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Eu quero o país que não tá no retrato

Escola mais tradicional do Carnaval carioca celebra fatos e personagens omitidos na narrativa oficial e bate doído em figuras celebradas na história

Por Aydano André Motta, Do Projeto Colabora 

Imagem da Sapucaí durante o desfile da Mangueira, varias bandeiras com o rosto de ícones da resistência popular brasileira estampados
Mangueira levou para a Marquês de Sapucaí enredo que reverenciou ícones da resistência popular no Brasil (Foto: Marcos Serra/G1)

O Brasil excluído dos livros vai passar em verde e rosa no maior show da Terra. Com seu enredo “Histórias para ninar gente grande”, a Mangueira reunirá passagens e personagens omitidos ao longo da narrativa eurocêntrica imposta ao país. O carnavalesco Leandro Vieira, artista mais importante do Carnaval carioca na atualidade, construiu um desfile contundente, que ainda vai bater doído em figuras cristalizadas nos livros escolares.

A proposta mangueirense deu num dos sambas mais celebrados do ano – com direito a justa homenagem a Marielle Franco, a vereadora e líder comunitária brutalmente assassinada há quase um ano, num crime constrangedoramente impune. A partir da letra, o #Colabora procurou professores para explicar os fatos históricos citados.

“Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento”

Releitura histórica, a partir da constatação que, como havia indígenas quando as caravelas de Cabral aportaram no litoral da futura Bahia, os portugueses não descobriram nada – na verdade, invadiram um território habitado.

Tamoios (“Mulheres, tamoios, mulatos”)

Palavra que, em tupi, define avós (“ta’mõi), denominação dos índios tupinambás, depois ressignificada na Confederação dos Tamoios, revolta dos povos indígenas (tupinambás, tupiniquins, guaianazes, goitacás e aimorés) contra os colonizadores portugueses entre 1554 e 1567.

Evelyn Bastos, mulher negra,  rainha de bateria da Mangueira, de Escrava Anastácia
Evelyn Bastos, rainha de bateria da Mangueira, de Escrava Anastácia no ensaio técnico: engajamento. Foto de Fernando Tribino (Foto: Divulgação)

Dandara (“Brasil, o teu nome é Dandara”)

Mulher de Zumbi dos Palmares, ícone das mulheres negras brasileiras. Não há muitas informações sobre ela, lamenta Giovana Xavier, do Instituto de Educação da UFRJ. “Ela se insere na luta pela liberdade da população negra a partir do ponto de vista das mulheres. O samba da Mangueira é muito importante porque põe as mulheres em primeiro plano. O mais interessante é a provocação para o grande público de imaginar a liderança política feminina dentro do quilombo, o espaço político negro. Como isso reposiciona mulheres na história como protagonistas, sujeitas políticas e não como objetos, pedaços de carne sem projetos, nem sentimento ou desejos. É a história do Brasil silenciada descaradamente, o protagonismo de mulheres negras silenciado por razões de gênero, classe etc. Todo o protagonismo incômodo que mulheres como Marielle geraram. Pensar que tudo isso começou lá atrás em Palmares é uma forma também de reparação, de restituição do direito de se ver como importante na história do Brasil. Pode não haver registro na lógica da escrita, mas nossos corpos e projetos são posturas que carregamos na gente.”

Cariri (“E a tua cara é de cariri”)

Conjunto de etnias indígenas do sertão nordestino que enfrentou, nos atuais Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, de uma guerra de extermínio logo após a expulsão dos holandeses da região. O episódio, pouco conhecido, ganhou o nome de Confederação dos Cariris (ou Guerra dos Bárbaros).

Dragão do Mar (“A liberdade é um dragão no mar de Aracati)

Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde ou  Dragão do Mar, foi um líder jangadeiro, que comandou greve no transporte de mercadorias e escravizados para os navios no litoral de Fortaleza, explica o professor Amilcar Araújo Pereira, do ensino de História da Faculdade de Educação da UFRJ. O movimento ganhou força a ponto de provocar a abolição da escravidão no Ceará em 1884 – quatro anos antes da data oficial do Brasil.

Caboclos de julho (“Salve os caboclos de julho”)

Grupos populares que participaram do processo de consolidação da independência em 1823, decisivos na expulsão das tropas portuguesas de Salvador, primeira capital do novo país. “São muito celebrados no 2 de julho, e, como caboclos, enfatizam a importância das populações mestiças e negras”, sublinha o professor Amilcar.

“Quem foi de aço nos anos de chumbo”

Toda resistência à ditadura militar – “inclusive dos negros, invisibilizados porque a Lei Segurança Nacional proibia referências ao racismo”, lembra Amilcar.

Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado

Trecho do samba-enredo de 2019 da Mangueira.

Mahins (“De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”)

Citação a Luiza Mahin, mãe de Luiz Gama, o maior abolicionista negro, rábula (advogado não formado) que conseguiu libertar mais de 500 pessoas na Justiça – isso na época da escravidão. “Ela é uma das protagonistas da Revolta dos Malês em 1835, em Salvador e era chamada de mahin pela língua que falava”, ensina o professor Amilcar. “A única referência a ela está na autobiografia de Luiz Gama”.

Malês (“De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”)

A revolta em Salvador de muçulmanos negros escravizados, em 1835. (Imalê é a palavra em iorubá, a língua mais falada pelos africanos na diáspora, para muçulmano. No Brasil, virou malê.) Eles dominavam a escrita em árabe e organizaram o levante com bilhetes, numa organização que não foi descoberta porque senhores e feitores não sabiam ler. A sublevação pedia liberdade e melhores condições de vida. “Os malês fogem completamente do estereótipo do escravo. Conheciam matemática e tecnologia e buscaram na Revolução Haitiana seu ideal de revolta”, narra Amilcar, citando a sublevação do país da América Central inspirada na Revolução Francesa.

Lecis, Jamelões (“dos Brasis que se faz um país de Lecis, Jamelões”)

Leci Brandão, cantora, compositora e atriz, primeira mulher a participar da ala de compositores da Mangueira.

Jamelão, José Bispo Clementino dos Santos, o maior e mais longevo intérprete de sambas-enredo da história do Carnaval. Cantou os hinos da Mangueira de 1949 a 2006.

 

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