Dossiê online busca ser nova ferramenta no combate ao feminicídio no Brasil

30728787642_b6547c8320_zA plataforma interativa para acesso via internet, traz conteúdos sobre o tema começando pelo básico: o que é feminicídio / Reprodução Instituto Patrícia Galvão

Por Juliana Gonçalves Do Brasil de Fato

Segundo o Mapa da Violência 2015, o  Brasil é o 5º país com a maior taxa de assassinatos de mulheres no mundo. Esse e outros dados revelam como as mulheres brasileiras convivem com inúmeras violências cotidianas. Para ajudar no combate desse cenário, o Instituto Patrícia Galvão (IPG) lançou nesta segunda-feira (7) o Dossiê Feminicídio #InvisibilidadeMata.

O material apresenta o compilado dos dados mais recentes sobre o tema, problematiza os serviços de proteção existentes, traz a legislação no Brasil e América Latina, além de um guia de fontes para jornalistas e a discussão de políticas a ações preventivas.

“O nosso desafio foi produzir um material que dialogasse com pessoas que não entendem muito do assunto e com aquelas que buscam pesquisas e dados mais profundos”, contou Débora Prado, editora do IPG e coordenadora do dossiê.

Redes sociais

A hashtag #InvisibilidadeMata, que acompanha a campanha, foi pensada para promover a discussão do combate à naturalização das mortes femininas na sociedade. Tudo que for postado com essa hashtag no Twitter será automaticamente incorporado ao material online.

“Todo o dossiê foi feito sob licença Creative Commons porque queremos que as pessoas utilizem o material o mais livremente possível e participe da sua criação ao incorporarmos relatos, dúvidas e opiniões pela hashtag”, afirmou Débora.

Judiciário

A promotora do Ministério Público de São Paulo, Valéria Scarance, também presente no lançamento, destacou o papel da justiça nesse cenário onde as mulheres ainda morrem mesmo o Brasil tendo a terceira melhor legislação de proteção à mulher do mundo, a Lei Maria da Penha.

”A realidade é que não há um olhar de gênero na investigação dos crimes contra as mulheres. A legítima defesa da honra não desapareceu, ela ainda está implícita nas decisões de muitos magistrados que se negam a ceder proteção às mulheres por falta de testemunhas da violência que ela sofre”, analisou.

Valéria alerta também para o fato do judiciário e os serviços de atendimento às vítimas ainda não entenderem que o ciclo de violência atinge também os filhos e filhas dessas mulheres que, não raro, são obrigadas a conviver com o agressor.

Leis

O material lançado traz a cronologia das legislações e os principais marcos legais, incluindo a Lei do Feminicídio (13.104/2015). Sobre ela, Aparecida Gonçalves, que foi secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres nos últimos 13 anos (substituída depois do golpe), lembra a perda que o movimento de mulheres sofreu. ”Aprovamos uma lei, mas não como queríamos, pois a violência está atrelada hoje ao sexo biológico e não ao gênero”, lembrou.

Recortes necessários

30809093216_ae953218cf_b

Sonia Nascimento, do portal Geledés – Instituto da Mulher Negra e coordenadora das Promotoras Legais Populares, alertou para a dupla vitimização das mulheres negras. “Só o racismo explica porque as mulheres negras morrem mais”, disse. Segundo dados também presentes no dossiê, houve o aumento de 54% dos homicídios de mulheres negras nos últimos 10 anos enquanto as mortes de mulheres brancas caiu 9,8%.

Neon Cunha, mulher trans, servidora pública de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, apontou a importância do material lançado dialogar com a comunidade de travestis e transexuais. “Os desafios são enormes até para enquadrar a morte como feminicídio, até porque o nome social não vai na lápide”, afirmou.

Com relação às mortes de lésbicas, bissexuais, trans e travestis, Mariana Rodrigues da Liga Brasileira de Lésbicas, alertou para a invisibilização. Mesmo com a subnotificação, os números são alarmantes. ”Segundo pesquisas do Grupo Gay da Bahia e da Associação Internacional de Gays e Lésbicas, o Brasil foi responsável por 44% das mortes de LGBTs em todo o mundo”, contou.

Golpe

Amelinha Teles, da União de Mulheres de São Paulo, também presente no evento, ressaltou o contexto político delicado agravado pelo golpe à democracia. “No país cresce a política misógina. A violência não está apenas naturalizada, nós retrocedemos”, pontuou ao finalizar dizendo que a luta contra o feminicídio não se desvincula da luta pela democracia.

A fala de Amelinha reverberou de maneira contundente, pois aconteceu após a fala da Secretária de Direitos Humanos do governo não eleito de Michel Temer, Flávia Piovesan. Sua presença, aparentemente, causou desconforto e a secretária foi anunciada sob manifestações de “Fora Temer!”.

+ sobre o tema

Atacante condenado por estupro faz campeã rejeitar homenagem

O polêmico caso de Ched Evans, jogador condenado a...

‘Me deixou sozinha na cama chorando de dor’, diz jovem estuprada pelo próprio namorado

Universitária sofreu violência psicológica e foi estuprada pelo namorado. ...

A História estuprada do Brasil

Vivemos tempos de questionamentos. De enfrentamento aos privilégios. De...

Em artigo no ‘NY Times’, Angelina Jolie desabafa após visitar campo de refugiados

Atriz escreveu artigo no jornal de NY Times, publicados...

para lembrar

Enfrentei aquele homem e faria tudo de novo

Muitos de vocês conhecem minha história. Diria até que...

Congresso lançará campanha pelo fim da violência contra as mulheres

O Congresso Nacional vai realizar sessão solene no próximo...
spot_imgspot_img

Homem é preso em Manaus suspeito de matar grávida por não querer filho negro

A Polícia Civil do Amazonas prendeu em Manaus um homem apontado como sendo o assassino de sua ex-namorada grávida de sete meses. As investigações, segundo a corporação,...

Violência política contra as mulheres é estratégia de ataque à democracia, diz especialista

Neste 25 de novembro, Dia Internacional pelo Fim da Violência contra as Mulheres, o Brasil se depara com um número alarmante. Segundo pesquisa elaborada...

Edificar o lar

Na verdade eu venho pensando mais fortemente nisso desde que vi a notícia sobre o brutal assassinato da pastora Sara Mariano. Ela foi morta...
-+=