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‘O Caso do Homem Errado’: Demorou 34 anos para mulheres negras voltarem aos cinemas no Brasil

Um homem negro confundido com bandido e morto pela Polícia Militar do Rio Grande do Sul. Júlio César Melo Pinto foi assassinado a tiros por policiais entre os bairros Partenon e Jardim do Salso, em Porto Alegre, em 14 de maio de 1987. Um dia após a data da abolição da escravidão, o rapaz morreu por ser parecer com assaltantes de um supermercado.

Por Kauê Vieira, do  Hypeness 

Cena do documentário ‘O Caso do Homem Errado’ – Divulgação

31 anos depois, o Caso do Homem Errado virou documentário e marcou o retorno de uma mulher negra ao cinema comercial após 34 anos. A jornalista gaúcha Camila de Moraes foi a responsável por contar esta história e também por revelar uma faceta nada agradável do Brasil. Afinal, porque filmes dirigidos por mulheres negras foram ignorados nas últimas três décadas?

“A gente não comemora este dado que nos colocou na história do cinema brasileiro, pois esse dado nos revela o quão racista é o país no qual vivemos, que leva mais de três décadas para que outra mulher negra consiga colocar um longa-metragem em circuito comercial”, explica Camila de Moraes ao Hypeness.

Assim como a produção cinematográfica de mulheres negras, Júlio César Melo – possivelmente assassinado enquanto era encaminhado para um hospital próximo, esteve invisível aos olhos do grande público todo esse tempo. Em O Caso do Homem ErradoCamila de Moraes, Mariani Ferreira e Maurício Borges de Medeiros, precisaram lutar contra o mesmo sistema que tirou a vida de um homem inocente.

“São muitas etapas que precisam ser feitas para poder chegar neste patamar, etapas desgastantes e etapas financeiras, que para nós, devido a nossa realidade são caras demais. São taxas e custos mensais que não estavam previsto em nosso orçamento, mas como queríamos levar o debate adiante resolvemos encarar essa realidade e é por essas razão que não temos outras/outros companheiras/companheiros de cor ao nosso lado nas salas comerciais”, reflete a gaúcha radicada em Salvador.

Desde a estreia em maio de 2017, Camila e equipe receberam diversas homenagens, como a exibição do longa no Festival de Gramado e a participação no Encontro de Cinema Negro Zózimo BulbulContudo, quem assiste ao filme nem imagina os obstáculos necessários para cumprir a missão de se aventurar em um espaço reconhecidamente branco e elitista.

“A nossa ação com o filme tem sido pensada de forma estratégica. Nós chegamos no circuito comercial por uma recusa de festivais nacionais e internacionais que não selecionavam o nosso documentário. Não consideravam essa obra fílmica como uma importante ferramenta de debate sobre o racismo que nos mata diariamente”.

No Brasil, 54% da população é formada por mulheres e homens negros. O domínio não se reflete nas telas de cinema. Quer dizer, depende do ponto de vista. Entre os muitos homens brancos, responsáveis por assinar a direção de 75,4% dos longas-metragens nacionais lançados em 2016, paira uma ideia estereotipada de usar a figura do negro como símbolo de violência e pobreza. Cidade de Deus, Tropa de Elite, todos seguiram esta máxima.

“O audiovisual é uma área muito cara, com equipamentos e custos de profissionais num valor elevado. Então, a produção de um filme demora anos. Normalmente, nós realizadores negros, produzimos muitos curtas-metragens. Para realizar um longa-metragem é um passo maior e que rever um investimento alto e para chegar nas salas de cinemas precisa ser com longa-metragem. Então, para mudar essa realidade é necessário mexer lá na base. É preciso ter investimento para desenvolver os projetos, desde os laboratórios de escrita, até a finalização do filme. Esses investimentos na verdade já existem, mas infelizmente, nós negros, acessamos muito pouco.

Tenho batido na tecla que é preciso repartir esse bolo, que queremos a nossa fatia também, precisamos produzir os nossos filmes com um orçamento justo de produção de audiovisual. 

Em uma palestra que estava eu ouvi uma pessoa dizer que o seu filme tinha sido realizado com um orçamento baixo de um milhão e novecentos reais, a partir daí tenho dito que a minha próxima produção pode sim ser feita com um orçamento baixo, desde que seja de um milhão e novecentos reais”, assinala Camila.

