sexta-feira, novembro 26, 2021
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Homem negro avisou esposa antes de ser morto pela PM: ‘Vão matar a gente’

Familiares de dois jovens negros assassinados com dezenas de tiros por policiais militares de São Paulo prestaram depoimento nesta semana à Ouvidoria das Polícias. As mortes aconteceram no último dia 9, em Santo Amaro, na zona sul da capital.

Segundo relatado à Ouvidoria pela esposa de Felipe Barbosa da Silva, 23, uma das vítimas dos policiais, o rapaz ligou para ela dando sua localização e afirmando que seria morto pelos PMs. Finalizou dizendo que amava sua filha, de apenas um ano de idade.

Eram 19h20 do dia 9. Em 50 segundos de ligação, ele informou sua localização e disse:

Moiô, moiô, eles vão matar a gente.

Antes de desligar, ainda pediu que ela avisasse a família de Vinícius Alves Procópio, 19, jovem que estava com ele no carro. Os policiais dizem que perseguiram o veículo pelas ruas do bairro após eles terem cometido um roubo e fugido. Foi dentro do carro que as mortes aconteceram.

As imagens do momento do assassinato viralizaram nas redes sociais no último domingo (13). Elas mostram os dois policiais atirando ininterruptamente contra Felipe e Vinícius.

A perícia apontou que ambos os corpos tinham mais de 20 perfurações por tiros. Eles não tinham antecedentes criminais.

Segundo a esposa, Felipe trabalhava como entregador de aplicativos e não possuía arma de fogo. Ela disse ainda ter sido ameaçada pelos PMs presentes para deixar o local dos tiros.

Familiares de Vinícius, que era monitor de perua escolar, falaram à Ouvidoria que, ao chegarem ao local das mortes, não viram nenhuma ambulância para socorrer os dois jovens. Havia apenas um veículo do Corpo de Bombeiros que prestava socorro a uma pessoa que estava em um carro com o qual o veículo dos dois jovens colidiu, segundo a família.

Eles disseram que os corpos foram retirados dos veículos “como se nada fossem e atirados no meio-fio da via”.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020, mais recente levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com dados do ano de 2019, 74,4% das vítimas de homicídio no Brasil eram pessoas negras. Entre as pessoas mortas por policiais, o índice de negros é ainda maior: 79,1%. Não há dados oficiais nacionais sobre homicídios ou sobre mortes provocadas por policiais.

Como foi o caso

Os policiais acusaram os jovens de terem participado de um assalto e tentado fugir pelas ruas do bairro, quando bateram em um carro e, em seguida, em um poste.

Segundo relato dos PMs, ao serem abordados, um dos jovens teria tentado disparar uma arma de fogo contra os policiais, que afirmam ter revidado com dezenas de tiros.

Os três PMs que participaram da ação —os dois que dispararam e um terceiro que dirigia o veículo policial— foram presos preventivamente pela Justiça Militar.

No boletim de ocorrência, consta que foi encontrado um cartucho da munição 380 milímetros na roupa de Felipe. O registro também afirma que a perícia encontrou, no porta-luvas do carro, um título de eleitor e um cartão bancário no nome de uma mulher.

Sem conclusão da investigação, a delegada responsável pelo caso afirmou no boletim de ocorrência que “não se verifica aparente ilegalidade na conduta dos PMs”. Ela também cita, em defesa aos agentes, o “excludente de ilicitude”, dizendo que os PMs reagiram para “para salvar suas próprias vidas” e “usaram moderadamente dos meios necessários”.

Investigações em curso

O advogado que acompanha a família dos jovens, Ariel de Castro Alves, critica a ação dos PMs. “Jovens foram fuzilados. O papel dos PMs nesse caso deveria ser de abordá-los e prendê-los, e não executá-los sumariamente e à queima-roupa. Não existe pena de morte na legislação brasileira”, disse.

O Ministério Público de São Paulo designou o promotor Thomas Mohyico Yabiki para acompanhar as investigações do caso. Em nota, o MP diz que os jovens “eram suspeitos de assalto e não dispararam, mas foram encontrados mortos com mais de 50 perfurações de projéteis”.

O órgão também afirma que “o veículo [dos jovens] havia sido roubado juntamente com os pertences dos proprietários”.

O caso é investigado pelo Departamento de Homicídios da Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar.

Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) disse que os três agentes foram encaminhados ao Presídio Militar Romão Gomes, onde estão presos preventivamente. “A Polícia Militar não compactua com desvios de comportamento e se mantém diligente em relação às denúncias ou indícios de transgressões ou crimes cometidos por seus agentes”, afirmou.

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