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“Isto aqui”, o Brasil, é uma República democrática e laica!

Sou apaixonada pelos ideais republicanos. Sei quase de cor o “Manifesto Republicano” – publicado em 1870 no jornal “A República”, cujo principal redator foi Quintino Bocaiúva (1836-1912). Escrevo com regularidade sobre a República porque tenho a opinião de que ela tem sido muito desrespeitada em nosso país.

Por Fátima Oliveira via Guest Post para o Portal Geledés

Em “Perdi a paciência: quero a República terrena de volta!”, comecei assim: “Afinal, o que é República (do latim, ‘res publica’: ‘coisa pública’)? E a pauta de quem aspira governá-la? Parece óbvio que o debate eleitoral numa República (regime de governo) tem como eixo a defesa dos valores e dos princípios republicanos” (O TEMPO, 12.10.2010).

Sob a democracia (regime político), todo o “fazer político” e a própria política deveriam se pautar pelo espírito republicano. Não podemos esquecer que “isto aqui”, o Brasil, é uma República democrática e laica!

A República aqui ainda está em construção desde que foi proclamada (15.11.1889) e tem sido, com frequência, solenemente esquecida e subtraída, seja por gregos, seja por troianos, como já demonstrei em “Quero o aconchego de uma República laica e nada mais” (31.5.2011) e em “Uma República democrática e laica sob o sistema ‘jagunço’” (17.2.2015).

Tendo os ideais republicanos em mente, quem é republicano sabe que só é republicano quem defende a República! Não defende a República quem está estribado no fundamentalismo neopentecostal ou de outras vertentes, no fascismo e nos corpos das mulheres, como disse em “Sobreviver ao jaguncismo exige arte e muita manha” (O TEMPO, 21.7.2015).

Cabe breve explicitação do que é “Ser republicano”, do historiador José Murilo de Carvalho, tão especial que tem ar de licença poética: “Nenhum homem nesta terra é repúblico, nem vela ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular (Simão de Vasconcelos, 1663).

“Ser republicano é crer na igualdade civil de todos, sem distinção de qualquer natureza.

“É rejeitar hierarquias e privilégios.

“É não perguntar: ‘Você sabe com quem está falando?’ É responder: ‘Quem você pensa que é?’ É crer na lei como garantia da liberdade.

“É saber que o Estado não é uma extensão da família, um clube de amigos, um grupo de companheiros.

“É repudiar práticas patrimonialistas, clientelistas, familistas, paternalistas, nepotistas, corporativistas.

“É acreditar que o Estado não tem dinheiro, que ele apenas administra o dinheiro pago pelo contribuinte.

“É saber que quem rouba dinheiro público é ladrão do dinheiro de todos.

“É considerar que a administração eficiente e transparente do dinheiro público é dever do Estado e direito seu.

“É não praticar nem solicitar jeitinhos, empenhos, pistolões, favores, proteções.

“Ser republicano, já dizia, há 346 anos, o jesuíta Simão de Vasconcelos, É NÃO SER BRASILEIRO” (“O Globo”, 6.7.2009).

Discordo do jesuíta. Tanto que estou de acordo com quem acha que, se há dúvida sobre os rumos da República, que a peleja seja resolvida em plebiscito. E de plebiscito eu gosto muito, como declarei em “O mistério do plebiscito é ser uma lei romana, percebem?” (O TEMPO, 2.7.2013).

Todavia, “de plebiscito quem entende é meu conterrâneo Arthur Azevedo (1855-1908), jornalista, teatrólogo, escritor e grande figura da literatura de humor brasileira. Vide ‘Plebiscito’, em ‘Contos Fora da Moda’ (1894), um dos textos mais adoráveis de meus tempos de ginasiana…” (O TEMPO, 2.7.2013).

Hoje, quase ninguém mais lava a boca para arrotar que é republicano – vocábulo a que tentam dar um ar polissêmico, mas que tem significado único: quem defende a República. E ponto final.

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