“O filme toca de forma diferente nas pessoas, tenho percebido, após muitas exibições” (Reprodução do site Hypeness  )

O desafio é grande e os números não deixam mentir. Segundo a Agência Nacional do cinema (Ancine), apenas 2,1% dos filmes foram dirigidos por homens negros. No caso das mulheres negras, como se sabe, nenhuma entre as 142 películas analisadas. Isso não quer dizer que faltem produções escritas por mulheres pretas.

Como disse Camila, nestes quase 40 anos, as mulheres negras ficaram retidas na criação de curta-metragens e consequentemente reféns de editais e restritas aos pequenos e médios festivais. Ao passo que o circuito comercial segue dominado por homens e produções estrangeiras. Falta uma política efetiva de incentivo ao aumento de filmes brasileiros nas salas de cinema. Em um país com apenas 11% de cidades com salas de cinema e 66% do 143 filmes lançados em 2016 com apenas 10 mil pessoas, não é de se espantar o desafio enfrentado por profissionais do audiovisual.

“Esse exemplo nos mostra o quão diferente é a nossa realidade de realizadores negros, pois damos a nossa vida para produzir algo de qualidade com um orçamento muitas vezes surreal, que não chega nem a dois mil reais, e o quanto outras produções de pessoas não negras conseguem recurso justo para o paramentos do audiovisual para realizar seus trabalhos.

Por isso, digo que precisamos repartir esse bolo de forma igualitária e se tiver que ser por meio de ações afirmativas em concursos e editais, que assim seja. 

Precisamos ter qualidade técnica em nossas produções, precisamos pagar os nossos profissionais, precisamos receber pelo trabalho feito, precisamos acessar os recursos financeiros destinados para produções brasileiras, pois somos produções brasileiras”.

Agora, não dá para aceitar o argumento da falta de público, mesmo que ela seja um fato. Veja, O Caso do Homem Errado foi exibido até aqui nas principais cidades do Brasil. São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Rio Branco, enfim, todos estes centros receberam sessões lotadas de pessoas interessadas em saber sobre a história de Júlio César, mas também pelo fato de se sentirem representadas com a figura negra de Camila de Moraes. Embora seja um espaço cruel e excludente, sim, é possível.

“Começamos em Porto Alegre, onde o episódio que narramos aconteceu, depois fomos para Salvador, onde ficamos um mês em cartaz. Decidimos ir para o estado mais negro do país para debater sobre o tema. A nossa terceira escolha, por estratégia política foi chegar no Norte do Brasil, no Acre, para sair do eixo Rio – São Paulo.

Levamos muitas pessoas ao cinema, fizemos discussões potentes sobre a questão do extermínio da juventude negra e por conta dessas ações era impossível não reverberar nas redes sociais ou na mídia. E assim, quando chegamos para circuito comercial em São Paulo, em agosto de 2018, já tínhamos uma trajetória trilhada, ao mesmo tempo estávamos em cartaz em Belém do Pará e Aracajú em Sergipe. 

Era impossível não ter algum tipo de repercussão. O filme provoca as pessoas, mexe com sentimentos, causa reflexão. Trabalhamos muito para construir este caminho, produção, assessoria de imprensa, formação de plateia. Chegar nesses grandes centros, como São Paulo, com visibilidade, com uma excelente crítica de um renomado crítico de cinema do Brasil, com matérias nos grandes jornais impressos do país, num cinema de bom da cidade e bem localizado, é fruto de muito esforço, trabalho árduo, e para além disso, é saber que as pessoas estão dispostas a dialogarem sobre o racismo brasileiro”.

Ninguém consegue nada sozinho e além da equipe de produção, filmagem, fotografia e dos roteiristas, O Caso do Homem Errado contou com suporte indispensável da Associação dxs Profissionais de Audiovisual Negro. Como dava sinais ainda na década de 1970 Zózimo Bulbul – ator e cineasta negro fundamental para a história brasileira, o protagonismo negro é vítima do exercício impiedoso da branquitude.

Por isso, a APAN nasce para reforçar esta mídia como canal de comunicação com a representatividade negra e a sua contribuição para a criação da identidade brasileira. Desde o fundamento são muitas as conquistas, como o 1º Seminário do Audiovisual Negro da Cidade de São Paulo.

