quarta-feira, agosto 10, 2022
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Branco, não queira sofrer com o racismo

De tão debatido, atualmente, alguns pontos das lutas contra as opressões têm sido deturpadas. Na questão racial, um dos assuntos que continua predominando, como forma de autodefesa da população branca, que se nega a falar seriamente sobre racismo, é o tal do “racismo reverso”.

POR FELIPE CARDOSO, enviado para o Portal Geledés 

Já falei aqui a minha opinião sobre o tema, mas parece que quanto mais se debate, menos nos fazemos entender. Por ser analisado superficialmente por algumas pessoas, o racismo até parece soar como algo positivo, simples e normal. E não é.

O racismo tortura, encarcera e mata física e psicologicamente. A invisibilidade, o escárnio, a omissão e o esquecimento criam sentimentos horríveis que podem levar uma vida inteira para ser tratado e curado. Sentimentos como a incapacidade e inferioridade geram traumas, depressão, falta de perspectiva e mais um monte de malefícios que já foram estudados e divulgados.

O Brasil, sendo a última nação da América a abolir oficialmente a escravidão, demonstra um cenário onde a população negra, mesmo representando a maioria da população, vive situações históricas de miséria e violência. Deixando evidente que as questões sociais estão interligadas a questões raciais, em que a sua cor também acaba por definir a sua classe.

O racismo institucional e estrutural mostra toda a sua perversidade nos gráficos e nas pesquisas sobre a população brasileira. Os negros e negras estão entre as maiores taxas de desnutrição, analfabetismo, sistema prisional, internações psiquiátricas manicomiais, unidades socioeducativas e nos homicídios. Ao mesmo tempo, negros e negras são minorias nos grandes cargos de empresas, nas universidades, na política, nas novelas, na publicidade.

Assunto debatido sempre aqui. Inclusive com dados e referências. Mas quem se importa?

Quem se importa que a saúde da população negra é negligenciada? Quem se importa com o fato de uma mulher negra grávida ter que esperar mais tempo para ter o filho (em muitos casos sem anestesia) do que uma mulher branca, por conta do estereótipo da força física negra?

Quem se importa que negros e negras recebam menores salários? Que a violência atinja, com maior intensidade os jovens, as mulheres e LGBTs negros?

Quem gostaria de ter a sua voz silenciada, ser sempre acusado de vitimista, preguiçoso, cotista? Quem gostaria de ter sua crença demonizada? Quem gostaria de ter seus traços, corpo e cabelo ridicularizados?

Por que alguém em sã consciência gostaria de passar por tudo isso? Você realmente acha que isso aqui relatado é legal?

O Brasil não vai conseguir resolver os seus problemas sem antes resolver os problemas raciais. Negar isso, sendo de esquerda ou de direita, é apenas tentar esconder a sujeira debaixo do tapete.

A questão aqui não é uma disputa de quem sofre mais. A questão principal é acabar com o sofrimento.

A nossa luta não se enquadra contra pessoas, mas sim contra uma ideologia. A nossa luta não é contra brancos, a nossa luta é antirracista e anticolonialista, contra todo o processo de dominação, abuso, silenciamento e violência.

Se você quer fazer algo de útil para o mundo, contribua com a luta para acabar com o racismo e não tentando sofrer com algo tão perverso e prejudicial.

Na moral, branco, não queira sofrer de racismo. Isso não é nem um pouco legal.

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