Fazenda é proibida por MPF de fazer encenação sobre escravidão

O Ministério Público Federal (MPF) em Volta Redonda (RJ) celebrará, no próximo sábado (6), o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para pôr fim a encenação sobre a escravidão para turistas que acontecia na Fazenda Santa Eufrásia, localizada em Vassouras (RJ), bem como propor medidas reparatórias que serão adotadas para que o estabelecimento receba o selo “Fazenda sem Racismo”.

Imagem: Igor Alecsander/Divulgação

Do Uol

Vendido como “turístico”, o passeio viralizou nas redes sociais no final de 2016, quando uma reportagem do The Intercept Brasil falou sobre as simulações do período da escravidão realizadas nas instalações, que datam do início do século 19. Nelas, a proprietária, Elizabeth Dolson, se trajava como “sinhá” e comandava os empregados, que ficavam vestidos como escravos.

A situação foi objeto de investigação no MPF (Inquérito Civil Público nº 1.30.010.000001/2017-05) após a reportagem original. Na época, em entrevista ao UOL, Elizabeth negou que as encenações no passeio eram racistas e disse que os visitantes nunca reclamaram.

“É como um teatro. Não tem nada a ver com realidade. Ninguém é sinhá, ninguém é mucama aqui. A gente faz uma peça. Não tem nada de racismo. Tem mucamo branco, preto, gente de tudo quanto é cor. As pessoas veem as minhas mucamas e tem uns que dizem ‘olha, gostei tanto que dei um trocadinho para elas’. Tem gente que antes de sair tira foto”, afirmou.

O inquérito apurou a violação de direitos fundamentais na programação turística da Fazenda Santa Eufrásia, bem como a possível violação ao patrimônio histórico, tendo em vista a sua finalidade de educação e reparação simbólica de violações de direitos perpetradas no local em tempos passados. No curso da investigação, foi confirmada a veracidade dos fatos relatados na reportagem.

Fim da encenação.

Fazenda Santa Eufrásia, em Vassouras, interior do Rio de Janeiro.(Imagem: Reprodução/Site oficial da Fazenda Santa Eufrásia)

O local é a única fazenda particular tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Rio de Janeiro (Iphan-RJ), por conta de sua importância histórica, cultural e paisagística. No acordo que será celebrado, estão proibidas de ocorrer encenações ou a utilização de vestimentas por pessoas negras ou brancas que as caracterizem como “mucamas”, ordem que também se estende aos visitantes. As proibições valem tanto para o conteúdo divulgado no local quanto na internet (site e redes sociais da fazenda).

“Com isso, vamos contribuir para a superação da associação da imagem do negro ao ‘escravo’ em nossa sociedade e ainda esclarecer que africanos e seus descendentes foram escravizados e não ‘nasceram escravos’ e que ninguém ‘descende de escravos’, tratando-se de pessoas, de homens e mulheres, de seres humanos que foram criminosa e injustamente escravizados”, explica o procurador da República Julio José Araújo, em nota oficial.

Placas com nomes.

Dentre outras obrigações, os responsáveis pela fazenda se comprometeram a custear e instalar na área externa à casa, no prazo máximo de 60 dias, em local de fácil acesso e de visitação, duas placas: uma explicando a história do local e a outra com o nome dos 162 pessoas escravizadas no ano de 1880 na fazenda, como dever de memória e homenagem.

Outra medida será a confecção de 500 folhetos educativos sobre a história da comunidade cativa da Fazenda Santa Eufrásia, com divulgação do conteúdo também no site. Para assegurar que não haverá reincidência do episódio, a gestora e todas as pessoas responsáveis por receber visitantes deverão, no prazo de 60 dias, passar por processo de capacitação, com carga horária de 12 horas. Em caso de descumprimento do acordo, a multa diária prevista é de R$ 5 mil.

+ sobre o tema

Fim da saída temporária apenas favorece facções

Relatado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o Senado Federal aprovou projeto de lei que põe...

Por que ser antirracista é tão importante na luta contra a opressão racial?

O Laboratório de Estudos de Gênero e História, da...

Caixa lança edital de concurso com 3,2 mil vagas para técnicos

A Caixa Econômica Federal publicou nesta quinta-feira (22), no...

Depois de um carnaval quente, é hora de pensar em adaptação climática

Escrevo esta coluna, atrasada, em uma terça-feira de carnaval. A...

para lembrar

MP assina Pacto pelo Fim do Racismo Institucional

  Foi assinado por autoridades do Estado, nesta...

Racismo em prova da Seduc vai parar no Ministério Público

Duas tirinhas. Uma criança é informada que durante o...

Rolezinhos migram do shopping para as praças em SP

  Longe dos shoppings, as reuniões perderam o...

Estudante grávida é vítima de enxurrada de ofensas racistas em grupo de universitários

Uma mulher negra, grávida de três meses, foi vítima...
spot_imgspot_img

Trabalho escravizado no Brasil mostra a cara de um país sombrio e violento

"Achei que tinha que viver isso por ser pobre". A frase é de um homem de 51 anos, Marinaldo Soares Santos, natural do estado...

Número de resgatados da escravidão dispara em 2023 e é o maior em 14 anos

O Brasil encontrou 3.190 trabalhadores em condições análogas às de escravo em 2023. O número é o maior desde os 3.765 resgatados em 2009. Foram...

Suíça defendeu escravidão no Brasil, revela documento; tema é tabu no país

Documentos oficiais revelam que o governo da Suíça sabia da existência de cidadãos do país que eram donos de escravos no Brasil e que...
-+=