Jovens, envelheçam por Flávia Oliveira

Movida pelo ódio, a corrida eleitoral de 2018 golpeou a convivência democrática, nocauteou a política, sepultou a construção de consenso

por Flávia Oliveira no O Globo

Foto Marta Azevedo

Agora, rompido o dique da intolerância que inundou as ruas, Brasil afora, de ofensas verbais, agressões físicas e até violência homicida por quem despreza democracia e direitos humanos, resta sobretudo aos jovens o autocuidado com o corpo e a saúde mental. Sou mãe de uma filha biológica e de numerosa prole que, pelo afeto, pari ao longo dos anos. Vejo meninos e meninas perplexos e amedrontados e adoecidos pela brutalidade sem freio que tomou o espaço público. Por eles, tomo emprestada e ouso mudar o sentido da frase célebre de Nelson Rodrigues: “Jovens, envelheçam depressa”. Como o cronista, peço a eles que envelheçam, sim. Literalmente. E com calma. Permitam-se a velhice. Nos dias de hoje, ficar vivo é ato de resistência.

Quatorze anos atrás, quando o mais bem-sucedido plano econômico do país completou uma década, entrevistei estudantes que, nascidos no pós-Real, nunca experimentaram a troca insana de moedas. De 1986 a 1994, foram cinco: cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real e, finalmente, o real. Aquelas crianças não sabiam que, antes deles, mercadorias mudavam de preço diariamente e várias vezes nos supermercados. Tampouco que limavam zeros das notas para as operações caberem nas calculadoras, mais ou menos como fez recentemente a Venezuela.

Há uma geração de jovens, perto de um quinto da população brasileira, que cresceu num ambiente de estabilidade econômica, relativa melhora do bem-estar social, liberdade de expressão e de costumes. É uma faixa etária acostumada a explicitar pensamentos e crenças não apenas no discurso, mas também nas roupas, nos gestos, na atitude. Da juventude de agora sempre admirei o destemor, a capacidade de viver em rede, de se mostrar.

Essa marca geracional está em xeque neste momento em que o Brasil está substituindo o cinismo pela barbárie, a discriminação velada pela violência explícita dos extremistas. Não que a harmonia fosse regra. Forjada na escravidão, no patriarcado e na desigualdade, a sociedade brasileira sempre foi violenta. Se cordial fosse, o país não ocuparia o topo da lista global de concentração de renda, mortes causadas por armas de fogo, assassinato de jovens negros, vítimas de acidentes de trânsito, óbitos decorrentes de ações policiais, homicídios de agentes de segurança, estupros, feminicídios.

Mas trato de uma faixa etária, que não viveu os anos de chumbo da ditadura militar, e pode provar de certa civilidade no espaço urbano, sentir o aroma da liberdade. Terminado o primeiro turno, acumulam-se episódios de moças abordadas e agredidas em via pública por serem mulher ou negra, pela camiseta vermelha que vestem ou pelo adesivo político que exibem. Há casos de transexuais, lésbicas e gays humilhados, ameaçados, espancados. Moa do Katendê, mestre capoeirista de Salvador, foi morto com 12 facadas por um eleitor de Jair Bolsonaro (PSL), após declarar voto em Fernando Haddad (PT). O Mapa da Violência abriu espaço no site para relatos de agressões por motivação política e já conta com dezenas de testemunhos. Xingamentos se multiplicam, e notícias falsas tomam redes sociais e grupos de mensagens instantâneas.

Vencedor do primeiro turno, o presidenciável Bolsonaro, ele próprio vítima de atentado à faca, demorou a repudiar a violência praticada por seus simpatizantes na esteira da campanha. Movida pelo ódio, a corrida eleitoral de 2018 golpeou a convivência democrática, nocauteou a política, sepultou a construção de consenso. O autoritarismo está no ar, e o território é hostil à juventude gestada na liberdade. Mães e pais, fracassamos em preservar a diversidade; legamos o medo. Daí o pedido aos mais novos: exponham-se com cuidado, protejam seus corpos, cuidem da saúde mental, não adoeçam. Fiquem vivos, tenham paciência.

Tempo é divindade; envelhecer, revolucionário.

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