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Minha mãe – Uma mulher negra extremista (?)

Djamila Ribeiro em seu livro “Quem tem medo do feminismo negro?” traz um capítulo intitulado Uma mulher negra no poder incomoda muita gente e fantástico como a cada linha, todas as situações vivenciadas por nós, mulheres negras, passam a fazer sentido. Mas se faz sentido para mim, uma mulher de vinte anos, imagina para minha mãe que está prestes a completar cinquenta e dois.

por Ana Luiza Guimarães Pereira enviado para o Portal Geledés

Ilustração: Keith Mallett

No capítulo, Djamila nos conta um pouco da história de Tyrus Byrd, missionária cristã e escrivã, que venceu as eleições da pequena cidade de Parma, Missouri, nos Estados Unidos, onde morava, derrotando um homem branco que já ocupava o cargo há 37 anos. No decorrer do texto, percebemos dificuldades enfrentadas por Tyrus no poder, como por exemplo a demissão de servidores públicos, alegando questões de segurança (Cf.Djamila Ribeiro, p.58)

Através da leitura precisa de Djamila, observamos que a estrutura racista e machista da sociedade não consegue lidar com a subversão. Digo subversão porque a sociedade sempre espera uma posição de subalternidade de mulheres negras, e faz disso regra. Uma mulher negra que ouse falar é demais para sua estrutura racista e patriarcal.

Quando cito minha mãe no início do texto, é porque presenciei inúmeras situações vivenciadas por ela que reforçam a não-aceitação dos posicionamentos de uma mulher negra. O mais recente foi quando a chamaram de extremista. Mas pasmem, ser chamada de extremista foi a coisa que mais me orgulhou dela.

Na ocasião, ser chamada de extremista significava assumir posições antirracistas, contra LGBTfobia e anticapitalista. Minha mãe não se calou frente as inúmeras asneiras ditas e levantou sua voz. Levantaram mais alto. Minha mãe levantou mais ainda. Eu acompanhei aquilo tudo e só consegui chorar. Naquele momento, minha mãe era detentora do discurso e isso para uma sociedade racista é inadmissível. Minha mãe falou e cada palavra dela me atingia interiormente, servia para mim como instrumento de força. Ali, dividimos a experiência de resistir em todo e qualquer espaço.

É preciso desconstruir os lugares construídos para nós mulheres negras e isso é um exercício constante e doloroso. Apesar de ter sido forte a experiência vivenciada por minha mãe, foi difícil absorver o que tinha acontecido naquele dia. Não é fácil passar anos de sua vida sendo tachada de grossa, barraqueira. Como diria Djamila “É muito comum ouvir xingamentos do tipo “Que negra metida”, “Essa negra se acha” ou “Quem essa negra pensa que é?” quando saímos do lugar que a sociedade acha que é nosso.” (Djamila Ribeiro, p. 58)

Naquele dia, minha mãe se moveu, saiu do lugar que forçavam ela estar. Se moveu com tanta força que fez com que eu me movesse junto. A força dessa mulher me inspira.

Não nos calam mais, mãe.

 

Referência Bibliográfica

Quem tem medo do feminismo negro? / Djamila Ribeiro – 1 ° ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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