Carta para Carolina Maria de Jesus

A carta para Carolina Maria de Jesus e que faz parte da versão ebook “Onde estaes felicidade” organizado por Me Parió Revolução

enviado por Hildalia Fernandes Cunha Cordeiro via Guest Post para o Portal Geledés

Venerada Carolina Maria de Jesus,

 

 

Bom dia, amada senhora! Escrevo-lhe esta carta neste dia tão importante, para parabenizá-la pelo seu centenário e retribuir um pouco do muito oferecido por você. Ficou um tanto longa, eu sei, mas faça a leitura da mesma quando puder, sem pressa para finalizar. Realize a seu tempo e da forma mais confortável e tranquila possível.

Como tem passado, amiga tão querida? Sei que, apesar do lugar muito aprazível onde está (pelo menos são as poucas informações que chegam até aqui sobre o mesmo), você, permita-me tratá-la assim, não anda satisfeita com o que pode ter conhecimento nesse outro plano. Sou portadora, nesta comunicação, de boas e más notícias. Quais as que prefere receber primeiro? Não que eu guarde esperanças de que você não saiba o que passo a relatar a partir de então.

Passado um século do seu nascimento, não creio que descanse em paz, infelizmente. Não sei notícias sobre seu filho José Carlos. João José, seu mais velho, sei que faleceu. Vera Eunice é lembrada por alguns (uns, sérios, outros, nem tanto). Não encontro notícias sobre seus netos: Ricardo, Luciana, Marisa, Paulo César, Adriana, Lilian, Eliane, Elisa, Ana, Jackson e Rafael. Fiquei sabendo a respeito deles na dedicatória existente no seu livro mais conhecido, Quarto de despejo: diário de uma favelada. Por aqui pelo nordeste, notícias suas não costumam chegar, mesmo em tempos que se dizem e se desejam globais. Quase nada se fala por aqui sobre você, querida, infelizmente. Até mesmo as suas obras são muito difíceis de achar ainda hoje. Mas, em compensação, há muito, não ouvia falar tanto de você como neste ano, em que completaria 100 anos (não vou dizer se viva estivesse, uma vez que creio na continuação da sua energia, amiga tão querida). Envio essas mal traçadas linhas, constituídas de indignadas indagações sobre sua trajetória, suas andanças, produções e legados deixados à sua família e que, novamente, as “aves de rapina”, como você mesma nominava todos aqueles oportunistas, não deixam chegar a quem, por direito, deveria.

Carolina desejaria muito partilhar com você somente as boas notícias, compartilhar o quanto tem sido grande a procura das suas obras pelas gerações mais novas, com um genuíno interesse de aprender, com as suas negras escritas, sobre as artes de vencer mesmo em contextos mais do que adversos. É meu desejo, também, falar sobre os desdobramentos da sua escrita, mesmo sabendo que você os acompanha atentamente os desdobramentos e alcances do legado deixado por você, pois creio que a vida não acaba aqui e que vive em suas obras e para além delas.

Diria mais, penso que você traga a condição de Ìyetùndè, que é aquela que retorna. Espero e anseio por isso. No entanto, gostaria de lhe dizer, mesmo ciente que você observa a caminhada de muitas das nossas irmãs e se regozija com as nossas vitórias, que muitas são as mulheres negras que seguem as estradas desenhadas inicialmente por você, querida amiga. Muitas têm escrito com dignidade, (re) significando para dignificar a nossa existência aqui no àiyé, no plano material. A lista é enorme, graças a Olórun. Dentre elas, podemos citar: Conceição Evaristo, Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, Fátima Trinchão, Ana Celia da Silva, Vanda Machado, Lia Vieira, Geni Guimarães, Cristiane sobral, Cidinha da Silva, Nilma Lino Gomes, Mel Adún, Lívia Natália, Elizandra Souza, Rita Santana, Urânia Muzanzu, Edileuza Penha, Florentina Souza, Ana Rita Santiago e Cristian Sales, dentre outras tantas. Todas continuam o trabalho arduamente iniciado por você, venerável ancestral. Até mesmo eu, muito recentemente, iniciei o caminho por essa seara difícil, que é o de ouvir, arquivar e propagar nossas negras memórias, para que gritemos ao mundo sobre os nossos negros mundos, tão cheios de sabedoria e de ensinamentos, no mais das vezes, de ordem ancestral.

