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“O Geração XXI é precursor do grande debate sobre as ações afirmativas” diz Cidinha da Silva

“O Geração XXI é precursor do grande debate sobre as ações afirmativas como estratégia possível de enfrentamento das desigualdades raciais. Ter estado ali foi uma grande alegria”, diz Cidinha da Silva.

A escritora e dramaturga mineira Cidinha da Silva, 51 anos, acaba de lançar “O Homem Azul do Deserto”, nome de uma das crônicas que dá título ao livro. Na obra, ela discorre sobre os vários Brasis, em que o racismo estrutural e o machismo são apresentados de forma inquietante. A escritora estreou na literatura com o livro de crônicas “Cada Tridente em seu lugar” (2006) e ainda é autora de “Africanidades e relações sociais: insumos para as políticas públicas na área de livro, leitura, literatura, e bibliotecas do Brasil” (2014), entre outras obras. Cidinha tem uma coluna no Jornalistas Livres e outra no Medium e escreve esporadicamente para o Diário do Centro do Mundo e o site da Revista Fórum.

Cidinha conheceu o Geledés aos 21 anos, em 1988, durante o Tribunal Winnie Mandela e, aos 24 anos, foi trabalhar na organização. Em 1999, implantou o programa Geração XXI (a primeira ação afirmativa em Educação no Brasil voltada a jovens negros), coordenando o programa até 2003 e supervisionando – o em 2004.  Foi presidenta do Geledés entre 2000 a 2002. Neste entrevista à coluna Geledés no Debate, Cidinha fala sobre a construção de sua obra e o impacto de sua atuação no Geledés em sua vida.

Por Kátia Mello

Geledés– Em “O Homem Azul do Deserto”, suas crônicas se aproximam muito da linguagem poética. Como é a construção de seus textos e como escolhe seus personagens, como o tuaregue Bodô do Vale do Jequitinhonha, na crônica em que nomeia o livro?

A prosa poética é uma busca constante, um aspecto da linguagem que me interessa muito. Minhas personagens, de um modo geral, são arquetípicas. Eu as construo como síntese de coisas que quero dizer, aspectos da vida e do pensamento que quero destacar. São meus bonecos de lama, me sinto com emanações de Nanã e Oxalá ao dar-lhes o sopro da vida.

Lis Pedreira

Geledés– – Como já o título da crônica revela “Iku o menino que roubava livros”  faz um paralelo ao romance “A menina que roubava livros”, romance do escritor australiano Markus Zusak. Como a literatura influencia sua obra?

As influências de uma artista se dão pelo menos em dois níveis: o primeiro e mais amplo é o da inconsciência, os outros que leem e analisam a obra conseguem detectá-las melhor do que a gente. O segundo nível é consciente e aí acontece pelas escolhas de leituras, no caso específico da literatura. Escolho as coisas que gosto, que me alimentam, que eu gostaria de ter escrito. Tenho grande interesse na literatura produzida por meus contemporâneos e especialmente pela literatura escrita por mulheres negras do mundo inteiro, uma literatura que reinvente a linguagem. Eu as persigo. Não tenho interesse em coisas que façam reprodução crua da realidade.

“As ações afirmativas estão sob ataque nas mais de cem universidades estaduais e universidades públicas federais  que as adotaram desde 2002”.

Geledés-Em que idade começou a escrever e como foi optar por viver da escrita? Nesse sentido, quais foram seus maiores desafios?

Outro dia me lembrei que a primeira coisa que escrevi foi aos 8, uma adaptação de um livrinho infantil pra encenar em sala de aula, mas tudo isso era bobagem, obviamente. Coisa de criança. Escrever a sério foi na vida adulta, já que o que escrevi na adolescência também tinha qualidade zero. Não vivo da escrita. Viver da escrita para mim significa auferir recursos econômicos que garantam a materialidade da minha vida. Provavelmente eu decidi “viver para a escrita” em determinado momento, ou seja, escrever passou a ser um caminho incontornável. O principal desafio é achar tempo para escrever (no sentido mental) e financiar o tempo da escrita (no sentido prático, econômico). Em outras palavras, meu principal desafio é conseguir proporcionar a mim mesma um tempo confortável e saudável para dedicar à escrita criativa.

Geledés-Na crônica “Terrinha”, como em tantos outros escritos, são visíveis os elementos mineiros. O quanto de Minas Gerais está em sua escrita e como isso se traduz?

Creio que tem muito de Minas em mim e na minha obra. Gosto de ser mineira, acho legal. Gosto mais de Minas do que de Belo Horizonte, minha cidade natal. Minas é um barato, é múltipla e polifônica. Eu fui criada entre montanhas querendo saber o que tinha atrás delas e experimentar o mundo que eu não via, ao mesmo tempo em que, ser cercada por montanhas me ensinou a preservar o que é meu, o que é íntimo, e esse aprendizado das Minas conforma minha vida e meu trabalho literário.

