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Joacine Katar: “A missão dessa geração é cortar o cordão umbilical com o colonialismo”

Filha de migrantes africanos, a deputada de Portugal constrói laços com o movimento de mulheres negras na Bahia

Por Mariana Gomes, do Agenda Arte e Cultura

© GlobalImagens

Estar em roda é um dos princípios de transmissão de saber nas culturas de matrizes africanas. “A oralidade é importante para nós, mas a escrita é o que mais assusta o sistema colonial”, assim falou Joacine Katar Moreira, mulher negra eleita no início deste mês para o parlamento português, durante a roda de conversas no Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido como Casa Branca.

Baseada no respeito, bons ouvidos e olhos atentos, em roda a palavra de transformação contra o colonialismo circulou nesta terça-feira (15) em terreno sagrado, através da atividade do Fórum Marielles. “Não era pra eu estar aqui”, afirmou a política portuguesa. Nascida em Guiné Bissau, Joacine é a filha mais velha de onze. Seus pais trabalham como empregada doméstica e varredor em Lisboa. Katar é historiadora e vem estabelecendo laços com o Brasil, a partir do movimento de mulheres negras na Bahia.

Eleita deputada na semana passada, com mais de 50 mil votos em Portugal, Joacine esteve ao lado das lideranças religiosas do terreiro de candomblé, professores, estudantes e pré-candidatos às próximas eleições na capital baiana. Antes das eleições, Katar esteve no III Ciclo Internacional Candaces, na UNEB.

A ativista anti racista que, na infância estudou no colégio interno das Irmãs Dominicanas da Anunciata, na cidade de Mafra, está em casa na capital baiana. “Antes do processo eleitoral, os pais dela lhe pediram que fosse a África, mas você acabou aqui em Salvador e está sob a coroa do homem da justiça, Xangô”, declarou mãe Neusa, autoridade religiosa da Casa Branca.

Descolonizar
Na conferência, Moreira compartilhou o que para ela é o desafio das mulheres negras desta geração: cortar o cordão umbilical com o colonialismo. “Nós sempre estamos carregando muitas sacolas no dia a dia. E não temos para quem entregar esses sacos do colonialismo. Ajudemos umas as outras para que possamos experimentar a sensação de caminhar livremente por aí”, argumentou Moreira. Ao fim da conversa, a certeza é de que este corte é tarefa para toda pessoa que não concorda com as desigualdades, seja na Europa ou nas Américas.

A deputada defendeu a ideia de que as mulheres negras devem e precisam estar como são nos lugares que almejam, sem procurar ser ideais, já que eles estão sobre pilares que violentos da discriminação. “Essas mulheres são muito generosas. Trabalham para sustentar seus filhos e vê-los continuando os estudos.”

Arte contra desinformação
Palavras de pé no chão, Joacine se apresenta como uma figura acolhedora e segura de si. “Ela parece carregar mil ancestrais ao seu lado”, comenta a estudante de Comunicação Social na UFBA Yasmin Morais. E de fato. “Eu carrego a resistência em mim.”, comentou quando lembrou dos seus familiares perguntando “você vai aguentar?”. A mesma mulher, criadora do Instituto da Mulher Negra, afirma “quero viver de amor”.

Joacine é alvo de discursos de ódio e fake news em um fenômeno de desinformação pelas redes sociais. Contra o ódio e a desinformação seu antídoto foi a arte. A campanha de Katar foi realizada por 18 amigos, a maioria artistas. Com apenas 8 mil euros de recurso, cerca de 38 mil reais, proveniente do partido que participa, o Livre, Joacine enfrentou candidatos mais conhecidos e de financiamentos perto dos 500 mil euros, assim como batalhas internas no partido pela falta de apoio na produção da campanha.

Seu jingle, um fado, ritmo tradicional português, produzido por pessoas LGBT’s e um clipe que clama “eu quero o sem precedente”. Sua foto de campanha, a sobreposição de sua pele, com um vestido e um plano de fundo também pretos exibida num único outdoor em todo país, no monumento Marquês de Pombal.

Nas camisas da campanha, uma ilustração em tons quentes que demonstra que Joacine é também a cara de muitos portugueses, mas nem seu eleitorado nem sua agenda estão restritos a questões identitárias. Seus eleitores foram majoritariamente jovens, de classe média alta, até 25 anos. Já o de partidos de direita e com agendas que não dialogam com imigrantes, defesa ambiental e justiça social, os eleitores têm acima dos 50 anos.

Assim como em Portugal, aqui no Brasil, candidatos negros dentro dos partidos tendem a ser menos financiados que seus aliados brancos. “Estamos vivendo um momento histórico”, afirmou a socióloga Vilma Reis, pré-candidata à prefeitura de Salvador, na roda de conversa. Além dela, estiveram presentes Sílvio Humberto, economista, vereador e também pré-candidato à prefeitura de Salvador, a publicitária Ludimilla Teixeira e a professora Márcia Nascimento, pré-candidatas à Câmara Municipal de Salvador.

“Nós não temos que ser as pessoas ideais. Nós tão temos que andar com o cabelo ideal, a cor da pele ideal, somos ideais, cada uma de nós, da maneira que a gente é”, afirma Joacine Katar Moreira. Uma das três mulheres negras que participam do parlamento português a partir dessas eleições, Katar toma posse na próxima segunda-feira (21) num turbilhão de críticas sobre sua existência, mas representa mudanças para além das fronteiras de Portugal.

 

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