domingo, janeiro 16, 2022
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COP 26 e a importância da perspectiva indígena, antirracista e do bem viver

Em um contexto de ocorrência de diversos eventos climáticos extremos – que vão de incêndios florestais a inundações e que atingem países de todo o globo – e dias após a morte de crianças yanomami por conta da ação de garimpos ilegais (12/10/21), a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP26) começou no penúltimo domingo (31/11/2021), em Glasgow (Escócia).

A COP26, foco dos holofotes nos últimos dias, tem como objetivo garantir o compromisso das nações com a redução de medidas de agressão ao planeta, como, por exemplo, emissões de gases e desmatamento, problemas que vem ocasionando o aquecimento global de tal forma que ameaça a própria existência de vida na Terra. As comitivas do movimento negro brasileiro e dos povos indígenas seguem participando e incidindo na Conferência, sendo estes representados em especial pelas mulheres indígenas. Mas, afinal, o que reivindicam esses movimentos sociais? É o que vou tratar aqui hoje.

A perspectiva dual de que, de um lado, temos o ser humano civilizado e, de outro, a natureza, foi construída historicamente no coração de sociedades ocidentais capitalistas. Em contraponto, os povos indígenas nos mostram que não estamos tão separados assim da natureza… Na verdade, fazemos parte desse grande tecido da vida. Tanto é assim que mudanças climáticas ou outras questões ambientais impactam não apenas nos ecossistemas em si, mas ameaçam, como dito, a própria existência da humanidade. Tais perspectivas dos povos originários estão na base da política do Bem Viver, que nos lança a caminhos mais sustentáveis e viabiliza a vida como um todo, proporcionando a construção de um futuro possível.

Conectados com os povos indígenas, o movimento negro, representado por integrantes da Coalizão Negra por Direitos, do Instituto Ayíca e da PerifaConnection, denunciam na COP26 o racismo ambiental, as violações contra quilombolas em todo país.

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Coalizão Negra por Direitos e CONAQ em Glasgow na COP 26 (Foto: Marcelo Rocha)

O racismo está tão entranhado na nossa sociedade que os povos tradicionais são sistematicamente submetidos a situações de degradação ambiental. Podemos citar como exemplo a instalação de megaempreendimentos do setor privado ou mesmo público no campo ou na cidade que afetam os territórios desses povos e impossibilitam suas formas de vida. E são as mulheres e crianças negras, quilombolas e indígenas as mais afetadas por essa estrutura ocidental-capitalista que conjuga racismo, colonialidade, sexismo e destruição ambiental.

Apesar da forte organização desses movimentos sociais, as vozes que, na maioria das vezes, ganham destaque na mídia tradicional são de pessoas que não trazem essa importante perspectiva sobre os problemas climáticos. Muito se fala de novas tecnologias para enfrentar a questão climática, mas, na verdade, a preservação da natureza é um saber milenar desses povos, presente no seu modo de vida. Essa invisibilização é o retrato de como se deu a fundação e formação do Brasil: racismo, misoginia, roubo de terras, dos direitos e da vida das populações tradicionais.

Assim, é necessário perceber que os povos indígenas e os quilombolas são centrais para o enfrentamento da crise climática. O equilíbrio climático é possível. Para isso, todavia, precisamos preservar os direitos dos povos indígenas e quilombolas, dentre eles a demarcação de suas terras, a proteção contra o garimpo ilegal, dentre outras violações.

É imprescindível, então, nos debates climáticos, falarmos sobre genocídio dos povos originários e da população negra, da perseguição aos defensores de tais territórios e invasão de suas terras. Como afirma a Coalizão Negra por Direitos: Não há justiça climática sem justiça racial. Sem a inclusão do debate dos povos tradicionais, das comunidades quilombolas e do debate racial, seguimos para um modelo de novo colonialismo.

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