Geledés– Em “O Homem Azul do Deserto”, a cantora Elza Soares e a ativista americana Angela Davis (a quem você chama de ícone) são tratadas como referências. Quais foram as maiores influências em sua vida literária e de ativista?

De ativista de Direitos Humanos: em primeiro lugar, Sueli Carneiro e em segundo, Luiza Bairros. Tive a graça de ter conhecido as duas muito jovem e de ter convido com Luiza desde os 24, 25 anos e com Sueli desde os 21. Sueli é responsável por tudo o que aprendi em política e pelas coisas boas que eventualmente fiz e, seguramente, não tem participação nas bobagens, essas estão sob minha responsabilidade exclusiva.

No caso da literatura não falo em influências, mas em escritoras e escritores que admiro, cujo trabalho me inspira muito e gosto de ler. Vou citá-los mais ou menos por ordem de entrada na minha vida. Carlos Drummond, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos; Machado de Assis e Lima Barreto; Adélia Prado; Edimilson de Almeida Pereira e Leda Martins; Elisa Lucinda; Carolina Maria de Jesus e João do Rio; Paulina Chiziane; Ana Maria Gonçalves e Paulo Lins; Ismael Beah Scholastique Mukassonga e Leonora Miano.

Geledés– Em alguns de seus textos, como em “Coração suburbano também fere e se locupleta da estigmatização das negras”, você defende a escritora Elisa Lucinda ao ser acusada de “não negra” por alguns ativistas por não supostamente se encaixar em determinado modelo de ativismo. Como vê o papel de escritoras negras e outras mulheres de relevância na mídia diante de seus públicos?

No texto mencionado não considero que eu defenda Elisa, ela não me outorgou esse lugar, tampouco precisa dos meus préstimos como advogada informal. O que fiz ali foi construir uma argumentação com base no que tem sido um princípio de vida para mim, as pessoas são livres para expressarem-se politicamente como quiserem. A liberdade para nós, artistas, é um aspecto essencial para criar. Do ponto de vista da performance política e discursiva, advogo também que as pessoas têm liberdade para fazer o que lhes convier. Não admito que ninguém defina roteiros para minha atuação pública, procuro não fazer o mesmo com outras artistas, portanto, sei do meu papel e não me meto com o papel das outras pessoas, negras, principalmente.

Geledés – Como uma ativista de Direitos Humanos, os assuntos relacionados ao racismo, à intolerância religiosa e sexismo estão presentes em toda a sua obra. Como essas questões adentram seus textos?

Fui ativista de Direitos Humanos que e as questões do campo continuaram caras à escritora Cidinha da Silva e estão disseminadas no meu trabalho, pelos meus livros. Talvez a resposta seja essa, elas estão disseminadas pelos meus textos. Em setembro próximo lançarei meu primeiro livro de contos no qual há um conjunto de textos que mexe fundo no racismo religioso, ambientando-o em situações ficcionais. O livro se chama Um Exu em Nova York. É uma experiência de agregar, diferente do que venho fazendo que é distribuir.

Geledés-Além de escritora, você também é blogueira. Como é a sua relação com as mídias sociais e o que elas trouxeram para a comunicação com a população negra na Era da Internet?

Minha alfabetização digital é quase nula. Uma amiga criou um blogue para mim em 2008 porque vi aquilo e achei que era um espaço que eu precisava ocupar. Fiquei com esse blogue-carroça, totalmente ultrapassado por 10 anos. Neste 2018 outra amiga se ofereceu para mudar o template do meu blogue e melhorar a navegação que era um filme de terror. Agora ele está decente, mantendo a simplicidade que é o jeito de eu conseguir operá-lo. Mais do que no blogue pessoal, minha atuação mais representativa e capilar é nos portais de notícias. Já escrevi para a revista Fórum, escrevo de vez em quando para o Diário do Centro Do Mundo. Tenho uma coluna no Jornalistas Livres e outra no Medium. Com alguma frequência o portal Geledés reproduz textos publicados por mim. Isso faz com que as pessoas me leiam bastante e minha interação com elas é pelos conteúdos que produzo, não mantenho com quem me lê um tipo de interação de celebridade internáutica que opina sobre todos os temas (com destaque para aqueles midiaticamente explosivos e para as futilidades digitais); não faço diário da vida pessoal e não alimento tretas. Minha meta é a de interpretar o Brasil pelas lentes das relações raciais e de gênero nas crônicas e textos opinativos. Produzo conteúdo com esse objetivo.

Geledés-Aos 21 anos, você chegou ao Geledés – Instituto da Mulher Negra. Quem era Cidinha da Silva quando entrou na instituição e como saiu dela?

