quarta-feira, setembro 22, 2021

E eu não sou um negro?

Tenha cuidado, há um ódio curtido em fogo brando

“Os miseráveis, os rotos / São as flores dos esgotos”

(“Litania dos Pobres”; Cruz e Sousa)

Eles combinaram de nos matar, e nós combinamos o quê, para ontem, para já?

A vida de Kathlen Romeu era apenas um cisco no olho do policial que a matou. Incomodou sua visão; era preciso eliminar o incômodo. Sob o tsunami das mesmas (in)justificativas, do Estado e do atirador, nenhuma lágrima rolou, nenhum pedido de desculpas: o patrono das maldades é mesmo o Estado de Direito.

O detalhe é que o incômodo tinha vida e nome: uma jovem mulher negra, de 24 anos, e grávida de quatro meses. O policial, qualquer um deles, não tem filhos, irmãos, mãe, parentes? É preciso ter cautela ao sair de casa sendo negro ou negra no Brasil. Há um ódio curtido em fogo brando, herança de tempos coloniais e da maldita escravidão, atípica e longeva. Esse ódio atravessa séculos, com sua fúria e gosto de sangue nesta década do 21.

Ao assumirmos a negritude a cada dia, com gesto e atitude, de cabeça erguida e autoestima —não mais só o turbante nos representa, o cabelo crespo, as batas africanas, as roupas coloridas—, mais nos caçam, nos matam e, como ratos dos esgotos (ó, Cruz e Sousa!), escarneiam sobre nossos corpos trucidados pelas balas de fuzis.

Alguém como eu deve indagar: “E eu não sou um negro?”. É, respondo, e deve tomar todo o cuidado, pois você —“negro, negro, negro!”— é o próximo da vez, o número, a base da estatística da caça: a mesma que ceifou 27 seres humanos faz pouco tempo no Jacarezinho. Ceifa é modo de dizer: aquilo foi caçada animal, como ocorre nas piores guerras, desde a Idade Média aos massacres de Namíbia, Ruanda ou na centenária ferida (ainda aberta) de Tulsa (EUA), onde, em poucas horas, em 1921, chamas racistas destruíram 35 quarteirões, fizeram 300 mortos e desabrigaram mais de 800 famílias.

Se vidas negras importam de verdade, elas importam a quem? Que estatística é essa que, há 133 anos da abolição, decantada pela República, o lado que mais perde, que mais tem baixa na luta fraticida, é o da população negra, onde desigualdade é sinônimo de cor da pele e de dor.

Por que negros são mais vítimas de homicídio do que brancos? Brancos poderiam ajudar a responder tal pergunta; afinal, eles morrem menos, vivem com mais dignidade, têm melhores escolas, tempo de estudos, garimpam altos empregos e bons salários.

Essa desvantagem parece a mesma em todo o mundo. Lição que é rotineira no Brasil. Nos Estados Unidos, o julgamento do brutal assassinato de George Floyd muito repercutiu, mas ainda tem pouco aprendizado para o povo americano. Kamala Harris fala grosso sobre imigração; já Joe Biden está cortando um dobrado para amenizar o racismo dentro do seu país.

O mundo, o Brasil e o Rio de Janeiro precisam ouvir atentamente Nelson Mandela, quando, em 1964, diante do tribunal que o condenou, em Rivonia, disse: “Lutei contra a dominação branca e contra a dominação negra. Defendi o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e conseguir realizar. Mas, se for preciso, é um ideal para o qual estou disposto a morrer”.

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