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Negras podem falar de outras coisas além de racismo e feminismo, diz Karol Conka

Cantora paranaense abarca múltiplos temas em novo disco, ‘Ambulante’, lançado em show em SP

Sábado (1º/12), às 21h, na Arca (av. Manuel Bandeira, 360, Vila Leopoldina, São Paulo). Grátis

por Thiago Ney no Folha de São Paulo

Foto: Bruno Santos

“Nunca tinha feito uma música como ‘Saudade’. Uma música tão carinhosa, que fala de amor. Eu estava com saudade do amor”
diz Karol Conka.

A cantora curitibana de 32 anos se refere à faixa que tem versos como “Vi você passar/ Seu jeito de andar/ Você nem me olhou e eu a esperar/ Você passou, sumiu num calor/ Confesso que dentro do peito apertou/ […] Saudade de nós embaixo dos lençóis/ Que delícia nós/ Vejo que não tem nós/ Só queria mais”.

A letra, na linha sofrência (tipo Marília Mendonça), é cantada por cima de uma base que lembra o brega paraense e o arrocha baiano.

O curioso é que “Saudade” é um ponto fora da curva que contorna “Ambulante”, o segundo álbum de Conka, que acaba de ser lançado. As outras nove faixas abraçam os assuntos prediletos da cantora, como farra, feminismo, sexo, desigualdade e racismo.

Mas, apesar de tratar de temas semelhantes aos encontrados em “Batuk Freak”, o primeiro disco dela, de 2013, “Ambulante” marca uma mudança na imagem da artista.

“Antes eu era conhecida como uma cantora ‘cute- comic’ (fofa-engraçada). Agora eu quero ser vista como sexy e poderosa.”

Sexy, poderosa, rebelde, ácida (nas palavras dela mesma). Essas características são reforçadas no novo visual da artista (afro-futurista, com temperatura tropical), que recebeu a ajuda da drag queen, performer e stylist Alma Negrot.

“É a minha personalidade, quem eu realmente sou. Pensei muito em cores para me ajudar a sair daquela imagem ‘cute-comic'”, conta. “A Alma Negrot foi me montando como se eu fosse uma tela. Na hora de fotografar para a imagem de capa, ela colou argolas de ouro nas laterais da cabeça, que estão raspadas. Parecem piercings de cabelo.”

A aparência lembra bastante a jamaicana radicada nos Estados Unidos Grace Jones (referência do visual afrofuturista na música pop). “Acho ótimo quando fazem essa comparação. O Mano Brown disse a mesma coisa.”

A Karol Conka montada fará o lançamento do disco no sábado (1º), em show gratuito em São Paulo, com participação de Emicida.

A cantora costuma se definir como poderosa porque não gosta muito do termo empoderamento, tão usado hoje em dia. Diz isso claramente na faixa “Kaça”: “Me cansei de quem fala de empoderar/ Pra se aproximar, pra se apropriar/ Quer falar de superação?/ Muito prazer, sou a própria/ Uma em um milhão/ Original sem cópia”.

“Muita gente fica falando em empoderamento, acho que essa palavra ficou gasta, usam de uma maneira que para pessoas ignorantes até virou piada”, afirma.

E continua. “Eu nunca tinha dito essa palavra e, quando ouvi pela primeira vez, perguntei o que significava. E significava tudo o que eu já era. Porque eu sempre falei em mulher poderosa. Hoje vejo gente que usa esse conceito em situações que não são reais. Vejo pessoas que não entendem o significado da palavra e expõe situações que não são verdadeiras.”

“Vejo artistas novas, lindas e maravilhosas que ficam usando termos como representatividade, empoderamento. Fica um blá-blá-blá sem significado. Eu tenho um pouco de preguiça”, afirma.

A artista paranaense diz também que “artistas negras sempre têm de falar sobre feminismo e racismo”. “Acham que elas não conseguem falar de outras coisas? A mulher negra sempre sofre racismo. Nem precisa perguntar. Não me faça essa pergunta.”

“Original sem cópia”, diz um trecho de “Kaça”, que é uma espécie de minimanifesto de Karol Conka.

“É como um despertar, um cutucão em algumas pessoas para que busquem autenticidade. Para se arriscarem mais em fazer algo novo. Eu tô cansada de ver a reciclagem do clichê.”

O disco se chama “Ambulante”, segundo ela, porque não gosta de ficar parada. “Não me encaixo nas coisas que já estão aí, então faço do meu jeito, sem seguir a moda. Gosto de renovar as energias, sempre”.

O produtor Boss in Drama (Péricles Martins) foi o responsável por colocar em música as ideias que Conka tinha na cabeça. O álbum foi feito durante quatro meses em São Paulo, cidade em que a cantora vive com o filho, de 12 anos. As gravações sucederam um período não muito saudável.

“Eu curti bastante a fama depois do primeiro disco, mas foi um problema a perda de privacidade, a falta de tempo para ficar em casa. Fiz algumas escolhas precipitadas, me saturei de trabalho, tive fadiga. Me desconectei do que gostava mesmo de fazer. Mas a minha agenda estava enorme.”

Além de promover o disco, Conka participou de filmes (“Jonas”) e virou apresentadora de TV (“Superbonita”, do GNT). Lançou singles como “Lalá”, em que celebra o sexo oral. “Mas é uma música didática, poética. É picante, provocativa. Os homens deveriam ouvir mais as mulheres. A intenção foi boa”, ri.

Outra faixa feita com boa intenção é “Dominatrix”, a quinta de “Ambulante” (“Eu sei que você gosta,/ me deixa te maltratar/ Eu posso ver o prazer na sua cara/ Te submeto, piso devagar/ Te dominei, te dominei/ De joelhos, bem quietinho/ Como eu te ensinei”).

“É apenas um fetiche sexual. Ninguém está agredindo ninguém. Mas é um tabu, ninguém quer falar sobre essas coisas. E nem fazer sexo.”

“Ambulante” tem sexo, autoafirmação, feminismo e racismo, porém é um disco para cima, feito para divertir, como se divertia Karoline dos Santos Oliveira, aos 12 anos, quando imitava Beth Carvalho, Djavan, Elis Regina, Zeca Pagodinho e Milton Nascimento.

“Eu gostava das Spice Girls, me identificava com a Mel B [a negra do grupo de garotas inglesas]. Mas ainda não era eu. Quando tinha 16 anos, com o meu primeiro salário de estagiária (na prefeitura de Curitiba), comprei o disco do Fugees [“The Score”]. O que me chamou a atenção foi o rosto da [vocalista] Lauryn Hill. Virou a minha bíblia. Eu queria ser ela. Então decidi fazer rap, porque até então estava no universo Milton, Elis. No rap eu me achei. E fui que fui.”

Como rapper, Conka parece atenta ao que acontece no mundo. “Quero levar solução, alívio, conforto.”

“Fãs me escrevem dizendo que minhas músicas as ajudam a encarar situações ruins. É aquele negócio: se te atacarem uma pedra, pegue a pedra e jogue de volta. Não, melhor: pegue a pedra e faça um muro.”

Karol Conka
Sábado (1º/12), às 21h, na Arca (av. Manuel Bandeira, 360, Vila Leopoldina, São Paulo). Grátis

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