Contraponto

Pertenço à geração 68. Uma geração que sonhou e lutou, venceu e perdeu, acertou e errou, mas nunca  barateou os seus ideais. Nossos inimigos eram gigantes, contra os quais como guerreiros e guerreiras da luz travávamos o bom combate: contra as ditaduras militares no Brasil e em toda a América Latina, por liberdade de expressão e de crença, contra o imperialismo capitalista, contra o racismo, a segregação e o apartheid, contra o machismo, contra a hipocrisia da moralidade pequeno burguesa; contra dogmas e fundamentalismo de diferentes ordens, sobretudo os religiosos. Sonhávamos com paz e amor, com liberdade sexual, com sociedades igualitárias e sem preconceitos.

Por: Sueli Carneiro

Uma geração libertária que jamais cogitou que ser jovem pudesse, em algum tempo vindouro ser sinônimo de vanguarda do atraso. Menos nos ocorreria que no século 21 jovens universitários se ocupariam de se manifestar contra o  tamanho da saia de uma colega de classe e teriam como palavras de ordem contra a “abusada”, “Vamos estuprar, prostituta!

 

Mas tudo pode ainda ser pior. O conservadorismo expresso pelos alunos que hostilizaram uma aluna por seu micro vestido poderia ser a oportunidade para os dirigentes daquela universidade repensarem o seu papel na formação de valores, e buscar explicações para o paradoxo de parte da juventude atual resgatar valores arcaicos e práticas de violência e intolerância que pareciam incompatíveis com a vivência num campus universitário. Longe disso, a universidade opta por legitimar a barbárie, expulsando a aluna em nome da preservação de uma duvidosa moralidade atuando, assim, como instituição proselitista e correia de transmissão do que há de mais retrógado na sociedade. Alunos e dirigentes trocam o papel de educandos e educadores pelos de xerifes normatizadores do comportamento alheio e arautos do reacionarismo.

 

Mas nem tudo está perdido. Na contramão desse conservadorismo extemporâneo a Unb nos oferece um exemplo de vanguarda. Jaqueline Jesus é a primeira transexual brasiliense a chegar a um doutorado na UnB. Sua bela trajetória pode ser conhecida na seção Em Debate desse Blog.

 

E Jaqueline engrandece a universidade que não teve ressalvas para lhe abrigar e que, ao contrário, apenas reconheceu os seus inegáveis dotes acadêmicos:  Jaqueline “fez mestrado – foi aprovada em primeiro lugar. Ano que vem, defenderá sua tese de doutorado no Instituto de Psicologia da UnB. Em tempo: também foi aprovada em primeiro lugar na seleção para o doutorado.”, conforme informa reportagem do Correio Braziliense.

 

Jaqueline traz para a universidade as múltiplas lutas travadas pelas minorias, das quais, desde cedo, ela se constituiu num dos sujeitos políticos; cria a oportunidade de integração, naquela universidade, da diversidade e complexidade de subjetividades e experiências humanas que recortam o mundo contemporâneo; renova a crença de que a universidade preserva os ideais libertários que motivaram a geração 68 que teve nela o locus de irrupção de uma revolução cultural que mudou, para melhor, o mundo conduzindo-o ao processo de emancipação das mulheres, de reconhecimento dos direitos das minorias e de aprofundamento da democracia e dos princípios da igualdade e de respeito à diversidade. Diante da revolução taliban provocada por um micro vestido na Uniban só nos resta dizer: obrigada Jaqueline, obrigada Unb!

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