Eu era uma menina cheia de sonhos e ambições, principalmente a ambição de me preparar para conquistar o mundo. Escolhi Sueli Carneiro como a pessoa que poderia me preparar e ela, generosa como é, me deu corda, me deu crédito, me deu lastro, apostou em mim, me deixou crescer, me apoiou, me projetou e, sempre que minha arrogância permitiu, me corrigiu. Talvez tenha faltado um pouco de colo, por durezas dos dois lados, de minha parte, eu não sei pedir. Saí da instituição preparada, com um nome construído, tendo muito orgulho de ter ajudado a consolidar Geledés ao longo da primeira metade de sua existência. Saí da instituição honrando todo o investimento que ela fez em mim, ao qual agradeço, e construindo uma história autônoma e vitoriosa, ancorada em feitos que me orgulham e alegram muito. Faço bom uso do instrumental que Geledés me deu para me movimentar no mundo da política.

Geledés-Além de ser a mais jovem presidenta, você foi responsável pela coordenação do projeto Geração XXI. O que levou dessas experiências para sua vida pessoal e profissional?

Tenho muito orgulho de ter presidido Geledés, porque durante muitos anos a organização foi a coisa mais importante da minha vida e a ela dediquei boa parte da minha juventude. Depois de alguns anos como diretora, eu queria o posto máximo. Não foi fácil chegar à presidência, eu não tinha votos espontâneos da maioria da diretoria, minha eleição foi resultado de uma costura política delicada e esse momento foi de grande aprendizado. Aprendizado por um certo desencanto também, afinal não bastava apenas trabalhar e ter um trabalho reconhecido para alcançar certas instâncias. Geledés foi uma grande escola, a maior escola que frequentei, onde mais aprendi, aquela que me deu ferramentas para fazer política mundo afora. O Geração XXI é precursor do grande debate sobre as ações afirmativas como estratégia possível de enfrentamento das desigualdades raciais. Ter estado ali foi uma grande alegria. A gente contribuiu para mudanças positivas na vida de milhares de jovens negros brasileiros que entraram nas universidades públicas pelas cotas raciais a partir de 2002 (o Geração é uma ação afirmativa de 1999). Sinto a alegria de ter feito história.

Geledés-Seu livro “Ações Afirmativas em Educação experiências brasileiras” foi lançado em 2003. Como vê a questão das cotas nas universidades desde então e como analisa a formação dos coletivos universitários?

Esse livro foi um dos 10 primeiros livros publicados no Brasil sobre o tema das ações afirmativas para negros e hoje, 15 anos mais tarde, ainda faz muito sentido e continua sendo utilizado, agora, como documento de análise das ações afirmativas naquele momento. As ações afirmativas estão sob ataque nas mais de cem universidades estaduais e universidades públicas federais  que as adotaram desde 2002. Uma das ações iniciais do desgoverno temer (em minúsculas, mesmo) foi atacar e destruir as frágeis políticas de permanência estudantil presentes em algumas universidades. Os coletivos negros que poderiam se dedicar a aprimorar as ações afirmativas são agora obrigados a lutar para que elas continuem existindo e mais, para que a universidade pública não seja destruída, porque este é o projeto, destruir a universidade pública para “justificar” a privatização.

Geledés – A partir de sua obra “Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil” (2014), foram feitas propostas de políticas públicas para o setor do livro e literatura, incluindo a elaboração de um Dicionário Biobibliográfico on-line de Literatura Negra e Periférica. Em quanto caminharam essas propostas?

Estou pesquisando isso. É o tema da minha tese de doutoramento a ser defendida em 2019. Por enquanto posso dizer que o Plano Municipal do Livro e Leitura da cidade de São Paulo, durante o processo de construção, dialogou muito com nosso livro, que também foi considerado como livro de referência pela CAPES (explicando melhor, a CAPES nos perguntou em 2016, se o livro, provavelmente dada a sua abrangência e número de citações, era um livro de referência).

Geledés – Em abril de 2016, você já dizia sobre o presidente Michel Temer que “ele não deve sequer saber que 72% dos pobres que saíram da extrema pobreza são negros; que 72% das pessoas beneficiadas pelo Bolsa Família são negras e que 68% dessas famílias são chefiadas por mulheres. Que 71% dos beneficiados pelo Minha Casa Minha Vida são negros”. Como vê sua gestão?

Isso não é uma gestão, isso é um desgoverno. Considerar o golpe e seus sujeitos com uma gestão seria legitimá-los.

Geledés – Estamos em ano eleitoral. Se tivesse que eleger os principais pontos a serem considerados por um candidato à presidência, quais seriam?

Assim, de pronto, diria que serão necessários três pontos: Desmontar o golpe em tudo o que for possível, mesmo que isso leve (e levará) muitos anos; investir em meios de informar e formar a população sobre o que foi o golpe (o que não fizemos com a ditadura civil-militar de 1964) e todas as suas implicações; considerar o racismo como fator estrutural da sociedade brasileira e pensar todas as políticas públicas a partir disso.

 

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