Em meio a uma ‘nova América’, Lenny Kravitz e Sly Stone voltam com novos trabalhos

Dois nomes de peso da black music norte-americana lançaram discos novos em agosto de 2011: Sly Stone e Lenny Kravitz. Sly, hoje com 68 anos, é fruto genial da fusão entre os estilos black power e flower power testada no final dos anos 1960 por nomes como Jimi Hendrix, o Funkadelic de George Clinton e a corporação familiar Sly & The Family Stone – esta em especial no formidável álbum Stand!, de 1969.

O título tentativamente triunfante do novo álbum de Sly é I’m Back! Family & Friends. Consiste de regravações pálidas dos hinos hippie da Family Stone, como Dance to the Music (1968), Everyday People (1969) e Family Affair (1971, de refrão chupado pelos Tribalistas Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte para virar hit do verão brasileiro de 2002, sob o nome Já Sei Namorar). O CD se completa por mais alguns exemplares dos cada vez mais anacrônicos remixes “dançantes” das faixas recicladas.

LKravitz blackwhiteSlyStone

Lenny, 47 anos, despontou para o sucesso no início dos anos 1990, moldando um funk rock tributário de Hendrix, mas largamente influenciado pela brancura do heavy metal, do hard rock e do glam rock à la David Bowie. Always on the Run,It Ain’t Over ‘Til It’s Over (ambas de 1991) e Are You Gonna Go My Way (1993) foram hits onipresentes daquela década.

O novo disco de Lenny se chama Black and White America. O segundo single – e uma de suas faixas mais pulsantes – é um funk de ideário bem hippie, coincidentemente ou não batizado Stand, à imagem do álbum-standard da Family Stone em 1969.

Sly não gravava discos há mais de uma geração, desde 1982. Poucas semanas após o lançamento de I’m Back, no final de setembro de 2011, o jornal New York Post publicou reportagem afirmando que Sly Stone irou sem-teto e “mora” dentro de uma van.

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A notícia é requentada. O autor do texto, Willem Alkema, apresenta-se como diretor de um documentário em produção sobre Sly, e já havia contado a mesma história há dois anos, no The Guardian. Há na imprensa norte-americana quem conteste a informação sobre o Sly homeless, mas se for verdade não é absolutamente uma história incomum no show biz, repleto de casos tristes (e por vezes ocultados) de gente que viajou da fama para a sarjeta, entre excessos, gastanças, drogas, blábláblá.

Kravitz já saiu há anos da febre de juventude, e luta pela manutenção de sua trajetória musical, o que, como Stone sabe muito bem, é tarefa árdua. A imprensa e os “fãs” que se assanham pela van do sem-teto Sly são os mesmos que não dão muita bola para o nono disco de alguém que fez muito sucesso há 20 anos como pop star e como autor do hit Justify My Love (1990), de Madonna.

Lenny, que nunca foi lá de fazer letras militantes, usa a faixa-título do CD novo como um manifesto pela paz racial na “América preta-e-branca”. “Em 1963/ meu pai se casou com uma mulher negra/ e quando andavam pela rua eles estavam em perigo”, diz a letra que começa falando de Martin Luther King (cujo ideário é retomado na penúltima faixa, Dream) e de resto ostenta humores otimistas. “Talvez nós tenhamos finalmente encontrado nosso chão comum”, observa, aproveitando os múltiplos significados do termo “common ground”.

A “Black and White America” é o reverso e o refluxo de um funk da Family Stone em 1969, que ironizava os ódios raciais repetindo em um funk, por seis minutos ininterruptos, as frases mutuamente pejorativas “don’t call me nigger, whitey” e “don’t call me whitey, nigger”.

Talvez a realidade norte-americana atual corresponda à visão edulcorada e anestesiada que Lenny Kravitz elabora enquanto sobrevive. Mas e se o “common ground” da “América preta-e-branca” de 2011 for o chão comum das ruas talvez habitadas pela lenda (ainda) viva Sly Stone?

Fonte: Opera Mundi

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