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Desafios do Feminismo diante da questão de raça

Há pouco tempo atrás um debate acirrado aqueceu as veias do Feminismo: a expulsão de um morador de rua durante a terceira Marcha das Vadias de Brasília. Quem conhece o movimento feminista sabe que se trata de uma das suas questões mais básicas e persistentes, que mostra a dificuldade em lidar com encontros entre estruturas de opressão tão profundas, como são o sexismo e o racismo. Um debate importante para nos lembrar de que sempre há o que refletir sobre o movimento feminista e o mundo que queremos construir.

Como já faz um tempo, vale a pena lembrar: durante a realização da Marcha das Vadias do Distrito Federal, um morador de rua fez gestos obscenos e insinuou tirar a roupa. A reação da Comissão de Segurança da Marcha [1] foi escrachá-lo, expulsando-o da multidão com buzinas e gritos.

O fato provocou uma grande reação da várias militantes do movimento de mulheres negras.

“Alguém explica isso: como mulheres em grande parte brancas e universitárias, hostilizando e perseguindo um homem negro, pobre, deficiente e com problemas mentais pode ser igual a luta contra o machismo? Sério que ele personifica o inimigo? A luta antimachista exclui o bom senso? Ele fez algo extremamente grave que não foi captado pelo vídeo?”, perguntou Janaína Damasceno no Facebook [2].

Para muitas mulheres que participaram da Marcha o fato dele ter feito gestos obscenos é justificativa mais do que suficiente para sua expulsão. Trata-se de um homem que somos ensinadas a temer. Por que homens negros e pobres parecem uma ameaça? Que questões o fato coloca para o movimento feminista?

A resposta, dada pelas mulheres que participaram da organização da Marcha das Vadias de Brasília (estou inclusa nesse grupo) expôs, ao mesmo tempo, a fragilidade e alguma disposição à autoreflexão do grupo. Foi difícil para a Marcha das Vadias entender as críticas que estavam colocadas. Talvez não tenha sido possível escapar de onde a maior parte das mulheres que organizam essa Marcha se encontra: o lugar da branquitude.

Esse lugar confortável, onde muitos estudos feministas e reflexões sobre a questão de gênero se desenvolveram. Explico: onde há patriarcado, há a luta das mulheres e, esta é anterior ao que entendemos como a luta feminista (cujo início pode ser vislumbrado em meados do século XX com as sufragistas). O movimento feminista, tal como o conhecemos, não resume toda a luta das mulheres, mas sim, identifica um modo das mulheres se organizarem. Nas palavras de Ana Cláudia Pereira:

“Feminismo” consolidou-se como o termo mundialmente conhecido para falar da luta das mulheres pela emancipação a partir da mobilização de europeias e norte-americanas. Reivindicando melhores condições de vida, imaginavam um mundo melhor a partir de suas próprias experiências sociais: para as operárias, a prioridade era adquirir direitos, enfrentar a exploração capitalista, melhorar as condições de trabalho nas fábricas; para as mulheres de elite, o termo muitas vezes esteve associado à demanda de mulheres brancas e ricas pela participação no mundo de privilégios sociais de homens também brancos e ricos. “Feminismo” foi, desde sempre, um termo disputado por diferentes projetos de sociedade, alguns mais igualitários, outros menos. Referência: Feminismos e justiça social: as lutas das mulheres negras não cabem em uma única palavra.

Ao se estabelecer no Brasil, o movimento feminista foi obrigado a enfrentar questões colocadas pela imensa desigualdade do nosso contexto social, especialmente em relação à raça. O fato de ter sido um dos movimentos mais vitoriosos do século XX não o tornou capaz de incorporar as críticas das mulheres negras, que nele lutaram por reconhecimento.

O que é curioso, pelo menos para mim, é que as Marchas das Vadias que se espalharam pelo país atualizaram a agenda feminista de várias maneiras. Se por um lado, é preciso comemorar a retomada das ruas e o diálogo com a sociedade, por outro fez ressurgir os questionamentos sobre os seus privilégios.