Narrar. Eis o duro e árduo ofício que escolhemos (será mesmo que escolhemos?), iniciado por você e perpetuado por essa forte e determinada rede formada por mulheres negras. Seria uma continuação da reunião ocorrida em solo africano, quando as ìyagba, nossas mães ancestrais, decidiram se unir, para acumular força e energia contra o poder falocêntrico, já tão impregnado naquelas épocas imemoriais? Seria uma (re) atualização do que, outrora, em terras nigerianas, se denominou de Gèlèdè, que tinha como patronas as Ìyaa Mi, as Senhoras Donas do Pássaro? Penso que muitos dos nossos traços de garra, teimosia, perseverança (sobretudo ira, por que não?) sejam advindos destas, e como elas nos proporcionam poderes imensuráveis e nos fazem acreditar que podemos sempre ir mais além e seguir adiante, rumo à emancipação individual, levando-nos, também (e inevitavelmente), à emancipação coletiva.

Narrar: esta foi a sua missão, cumprida com toda a dignidade e teimosia que lhe eram tão peculiares. Obrigada, irmã, pelo espelho que se tornou para todas nós, que procuramos seguir pela mata apontada por você, precursora em tais caminhos. Narrar para: (sobre) viver; para que os dias passem; para procurar entender; para se (re) fazer; para aceitar – como se possível fosse; para se fortalecer e tentar seguir adiante. Esperando o fim? Não. Construindo um futuro.

Escrever era tudo que lhe restara Carolina, para que não lhe arrancassem de vez a dignidade duramente assegurada. Entre uma dor e outra, você corria para o papel para eternizar a sua história, mas que era de tantas outras das nossas também. Uma contadora de histórias reais, vividas e experienciadas diariamente, na linda e sofrida pele preta. Na pauta dos dias e no conteúdo dessas pretas letras, sob folhas em branco, registrava ressentimentos os mais diversos, traumas, dores, amores não correspondidos, a dureza dos dias, demandas de todas as ordens, a falta de dinheiro para impor respeito, a sua condição de humana mulher negra, consegue recordar amiga? Narrava a agonia de não poder oferecer condições mínimas à sua prole. Projetava um futuro diferente, desenhando-o no papel, para que ele ganhasse força e se tornasse real. Você nunca desistiu. Sempre acreditou na sina de ser uma escritora. Sentenciava sobre isso em muitos dos seus textos. Sabia-se e concebia-se escritora.

Posso ouvir os ecos dos seus escritos no primeiro diário publicado. Penso que seja importante reproduzir alguns trechos aqui, minha mais velha, nessa nossa comunicação de ordem tão íntima, visto que se trata de uma carta, mas que não há garantia de onde ela vá parar amanhã, não é mesmo? Quanto mais nos tempos atuais, nos quais o privado e o público são separados por linhas tão tênues, tão frágeis e tão próximas… Acredito que seja interessante registrar trechos da sua primeira e mais conhecida obra, sobretudo, para que as novas gerações, tão interessadas nas suas escritas, possam conhecer um pouco mais do seu rico, diversificado e complexo acervo, amiga. Prometo que os reproduzirei aqui, conforme constam nos originais, pelo menos daqueles a que tivemos condições de realizar a leitura, para que futuros leitores sintam-se incitados a realizar a leitura da sua linda e necessária obra. Permite que assim seja?

