sexta-feira, novembro 26, 2021
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Conceição Evaristo, a imortal

Recentemente, a Academia Brasileira de Letras elegeu dois gigantes da arte e da cultura brasileira para ocupar as históricas cadeiras da instituição: a atriz Fernanda Montenegro e o cantor e compositor Gilberto Gil, nas cadeiras 17 e 20, respectivamente. Dona Fernandona é a primeira mulher a assumir a cadeira 17 e sucede o diplomata Affonso Arinos de Melo Franco. Antes dele, o escritor Sílvio Romero, o poeta Osório Duque-Estrada, o antropólogo Roquette-Pinto, o crítico Álvaro Lins e o filólogo Antônio Houaiss. Já o mestre Gilberto Gil sucede o jornalista Murilo Melo Filho. Sem dúvida alguma, são dois nomes merecidos, de peso, figuras marcantes no cenário brasileiro e importantíssimos para a construção da cultura nacional, cada um com sua história e com seu legado. O fato é de se comemorar, ainda mais se tratando de uma mulher e um homem negro, ambos a favor da democracia, e com pensamentos e obras de muita importância e valor para todos. Porém, não posso deixar de levantar uma questão.

Ao longo de seus 124 anos, a ABL só elegeu oito mulheres: Rachel de Queiroz (1977), Dinah Silveira de Queiroz (1980), Lygia Fagundes Telles (1985), Nélida Piñon (1989), Zélia Gattai (2001), Ana Maria Machado (2003), Cleonice Berardinelli (2009) e Rosiska Darcy de Oliveira (2013). Tratando-se de um mundo machista e patriarcal, não há de se esperar nada diferente. Mas tenho a leve sensação de que os tempos aparentam um pouco de esperança no que diz respeito à diversidade. Ou nem tanto, porque os padrões se repetem, mesmo se tratando de uma instituição tão importante e que se diz tão plural. A ABL foi inaugurada em Julho de 1897, com sede no Rio de Janeiro, e o objetivo é cultivar a língua e a literatura nacional. Composta de 40 membros efetivos e perpétuos, quando um acadêmico morre, é realizada uma Sessão da Saudade, que é uma espécie de despedida oficial daquele membro. A partir disso, os novos postulantes têm trinta dias para se candidatar, e a eleição ocorre cerca de 60 dias depois da declaração de abertura da vaga. Para fazer parte do processo, o candidato tem que ser brasileiro nato e ter publicado ao menos um livro.

De acordo com a Agência Brasil, a eleição de pessoas ligadas a outras áreas da cultura, como aconteceu recentemente, é muitas vezes criticada, pois alega-se que só poderiam se inscrever escritores, mas este debate existe desde a sua fundação. Machado de Assis, um dos fundadores, defendia que a instituição ficasse restrita apenas aos escritores. Joaquim Nabuco, também fundador da academia, propunha que a casa fosse aberta a personalidades da história cultural do país. Fato é que desde sempre os imortais são brasileiros ilustres em diversas áreas, como já ocorreu com o médico sanitarista Oswaldo Cruz, o aeronauta Santos Dumont, o cirurgião plástico Ivo Pitanguy e o político Getúlio Vargas. Bastava ser uma personalidade inserida na cultura nacional, com livro publicado e qualidade literária. Debates à parte, volto para a minha questão. A última mulher foi eleita em 2013, e agora temos Fernanda Montenegro. Maravilha. Mas parei para pensar que temos uma das maiores escritoras do Brasil desde 2018 com o desejo de ocupar uma cadeira, e nada acontece. Conceição Evaristo, uma divindade das palavras. Ela seria a primeira escritora negra a ocupar uma cadeira na ABL. É mais que merecido; é necessária a sua presença. Em 2018, ela teve a maior campanha popular da história, e seria para assumir a cadeira de número 7, que pertencia ao cineasta Nelson Pereira dos Santos, e foi assumida por Cacá Diegues. Na época, a mineira optou por uma espécie de anticandidatura e rejeitou a bajulação tradicional para ganhar votos. Entrou na disputa questionando a falta de representatividade feminina e negra na centenária e não tão diversa assim instituição.