No caso que nos interessa aqui, o da expulsão do morador de rua, branquitude só pode ser entendida como um privilégio que salvaguarda algumas pessoas de uma série de processos de discriminação cotidianos. Não custa lembrar que se tratam de processos muitas vezes cruéis, violentos e, obviamente, injustos.

Segundo Ruth Frankenburg, a branquitude é “um lugar estrutural de onde o sujeito branco vê aos outros e a si mesmo, uma posição de poder não nomeada, vivenciada em uma geografia social de raça como um lugar confortável e do qual se pode atribuir ao outro aquilo que não atribui a si mesmo” [3].

A minha branquitude, assim como a de várias outras feministas, me distancia de vivências de construção de uma solidariedade fundamentada na questão de raça. Numa sociedade racista, eu, mulher branca, não sei o que é me identificar com um homem branco, porque ele é o opressor por excelência. Mas, para as mulheres negras, homens negros são iguais diante da opressão das mulheres brancas.

A isso, mulheres brancas podem questionar: então um homem negro não poderá ser punido por alguma violência sexista que tenha cometido? Há uma hierarquia entre a identidade racial e a identidade de gênero?

Não há hierarquias nesse caso. Racismo e Sexismo são problemas análogos. Identidade, nesse caso, pode ser mais uma maneira de tornar abstrata uma tensão complexa. Se a política tende a fixar essas identidades, cristalizá-las de algum modo, o Feminismo deve buscar caminhos para dar sentido a elas em torno de um projeto comum. Não se trata de reforçar a ideia de um sujeito coletivo homogêneo, em que todas as mulheres devem ser vistas como iguais.

Trata-se de encontrar as intersecções possíveis na nossa luta, aquelas em que se eliminem as opressões que insistem em permanecer. O lugar comum da nossa luta é o da construção de um Feminismo antirracista, que se for possível não está ancorado em categorias abstratas, mas em soluções concretas.

Em termos de ação política, defendo que as pessoas privilegiadas devem assumir o compromisso (revolucionário?) de abrir mão de seus espaços de poder, para que as outras pessoas — que historicamente foram excluídas — o assumam. Isso não tem nada a ver com “ajudar” ou ser “boazinha”. Tem a ver com o reconhecimento da nossa posição e da necessidade de transformação do nosso olhar sobre os processos políticos dos quais fazemos parte.

Como bem disse Sueli Carneiro:

O atual movimento de mulheres negras, ao trazer para a cena política as contradições resultantes da articulação das variáveis de raça, classe e gênero, promove a síntese das bandeiras de luta historicamente levantadas pelos movimento negro e de mulheres do país, enegrecendo de um lado, as reivindicações das mulheres, tornando-as assim mais representativas do conjunto das mulheres brasileiras, e, por outro lado, promovendo a feminização das propostas e reivindicações do movimento negro. Referência: Mulheres em movimento.

É um desafio colocado para todo o movimento feminista, mas em especial para a Marcha das Vadias. Mesmo diante das dificuldades das Marchas estruturarem coletivos e estenderem a sua ação para além do dia do evento, aprofundar estas e outras reflexões sobre as condições estruturantes para a vida das mulheres é fundamental para todas as que se entendem como parte de um projeto de transformação da sociedade.

Referências

[1] A Comissão de Segurança da Marcha das Vadias de Brasília tem como principal ação expulsar os homens identificados como agressores da marcha, afim de garantir que as mulheres se sintam seguras para participar da marcha. Para que alguém seja identificadx como agressor, basta que a mulher procure qualquer pessoa da comissão e o denuncie. A reação da comissão é promover um escracho, com buzinas e gritos, até que o homem saia da marcha. A ação toda foi pensada para dar um sentido de empoderamento, já que naquele momento as mulheres enfrentam seus inimigos coletiva e simbolicamente.

[2] Citada em “Do trágico ao épico: a Marcha das Vadias e os desafios políticos das mulheres negras”, texto de Ana Flávia Magalhães para as Blogueiras Negras.

3] Citada em “A branquitude está nua” por Ana Maria Gonçalves para as Blogueiras Negras.

 

 

Fonte: Blogueiras Feministas

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