Espero que você e todas (os) as (os) que, depois, vierem a ter acesso leiam tais trechos, como quem ouve assobios lançados ao vento, de forma leve, suave, ainda que, muitas vezes, muito mais pareça com o ruído de uma trovoada, por que não? O vento parece traduzir perfeitamente a sua energia, ora brisa, ora furacão, mas sempre vento.

Permita-me, amiga, alinhavar a nossa comunicação com a explicitação de algumas das suas falas magistrais, até mesmo para que eu possa provar ao nosso leitor virtual e real que, ainda que a admire infinitamente, o que torno público aqui ultrapassa, e muito, a admiração pela escritora. Ainda que seja um texto com um forte, inevitável e desejoso tom emocional, com as passagens selecionadas, espero explicitar características suas que gostaria de ter lido em muitos das escritas sobre a sua pessoa, aos quais tenho acesso ao longo desses anos de estudo sobre a sua escrita e sobre você.

Sobre a sua escrita, venho relembrar os seguintes trechos: o primeiro a ser relatado aqui nessa carta, escrito em 22 de maio de 1958, “Duro é o pão que nós comemos. Dura é a cama que dormimos. Dura é a vida do favelado”; o segundo, em 29 de maio de 1958, “Há de existir alguem que lendo o que eu escrevo dirá… isto é mentira! Mas, as miserias são reais”; o terceiro, em 1 de junho de 1958, “Não tenho força física, mas as minhas palavras ferem mais do que espada. E as feridas são incicatrisaveis”.

Você resistiu. Escreveu. Eternizou-se no papel e em nossas memórias. Mostrou-nos caminhos, saídas, nunca atalhos – uma vez que esses não costumam funcionar para nós, mulheres negras desfavorecidas economicamente, quer tenhamos estudo ou não. Obrigada pela teimosia, pela persistência, pela representação tão digna da nossa condição de humanas mulheres negras.

Hoje, mais especificamente no ano em que se “comemora” o seu centenário, você volta a ser, tal qual outrora, objeto de estudo para tantos não negros. Você continua sendo pensada por eles, bem como a sua vasta obra, sempre a partir da ênfase ao depreciativo. Adjetivos como “escritora da miséria”, “memorialista do lixo”, “voz enunciativa favelada”, dentre tantas outras, são atualizadas, mas a intenção permanece a mesma, a de confiná-la na favela da qual, mesmo tendo se mudado, permaneceu engessada no imaginário daqueles que não conseguem nem desejam concebê-la como aquela que conseguiu driblar todas as inúmeras adversidades e produziu um acervo que, mesmo hoje, com toda a facilidade advinda das altas tecnologias, não permite que um escritor tenha fôlego e vontade para produzir tanto quanto você o fez.

O seu ato de escrever era diário e compulsivo.Você contava o mundo tal qual o via, despedaçando-se, sobretudo o seu e dos seus iguais. Tantos dos seus, que são nossos, vivendo em condições desumanas! Era preciso narrar. Narrar para sobreviver, para testemunhar, para publicizar continuadas atrocidades perpetradas contra o nosso povo de pele preta e negra alma. Sim, temos alma sim, Igreja católica. Não somos e nunca fomos peça, mercadoria, coisa. Foram os coloniza-DORES que, assim, impuseram a nossa existência ao mundo. Mas, você, mais do que ninguém, sabe que nunca nos submetemos ao jugo, à subordinação, não é, Carolina?

Escrever para (re) construir-se dia após dia: “Todos os dias escrevo”. Era a sentença proferida por você, nobre guerreira, talvez, na tentativa de que a sentença ecoasse e para que você não fraquejasse e não desistisse. Tinha, ainda, muito e tanto a nos dizer. Eternizar as nossas histórias e memórias no papel para que elas ganhassem o mundo e tornasse pública a miséria, o sobejo, os restos e sobras destinados ao nosso povo negro, mas a nossa capacidade, também, de superar os inúmeros e diversificados obstáculos.

