Brasil embranqueceu no pensamento, afirma Nei Lopes, que faz 80 anos

Segundo intelectual carioca, o governo Bolsonaro evidenciou que o racismo continua vivo e forte na sociedade brasileira

Nei Lopes olha para seus 80 anos com a consciência de que, homem negro vindo do subúrbio do Rio de Janeiro, não nasceu “com a possibilidade de chegar até aqui”.

Ao se rebelar contra o racismo, como diz ter feito ao longo da vida, o artista fez muito mais do que se manter vivo —ele se afirmou num lugar único no cenário cultural brasileiro, como intelectual que circula com a mesma desenvoltura nos terreiros de samba e em pesquisas acadêmicas de referência, como o “Novo Dicionário Banto do Brasil”.

Nei Lopes em 2018 (Foto: laudio Belli /Valor / Agência O Globo)

Em 2022 se comemoraram também os 50 anos desde o primeiro registro de sua “Figa de Guiné”, parceria com Reginaldo Bessa, gravada num compacto por Alcione em 1972, abrindo caminho para sucessos como “Senhora Liberdade”, “Goiabada Cascão” e “Gostoso Veneno”.

Entre projetos já lançados e por lançar estão um EP com cinco músicas inéditas, um álbum de Fabiana Cozza, uma biografia, a série de TV “Nei Lopes: No Fundo do Rio”, o enredo da Renascer de Jacarepaguá no Carnaval de 2023, além de “Academia de Letras”, volume que reúne todas as suas composições, o livro “Oitentáculos” e o romance “A Última Volta do Rio”.

Nesta entrevista, ele comenta sua voracidade por produzir numa idade em que muitos apenas descansam. E deixa evidente que muito do que seus 80 anos abrigam se refere a bem mais do que suas oito décadas de existência. Vem de seus pais e do continente africano que antecedeu a eles. E se projeta para o futuro nos jovens negros que ele vê aos montes hoje na faculdade onde se formou, cercado de brancos. Uma linhagem de goiabada cascão, coisa fina, como diz o samba.


Que tipo de reflexão bate quando se completa 80 anos? O que me ocorre é a exiguidade do tempo futuro. Como sempre tive muitos projetos, tenho vontade de fazer tudo logo. Tenho pensado também que não nasci com a possibilidade de chegar até aqui, principalmente por causa da idade que meus pais morreram. Eles desenvolveram sua vida familiar com dificuldade.

Fui filho caçula numa prole de 13 filhos. Dou o crédito da minha caminhada aos esforços de meus irmãos, pai e mãe.

Você fala da consciência da exiguidade do tempo. Como você lida com isso? A minha espiritualidade me dá certa tranquilidade. Eu sei mais ou menos o caminho, então o que fica marcado é o sentido de organizar. Estou buscando parcerias nos trabalhos.

Você representa de maneira muito destacada a figura do intelectual que transita com a mesma intimidade na academia e na rua. O que permitiu isso? Meu pai nasceu em 1888, minha mãe em 1900. Muito próximo da Abolição. Desde muito cedo, essa vivência deles na pobreza e na dificuldade colocava na minha cabeça que eu tinha que suplantar os problemas através do estudo.

Isso me levou a uma curiosidade com relação à questão da desigualdade. Percebi que raramente acontecia algo positivo na vida dos meus iguais. Pensei ‘vou caminhar por aí’, mas houve um detalhe —os círculos onde entrei depois, do samba e da religiosidade, não eram bem vistos pela família.

Por quê? Se você nasceu próximo do escravismo, você não quer que o seu filho se mova na direção das matrizes africanas. Se você desejava uma vida melhor, você tinha que negar sua etnicidade. A sociedade queria que afrodescendentes fossem assimilados, ou seja, se integrassem ao pensamento da classe dominante.

Me rebelei internamente contra isso. Me formei, fui ser advogado e vivi o racismo. Não acreditaram que eu pudesse ser um compositor da Acadêmicos do Salgueiro. Foi um dos motivos que me fizeram mudar a caminhada.

Fui trabalhar com minha criação. Consegui assim conjugar as várias linhas de atuação. Inclusive direito, sem ser advogado. Participo de uma associação de direito autoral desde a década de 1980.

Como você vê a questão racial no Brasil hoje? A república que começa logo depois do fim do escravismo desenvolveu uma estratégia para branquear a sociedade brasileira. Havia políticas públicas, como a migração maciça de gente da Europa, da Ásia.

O embranquecimento era um objetivo declarado do Estado. Isso acabou não acontecendo do ponto de vista biológico, mas a sociedade brasileira se embranqueceu no pensamento. Cada vez mais passou a se achar que o preto não servia. Nesse governo que se encerrou, ficou evidente que esse pensamento segue vivo.

Mas há uma revisão da história hoje. Na minha época, a faculdade de direito da hoje da UFRJ tinha, além de mim, dois ou três não brancos numa turma de 40 alunos. Quando fui lá agora, notei diferença.
Hoje juristas trabalham numa reformulação do ensino do direito a partir das relações interétnicas. Há teses propondo reformulação jurídica da criminalidade. A adoção de cotas foi bem importante.

Como você vê o entendimento da identidade negra no Brasil? Tem muita gente pegando os Estados Unidos como regra, quando por exemplo o americano adota “black” e a gente começa a usar “preto”. Não é assim. Na definição do IBGE, a qualificação de negro envolve os mais pigmentados e os menos. Se você chamar todo mundo de preto você confunde e reduz a força.

Eu uso sempre negro porque é uma definição política. Negros compõem o segmento afrodescendente, que é a melhor classificação. Em Cuba, afro-cubano é uma classificação que ninguém discute.

Lélia Gonzalez criou uma distinção importante —nós somos amefricanos. Isso pode parecer fútil, modinha, mas para encarar uma situação tão complexa como essa do racismo brasileiro, temos que estabelecer uma definição que seja cientificamente útil. E algo que a gente realmente sinta. Quando digo que sou afrodescendente, estou dizendo tudo.

Em todas as Américas a tábua de classificação étnica sempre foi muito diversificada e utilizada com conotações falsamente carinhosas. Mas não é científico.

Candeia cantou em ‘Sou Mais o Samba’ que ‘eu não sou africano/ nem norte-americano/ ao som da viola e pandeiro/ sou mais o samba brasileiro’. De certa forma, negava a identidade africana em favor de uma identidade brasileira. Como você avalia essa percepção? Nunca pensei desse jeito. Sempre tive admiração pelas culturas africanas espalhadas em outros ambientes. Gosto muito da música americana, afro-cubana, mas naquele momento havia aquela coisa de “sou brasilero”. Isso acabou. A gente tem que ser panafricanista. Evidenciar essa condição ancestral.

Livros, discos, série de TV, outros projetos em andamento. Pensa em descanso? É uma overdose de trabalho, mas tenho pena tremenda dos velhos que se aposentam e ficam sem o que fazer. Outro dia um deles me perguntou “já se aposentou?”. Eu não disse, mas pensei “não, intelectual não se aposenta”.

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