Agora, em 2021, Fernanda Montenegro já estava praticamente eleita, enquanto Conceição Evaristo teria que fazer campanha. Por que isso? Qual o motivo da rejeição de uma escritora consagrada pela crítica e pelo público? Além de uma não-eleição em 2018, um descaso em 2021? Em matéria recente, o portal Geledés publicou que membros da ABL comentaram que Conceição “não teria seguido alguns rituais em 2018, como procurar apoio entre os imortais para obter votos para si”. Leia-se: babar ovo de quem manda, fato normal para um mundo onde a meritocracia é questionada. Agora em 2021, um imortal disse que “Fernanda, candidata para a cadeira, não precisaria ao menos fazer campanha, pois já estava eleita”. Confuso isso. Gostaria de ressaltar que não tenho nada contra a grande diva do teatro brasileiro. Muito pelo contrário. Considero Dona Fernanda como uma das maiores artistas da história, sou fã de carteirinha e exalto sua vida e obra. A questão aqui não é essa. Meu pensamento foca na questão de uma sociedade racista e machista. Por que uma candidata, mulher negra, deve bajular os velhos imortais e fazer campanha, e os outros, não?

Para quem não conhece Conceição Evaristo, vou tentar resumir porque sua história é longa. Mineira de Belo Horizonte, nasceu em 1946 em família humilde. Migrou para o Rio de Janeiro na década de 70, se formou em Letras pela UFRJ e trabalhou como professora da rede pública. É Mestre em Literatura Brasileira pela PUC-RJ, com a dissertação “Literatura Negra: uma poética de nossa afro-brasilidade”, e Doutora em Literatura Comparada na UFF, com a tese “Poemas malungos, cânticos irmãos”. Participante dos movimentos de valorização da cultura afro-brasileira, estreou na literatura em 1990, publicando contos e poemas. Sua obra já tomou o mundo todo, e seus contos são estudados em universidades do Brasil e do exterior, sendo citada em dissertações e teses. Hoje, aos 74 anos, possui diversos livros premiados e aclamados, como “Ponciá Vicêncio”, “Olhos d’água” e “Becos da Memória”. A grande rainha da palavra utiliza muito a expressão “escrevivência” para explicar sua arte, onde mistura o que vive com o poder ficcional de sua obra. Gênia!

Eu confesso que fiquei indignado nas duas vezes, e continuo. Acho que Conceição merece uma cadeira, assim como outras escritoras ilustres do nosso Brasil, como Elisa Lucinda, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Vilma Piedade. Todas mulheres negras, batalhadoras de si e importantíssimas para a cultura nacional. Por que Carolina Maria de Jesus nunca foi eleita imortal? A mesma Carolina, ex-catadora, moradora de favela, que na década de 60 ficou mundialmente conhecida por seu livro “Quarto de Despejo”. Lembro de um embate em 2017, onde um professor de literatura disse que sua obra não poderia ser considerada literatura, pois tinha mais características de um diário e que, o diário não é ficcional, não carrega literatura. Ele só podia estar brincando! Minha diva maior Elisa Lucinda disse na época: “Desculpe, mas é literatura sim! Eu não gosto de música sertaneja, mas não posso dizer que não é música”. Será que é pelo fato de Carolina ser mulher, negra e periférica? Mesmo sendo uma das maiores referências da literatura do país? Assim como Conceição Evaristo? Eu realmente fico indignado, e acho que todos que acreditam fielmente num mundo plural, diverso e democrático, deveriam parar um pouco para refletir. E não só no mês da Consciência Negra, tá? Porque este não é o único caso. Mas agora, para mim, é o x da questão. E sim. Conceição Evaristo, a senhora é a minha imortal.

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