O que não pode deixar de ser contado hoje e precisa ser feito por nós, que viemos a partir da porta arrombada por você, Carolina Maria de Jesus, são seus feitos e não os seus possíveis defeitos, visto que você era humana. Torna-se imprescindível, também, procurar, problematizar e publicizar adjetivos que revelam o menosprezo à sua pessoa e à sua rica obra, ininterruptamente, jogados ao vento. Estes voltam, são devolvidos por esse mesmo vento que os leva, junto com as suas negras escritas, para terras distantes e, por lá, são tão bem acolhidos, recebidos e lidos, a exemplo da recepção de suas obras em outros países.

Aqui, registro também o seu domínio sobre o que se passava no Brasil e no mundo, sobretudo no plano político: em 15 de maio de 1958, escreveu “Eu classifico São Paulo assim: O Palácio, é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos”; em 19 de maio de 1958, bradou em letras pretas “O que o senhor Juscelino tem de aprovável é a voz. Parece um sabiá e a sua voz é agradável aos ouvidos. E agora, o sabiá está residindo na gaiola de ouro que é o Catête. Cuidado sabiá, para não perder esta gaiola, porque os gatos quando estão com fome contempla as aves nas gaiolas. E os favelados são os gatos. Tem fome”; “Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”; “E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!”.

Mesmo tendo somente a antiga segunda série, dona uma caligrafia caprichada, e uma sagacidade e ironia a toda prova, seguia você, desbravando, com toda a valentia que lhe era peculiar, os dias que passavam corridos e cheios de adversidades. Momentos de sossego e de merecido descanso eram irreais para você a nossa heroína e, ainda assim, nunca deixou de acreditar que chegaria a concretizar o destino que desenhou para si e para os seus.

Dividia os afazeres domésticos e de garantia da sobrevivência com a leitura e a escrita. Conhecia os grandes das letras de sua época e de outros tempos que a antecediam. Como? De que maneira se dava o acesso a tais autores e obras? Que momento do dia você tinha para lê-los e guardá-los em sua privilegiada mente, conhecer e propagar ideias deles e de os seus pensamentos, a ponto de reproduzi-los até mesmo no formato poético, dentre outros tantos produzidos por você?

Uma veia para comentários que beiravam o domínio do marxismo, tamanha a lucidez de leitura do contexto sócio-histórico desfavorecido que vivenciava, mas que avançavam para muito além do que um economista de origem europeia poderia prever. Uma consciência e lucidez do quanto era explorada. Uma mãe teimosa que não abria mão de dar aos filhos o que estivesse ao seu alcance. Mesmo que o único presente possível para a filha caçula fosse encontrado no lixo, um par de sapatos para Vera Eunice, esse era devidamente limpo e engraxado antes de ser entregue.

Bela, vaidosa, cheia de si, sempre cuidadosa com a aparência, as poucas imagens fotográficas que chegam até nós, hoje, revelam tais cuidados, você não se deixava levar por nenhum “perna de calça”, como nomeiam as nossas mensageiras, que encontrasse pelo caminho. Orgulho poderia ser o seu sobrenome. Não se rendia à força e à presença masculina que, no mais das vezes, deseja impor a sua vontade sobre as demais. Talvez, preferisse continuar só, conforme narrou em 2 de junho de 1958: “O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. Mas eu não quero porque já estou na maturidade. E depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para escrever. E que deita com lapis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal”.

Você manifestou, repetidamente, o não render-se à exploração masculina em troca de um pouco de comida. Tudo isso a fazia uma mulher sempre muito à frente do seu tempo, como ilustram as passagens a seguir: em 18 de julho de 1955, “Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas. Não casei e não estou descontente”; em 19 de julho de 1955, “Há mulheres que os espôsos adoece e elas no penado da enfermidade mantem o lar. Os espôsos quando vê as esposas manter o lar, não saram nunca”; em 21 de julho de 1955, “Não tenho marido, e nem quero! Uma senhora que estava me olhando escrever despediu-se. Pensei: talvez ela não tenha apreciado a minha resposta”.

