidas para conduzir as novas políticas públicas. 

“Nós podemos curar as mazelas que herdamos desse período sinistro que atravessamos nos últimos cinco anos”, avalia. “Não apenas para a América Latina, mas para a Europa, a América do Norte e também para a África. Ou seja, precisamos de uma nova geração de políticas que ponham as pessoas e os direitos humanos no centro da ação política”.

Mamadou Ba considera que a perseguição contra ele em Portugal é reflexo da organização da extrema-direita, que constitui a terceira maior força no parlamento do país. Ele acredita que há também um movimento de retaliação por parte de policiais racistas e neonazistas. O trabalho do ativista, como intelectual e militante, foi denunciar as células desse grupo e a violência racista da polícia portuguesa contra os jovens negros, em especial os moradores de periferia. 

Uma das lideranças do movimento negro no Brasil, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Babalawô Ivanir dos Santos, membro da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), pretende levar uma delegação internacional para apoiar Mamadou durante o julgamento em abril. 

Alemão

O coletivo Mulheres em Ação no Alemão, visitado pelo ativista luso senegalês, acolheu mais de oito mil mulheres nos últimos oito anos. A mobilizadora Camila Santos informou à Agência Brasil que a instituição trabalha no acolhimento de mulheres que são chefes de família e vítimas de violência. “Todo o nosso trabalho tem um recorte na questão de gênero e raça porque no Brasil, assim como em outros países, as mulheres negras são as mais impactadas negativamente em tudo”.

A ativista Camila Santos durante entrevista à Agência Brasil no Complexo do Alemão, na zona norte da capital fluminense. (Foto Tomaz Silva/Agência Brasil)

A organização incentiva a autoestima das mulheres e busca a promoção delas por meio da informação e do acesso a direitos, mostrando que a Constituição brasileira estabelece que homens e mulheres são iguais perante a lei. O coletivo trabalha em parceria com as secretarias municipais e estaduais da Mulher e com as comissões de mulheres.

São oferecidos também cursos, capacitações e oficinas, tendo em vista a importância da geração de renda e da independência financeira para essas mulheres. “A gente cuida também de mulheres que são vítimas de violência e a independência financeira é muito importante para sair desse ciclo”, disse Camila.

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