Para Camila de Moraes, “a APAN exerce um papel fundamental dentro da cadeia do audiovisual brasileiro. É neste ambiente seguro que os profissionais negros se encontram, se reconhecem, se qualificam e lutam por direitos para essa camada que tanto produz para essa cadeia chama cinema. É uma associação nacional, com pessoas de norte a sul, que diariamente estão trocando figurinhas, estão trabalhando para a melhoria do mercado”.

Deu certo

Diante de um desafio deste tamanho, muitas pessoas poderiam desistir no meio do caminho. O sistema é foda. Não o bastante para Camila de Moraes e outros nomes, como Renata Martins, Jeferson De e Renato Candido de Lima. Veja só como o que falta são oportunidades.

O Caso do Homem Errado disputou até o fim uma vaga no Oscar de 2019. A produção concorreu com filmes brasileiros patrocinados por gigantes como a Globo Filmes para representar o Brasil na maior festa do cinema mundial. Não deu. Quer dizer, será que não?

“Chegamos num patamar que não imaginávamos, mas queríamos muito. Trabalhamos para isto. Para ter uma ideia para fazer a nossa inscrição foi uma semana de sufoco. Precisava cadastrar o filme com qualidade numa plataforma digital. Precisava ter uma internet com velocidade boa. A primeira tentativa ele ficou mais de 24 horas carregando para no final do processo dizer que não foi possível. Estava sem telefone fixo em casa, precisei comprar um aparelho para poder conversar com o suporte técnico de Brasília. Mais duas tentativas frustradas.

Levamos uma semana para poder finalizar o processo de inscrição e quando recebemos a notícia que estávamos entre os 22 filmes possíveis para representar o Brasil na categoria de Filme Estrangeiro no Oscar de 2019, eu estava no Festival de Cinema de Gramado e foi uma emoção tão grande, eu gritei muito, chorava, fiquei por uns segundos até com falta de ar, porque aí tu olha pra trás e vê que a sua trajetória é muito diferente do povo que está ali ao lado (digo no audiovisual brasileiro dominado por pessoas brancas e elitistas), e percebe que também temos talento, que produzimos material com qualidade e com a primeira produção de um longa-metragem independente conseguimos chegar até aqui, imagina se estivéssemos no jogo jogando com as mesmas condições onde não estaríamos?! 

Se no nosso primeiro chute foi na trave, se tivermos a oportunidade de descer pro play e brincar nos mesmos brinquedos, vamos fazer o gol mais lindo, de bicicleta ainda. O tamanho deste conquista é enorme para toda a história do cinema brasileiro, pois isso diz muito de como funciona o nosso sistema.

Quantas mulheres o Brasil já indicou para representar o país nesta disputa? Quantos mulheres negras já chegaram até este patamar? Quantas mulheres negras já conseguiram chegar em circuito comercial para poder disputar essa vaga? Qual é o Brasil que queremos mostrar lá fora e aqui dentro? Para quais produções damos financiamentos? 

Precisamos repensar e reformular esse cinema brasileiro, precisamos, pessoas negras, estar incluídas dentro deste sistema”. 

Voltando ao centro da história, certamente Júlio César Melo está satisfeito em ver o racismo que tirou sua vida sendo exposto e debatido por pessoas determinadas em escrever uma nova página. O Caso do Homem Errado nos ensina os riscos de ser preto no Brasil, ao mesmo tempo que faz germinar a semente da esperança de tempos melhores dentro e fora do audiovisual. Que venham mais e mais produções encabeçadas por mulheres e homens negros no cinema comercial e independente.

“Os obstáculos do racismo e do machismo são sempre colocados em nossa frente, mas aprendemos que nossos passos vêm de longe, e que muitas pessoas já passaram por situações tão perversas para que hoje pudéssemos estar aqui, então não é justo da nossa parte parar no primeiro obstáculo racistas/machista que aparecesse. Hoje em dia somos convidadas para participar de festivais e mostras de cinema, já contamos mais de 15 no currículo.

Depois deste processo todo, três distribuidoras já fizeram contato conosco, porém resolvemos continuar fazendo de forma independente com mulheres negras assumindo essa tarefa, que é muito desgastante. Porém, informo que isto irá mudar muito em breve, pois teremos uma distribuidora comandada por mulheres negras que estão aprendendo na prática como funciona esse meio. 

O nosso diferencial é que aprendemos o caminho e ensinamos os nossos, pois aprendemos que andar acompanhada é bem melhor e mais forte e gratificante. A nossa luta sempre foi feita desta forma e seguimos os ensinamentos que nos foram passados”.

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