Você não maldizia a sua tez negra nem o seu cabelo crespo, muito pelo contrário, orgulhava-se, enaltecia a sua estética herdada dos africanos: em 16 de junho de 1958, eternizou o seu orgulho em “Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Êles respondia-me: – É pena você ser preta. Esquecendo êles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta”.

Nutria a crença de que venceria, tanto quanto a sagacidade de se saber roubada. Você mantinha a teimosia em continuar narrando. Narrava para abrir os caminhos, para não sucumbir. Hoje, as “aves de rapina” continuam rondando o que restou do seu cadáver, o corpo que a terra já deu conta, porque todo o mais vive, ressoa, vibra, segue, propaga-se, sobretudo, com o auxílio indispensável do vento. Os usurpadores de ontem e os descendentes dos mesmos continuam no desespero de se apropriar do que restou para sua família do seu legado. De que valeu escrever tantos cadernos inéditos, se a sua herança não é usufruída pelos seus? Tudo bem, trata-se de um acervo inestimável ao nosso povo negro, mas sua família, de fato e de direito, goza deles no plano material? Você nos ensina e nos representa com maestria, mas e seus desejos de não deixar seus filhos passarem pelos mesmos dificultosos caminhos, percorridos com tanto sofrimento por você, querida mais velha? Tão sábia e tão resistente!

Você continua sendo estudada na Academia, mas só para uso interno. Poucos são os que a alcançam e a respeitam. Poucos, muito poucos, infelizmente. Tão poucos conseguem e desejam alcançar tal nobreza. Este não é nem esta para todos. Ainda bem, não? Mínima e fragilmente assegurada estará a apropriação de sua rica sabedoria por parte das “aves de rapina”.

Desejo que você, momentaneamente de passagem pelo òrun – lugar reservado a poucos, só aos que têm merecimento para tal – consiga ter um descanso digno. Aproveite para se revigorar, amiga e daí nos emane força para continuarmos. Desejo que retorne logo, ou no tempo previsto, para prosseguir em sua missão, dessa vez, de maneira menos penosa e pesada. Não que muitas coisas tenham mudado por aqui. Mas você desbravou inúmeras fendas e possibilidades com sua escrita primeira.

Aprendi que, no “espaço celestial”, o tempo é espiralado, entretanto, mesmo de posse de tal informação e conhecimento, quase consigo visualizá-la com a cabeça e o ìrun todo branquinho, cheia de ideias, a pele já toda enrugada, revelando as marcas do tempo sobre a mesma, o qual lhe trouxe ainda mais sabedoria.

Você nunca parou de escrever e, ainda assim, partiu para o òrun asfixiada, sem ar. Entupida de dizer? Provavelmente. Dizem que o corpo somatiza o que a mente produz. Faltou fôlego, não foi mesmo, minha mais velha? Asfixiaram-lhe. Faltou ar para encarar, com tanta ousadia, interruptas dificuldades. Você foi usurpada. Viu o seu projeto de escrever dar certo, mas não conseguiu garantir o tão desejado futuro para seus filhos, que, hoje, veem-se na sina da mãe, novamente secados, dissecados, violentados, devassados em suas intimidades e memórias.

Sim, Carolina, “SOMOS TODAS CAROLINAS”, um coletivo de mulheres negras, com um projeto intitulado Carolinas ao vento, centenária e atemporal. E é desse lugar de poder que ouso convocar as minhas irmãs, originárias da mesma fértil barriga, que precisamos tomar novamente a caneta para falarmos com propriedade, respeito e dignidade, para que jovem senhora, que foi embora do plano físico tão cedo, sinta-se contemplada. Só nós poderemos fazer isto: levar adiante a missão iniciada por você, nossa mais velha, mestra na arte de contar histórias do cotidiano, histórias tão próximas às vividas por nós também.

