domingo, setembro 19, 2021
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Médica Fátima Oliveira deixou legado de uma saúde pública antirracista

É com muito orgulho, que escrevo sobre Dra. Fátima Oliveira, mulher negra, feminista, médica, defensora incansável dos direitos sexuais e reprodutivos, onde deixou grande legado nas suas pesquisas, articulando as questões de gênero raça e classe social. Fátima Oliveira, 63 anos, médica, feminista emancipacionista, escritora, avó de Maria Clara, Luana e Lucas e mãe de Maria, Débora, Lívia, Gabriel e Arthur, faleceu no dia 05 de novembro de 2017.

Dra. Fátima Oliveira veio de uma família de origem pobre mas sempre teve o sonho de ser médica e lutar pelo seu povo. Foi autora de vários livros e pesquisas publicadas pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), onde contribuiu com textos sobre as doenças prevalentes na população negra. Sempre preocupada com as mulheres negras brasileiras quando foi uma grande ativista na questão da legalização do aborto enaltecendo a linha de uma sociedade igualitária, sem machismo e sem homofobia ou ódio religioso. Fátima nos ajudou a dar visibilidade às questões das mulheres negras na fase preparatória da Conferencia de Beijing(China), colocando a saúde das mulheres negras periféricas propondo a melhoria do acesso dessas mulheres nas unidades de saúde, sempre preocupada com a violência obstetrícia.

Membro fundadora da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Sexuais Reprodutivos, Fátima deixa um legado indescritível, entre eles a atuação na luta dos direitos reprodutivos e saúde da Mulher Negra.

Atuava no Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte como médica, contribuiu com o estudo da Saúde da População Negra, Bioética, Programa Nacional de Anemia Falciforme, escrevendo vários artigos de relevância.

Foi membro do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR) e do Conselho Consultivo da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe (RSMLAC). Foi uma grande ativista das questões étnico-raciais e feministas, além ter sido uma árdua defensora do Sistema Único de Saúde e da Democracia. Militou na UNEGRO e no Partido Comunista do Brasil.

Começou a participar da luta feminista pela saúde da mulher em âmbito de organização coletiva nas preparatórias da 1ª Conferência Nacional de Saúde e Direitos da Mulher, que aconteceu entre os dias 10 a 16 de outubro de 1986. Passou no vestibular de Medicina (1973), no bairro de Fátima, em São Luís, integrou um trabalho denominado Ninho (atual Pastoral da Mulher Marginalizada, da Igreja Católica), onde objetivo era aproximação com prostitutas para conversar sobre cuidados com a saúde delas e dos filhos, com encaminhamentos de consultas, remédios, alimentação, roupas, etc.

Credenciada pelo INAMPS e FUNAI, participando da ação política chamada Barco da Saúde, percorreu as regiões ribeirinhas do Tocantins, para atendimento médico, odontológico, exames laboratoriais totalmente gratuitos.

Grande defensora do SUS, reivindicava o conceito de integralidade do atendimento da saúde da Mulher, estando no front das defesas da materialidade da criação do SUS Lei. 8080/88 e posteriores até os dias de hoje. Continuou agregando energia, artigos, participações e protagonismo, para a sua manutenção e aplicação integral.

Mulher Negra de energia, reconhecia os aspectos sistemáticos que pressionavam e tentavam golpear a Democracia, mas sempre se manteve incansável na defesa da cidadania plena e do direito a igualdade de oportunidades para todos e todas, em particular a defesa das mulheres negras.

Doutora Fátima de Oliveira, esteve presente na luta de combate ao racismo e na defesa de mulheres brasileiras.

 

Ubiraci Matildes é administradora, gestora Pública na Secretaria Estadual de Saúde da Bahia, coordenadora Executiva do Fórum Nacional de Mulheres Negras e membro da direção nacional da Unegro.

 

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