Para (re) lembrar tudo de negativo que, historicamente, tem sido escrito sobre você, adorável irmã, não são necessários reforços. Há muito o que dizer e escrever sobre a Carolina, mulher negra e orgulhosa do que é, suas proezas, suas artes de ginga, suas superações, positivizar o que os não negros fazem questão de não contar. Penso que deva ser iniciada por aí a nossa jornada como perpetuadoras do que você nos legou.

Sempre que penso em você, Carolina, sinto a sua forte e doce presença. Como isso me apazigua e me engrandece! É como se você estivesse contemplando e abençoando o trabalho. É novamente Conceição Evaristo – outra mais velha nossa, que muito nos dignifica nas letras pretas – que vai afirmar que, para falarmos e tratarmos de você, venerada mulher, faz-se necessário, acima de tudo, fazer com reverência e muito respeito, pedir a sua permissão para tanto, sobretudo, pela espoliação que fizeram com o seu legado e o muito sofrido por você a partir de então. Toda vez que leio algo seu ou vejo uma imagem sua, sinto a sua forte presença abençoando o estudo, a busca por saber quem foi essa mulher-GÊNIO. Gosto de senti-la abençoando a caminhada. Gosto muitíssimo de sentir a sua presença-benção. E é com a sua permissão e autorização que procuro seguir adiante na senda escancarada por você, tão combativa e incansável. Que orgulho tenho eu de ter tido uma ancestral tão digna e cheia de garra! Gosto de sentir a sua presença que parece chegar com o vento que pela janela adentra. Este parece ser o seu elemento, tal qual a Mulher Búfalo, dada a sua determinação e seu poder de transmutar-se, superar-se diante da vida. Se você, que tinha tudo para nem tentar, teimou e foi adiante, não seremos nós, juntas, que desistiremos ou deixaremos novamente nas mãos das “aves de rapina”, o contar sobre a nossa mestra maior.

Mas, infelizmente não consigo vê-la serena, tranquila, usufruindo da paz e descanso que o lugar deveria lhe proporcionar merecidamente. Você parece tensa, ainda a labutar com a vida, que momentaneamente neste plano, não lhe pertence mais. Parece, ainda, brigar com o àiyé que quase tudo lhe negou.

Sigamos, irmãs. Nossa mais velha, Carolina, espera que assim procedamos. Levamos o nome dela no vento. Voemos, pois, junto com ela! Narrar Carolina, eis o desafio, espalhar seu nome ao vento…

Despeço-me, momentaneamente, de você, Carolina Maria de Jesus, com mais um dos seus ricos ensinamentos, tão lúcidos, tão atuais, mesmo passadas algumas décadas desde a sua escrita primeira: em 9 de agosto de 1958, legou-nos que “A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro. Ou ainda quando, tão profética e lucidamente, afirmou em 20 de maio de 1958: “Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido”.

Mesmo tendo muito que dizer ainda, para que você não se canse com a leitura desta carta, que já se tornou extensa por demais, fico por aqui, amada mais velha. Sei que nos encontraremos em breve, de uma maneira ou de outra e que você permanece em cada uma de nós mulheres negras.

Da sua mais nova, para sempre sua admiradora,

 

Hildalia Fernandes Cunha Cordeiro


 

 

Hildalia Fernandes Cunha Cordeiro é mestre em Educação e Contemporaneidade (UNEB) docente no curso de Pedagogia e Letras da Faculdade D. Pedro II; É aprendiz de contista. Tem um conto publicado nos Cadernos Negros 36; Pesquisa sobre narrativas de professoras negras; cabelo como símbolo identitário e escrita feminina negra (em especial sobre Carolina Maria de Jesus). É Erva Doce na família Abadá Capoeira e mãe de Cauê, sua maior obra. email: [email protected]

 

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